TRANSAMAZONIA
Como “filme de gringo” que é, Transamazonia é superficial e supérfluo, mas não chega a ser ofensivo. Coproduzido por Brasil, Alemanha, Suíça e França, rodado no Pará e na Guiana Francesa, e finalizado em Taiwan, é exemplar de um tipo de produto cinematográfico da globalização. Tendo como pano de fundo a resistência dos indígenas (os fictícios iruatés) à invasão de suas terras por madeireiros, a diretora sul-africana Pia Marais criou um drama de mistério sobre identidade e manipulação da fé.
Sobrevivente de uma queda de avião na mata amazônica, a menina Rebecca é resgatada por indígenas e identificada como filha de um missionário estrangeiro. Crescida dentro da missão, ela se torna uma curandeira famosa, conhecida como Missionarinha. O filme nos deixa testemunhar algumas curas da menina, sempre no lusco-fusco entre o espetáculo da fé, o poder da sugestão ou um eventual pendor para o milagre. Quando não em elipses evasivas.
O missionário Lawrence (interpretado pelo dançarino e performer Jeremy Xido) se coloca como mediador dos conflitos entre indígenas que ele evangeliza e os interesses dos madeireiros. Rebecca (Helena Zengel) será o instrumento de negociação se conseguir despertar do coma a mulher do dono da serraria (Rômulo Braga, o homo brasiliens do cinema recente).
Transamazonia coloca muitas questões a discutir. A face colonizadora das missões evangélicas é uma delas, a par de qualquer esforço pela pacificação na floresta. Outra é a manipulação dos anseios das pessoas em nome de uma fé alheia às tradições locais. Outra ainda é a representação dessas mesmas questões e das partes em conflito por autores estrangeiros, que geralmente tende ao estereótipo e à superficialidade.
Não acho que o tratamento aqui chegue a ser abusivo, até porque em boa parte se concentra na figura um tanto abúlica e angelical de Rebecca, alienada de sua personalidade e carregando um mistério sobre sua origem. Helena Zengel, revelada no inquietante Transtorno Explosivo, transmite bem esse estado de apatia até que os laivos de consciência comecem a lhe aflorar.
De maneira geral, o filme é bem conduzido técnica e esteticamente, com ótima fotografia de Mathieu de Montgrand, uma trilha musical inquietante do taiwanês Lim Giong e um grande contingente da etnia assurini participando da produção. A narrativa consegue ser intrigante, muito embora com nexos às vezes obscuros e sem um envolvimento emocional legítimo com os personagens e seus dilemas.
>> Transamazonia está nos cinemas.

