Festival do Rio: “Sol”

Recomendo a quem for ao festival algumas medidas essenciais: lembre-se de levar o seu comprovante de vacinação, que pode ser o certificado digital do ConecteSUS ou o comprovante em papel. Sem isso, a entrada nos cinemas não será permitida. Chegue de máscara e mantenha-a cobrindo o nariz e a boca durante todo o filme. Procure guardar o maior distanciamento possível entre as poltronas ocupadas.

Depois de uma estreia claudicante com Jonas e uma parceria trepidante com Anna Muylaert em Alvorada, a diretora Lô Politi alcança um patamar de solidez com Sol, misto de filme de estrada e drama familiar muito bem articulado. Para começar, existe um eixo consistente no personagem de Teodoro (Rômulo Braga), um desenhista separado da mulher que recebe a filha de 10 anos (Malu Landim) para um mês de férias em Salvador. É a chance de conseguir uma conexão que ainda não tem com a menina. Logo, porém, o passado toca no celular. Seu pai (Everaldo Pontes) está à beira da morte depois de tentar se afogar no interior da Bahia. Teodoro e a filha pegam a estrada para ir até lá.

Em termos de família, passado e futuro parecem igualmente difíceis para Teodoro. Ele odeia o pai por razões que serão esclarecidas mais tarde. Espera que ele morra logo – o que, para sua surpresa, não acontece. Ao contrário, a pequena Duda vai se deixar fascinar pelo sertão e criar um laço de compaixão com o avô, presa de uma espécie de demência que nem sempre se confirma como tal. Assim é que a viagem vai se prolongar por hotéis e bares de estrada. A escultura de uma mulher, obra do velho, assume um papel de quarto viajante, ao mesmo tempo que simboliza os descaminhos de uma célula familiar.

Lô Politi trabalha com propriedade e senso de medida a relação entre os personagens. O elenco está impecável, com destaque equivalente para a dupla tensão em Rômulo, a espontaneidade de Malu e a performance quase sempre muda de Everaldo Pontes. Algumas sequências sintetizam maravilhosamente os dilemas de Teodoro. Uma delas se passa à porta de um banheiro de estrada, quando o próprio espaço cênico e sonoro exprime a preocupação do rapaz entre a filha e o pai.

Ecos talvez involuntários de Central do Brasil podem ser ouvidos tanto no movimento emocional rumo ao sertão, quanto na trilha sonora e no desnorteamento de Teodoro à procura de Duda num mercado, o que lembra muito o transe de Fernanda Montenegro numa procissão.

A pontuação com o tema do mar, revezando as ideias de afogamento e afloramento à tona, talvez seja um clichê descartável. No entanto, de alguma forma isso também acaba se integrando organicamente a uma narrativa que me mobilizou da partida à chegada.

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