Festival do Rio: “Drive My Car”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

“Temos que seguir vivendo, Tio Vanya” – é a pura e simples frase final de Sonya na peça de Tchekhov. É também como termina (ou quase) Drive My Car, um dos concorrentes ao Globo de Ouro de filme estrangeiro. Seguir vivendo apesar dos sofrimentos é como manter o carrinho vermelho de Yusuke em constante movimento pelas ruas e estradas do Japão, entre Tóquio, Hiroshima e Hokkaido.

O interior do carro é o refúgio perfeito para Yusuke, ator e diretor de teatro famoso, principalmente depois que sua mulher, uma roteirista de televisão, morre subitamente. Ela deixou uma versão gravada de Tio Vanya com sua voz e os espaços vazios para o marido praticar as suas falas no papel-título da peça. Yusuke ouve a fita obsessivamente enquanto dirige. Por isso, dois anos depois, ao ser convidado para uma residência artística em Hiroshima, ele não aceita bem a destinação obrigatória de uma motorista para guiar seu carro.

Baseado em conto de Haruki Murakami, o filme reedita a habitual construção multicamadas do escritor. No prólogo que dura 40 minutos, assistimos à mania do casal de fazer sexo enquanto ela inventa histórias para seus roteiros da TV. Vemos também que Yusuke releva a traição da mulher com um jovem ator, que reaparecerá no elenco da montagem de Tio Vanya em Hiroshima.

Entre os ensaios da peça e os longos trajetos no carro com a motorista Misaki, Yusuke vai gradualmente adquirindo a consciência de que sua mulher não era a única a ser duas pessoas ao mesmo tempo. Todos nós, afinal, temos pelo menos dois lados que se dão (ou não) a conhecer em diferentes contextos da vida. As aproximações com o ex-amante de sua mulher e com Misaki trazem à tona segredos, culpas e inclinações que influem no modo de ser de cada um.

A compreensão mútua pode se dar mesmo à falta de um “idioma” comum. A montagem de Tio Vanya é preparada com um elenco multilíngue, em que cada ator se expressa no seu idioma, incluindo uma Sonya muda usando a linguagem de sinais.

Durante quase três horas, o diretor Ryûsuke Hamaguchi conduz esse pequeno emaranhado de histórias com bastante clareza e sem nenhuma pressa. Combina o filme de estrada com o “filme de teatro” e o drama psicológico num todo coeso e despido de efeitos. O diálogo sutil entre vida e peça me trouxe à lembrança Moscou, de Eduardo Coutinho, criado em torno de As Três Irmãs, também de Tchekhov. Ambos os filmes concluíram lindamente sua exposição com dicções inusitadas para as linhas finais das respectivas peças. A voz de Coutinho em um; os sinais de uma atriz áfona em outro.

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