Nosso primeiro Oscar?

fevereiro 22nd, 2012 § Deixe um comentário

João Luiz Vieira me apresentou a pesquisa de seu ex-aluno Felipe Haurelhuk, cuja monografia de conclusão de curso (TCC) foi sobre a presença do Brasil no Oscar desde 1929. Segundo o professor, Felipe “descobriu dados bastante interessantes, tudo muito bem documentado, incluindo pesquisas na biblioteca da Academy of Motion Pictures, em Los Angeles”. A meu pedido, Felipe escreveu esse artigo sobre as chances de nossa música faturar o primeiro Oscar para o Brasil. 

O primeiro Oscar para o nosso cinema

Felipe Haurelhuk

A proximidade do Carnaval e as altas temperaturas do verão abafaram um pouco a repercussão em nosso país da lista de indicados à 84ª cerimônia do Oscar, anunciada no último dia 24 de janeiro. Uma pena, já que a cinematografia brasileira finalmente está prestes a conquistar, depois de mais de oito décadas, seu primeiro “prêmio de mérito da Academia” (nome de batismo dos troféus). Ou melhor dizendo: nossa música popular, em uma irônica indicação que reescreve uma longa história de flerte brasileiro com o prêmio.

Desde o início das cerimônias, em 1929, 13 brasileiros natos ou radicados já tiveram a honra de terem seus nomes indicados pela Academia. E o que muito pouca gente sabe é que o nosso pioneiro não era diretor, roteirista, fotógrafo ou ator. Era músico. Em 1944 o mineiro Ary Barroso, responsável por partituras clássicas da MPB como “Aquarela do Brasil”, foi o primeiro brasileiro a ser reconhecido pela organização. Ele foi o responsável pela melodia da canção “Rio de Janeiro”, composta ao lado do norte-americano Ned Washington para o musical “Brasil – Encontro No Rio” (Brazil. Estados Unidos, 1944). Infelizmente trata-se de um filme de difícil localização, nunca lançado em DVD nem no mercado norte-americano e muito menos em território nacional. Mesmo assim, neste link http://www.youtube.com/watch?v=to4mXckO6d0 é possível conferir a canção, interpretada pelo ator mexicano protagonista, Tito Guizar. De qualquer maneira, Barroso entrou para a história do nosso “cinema” por essa marca. E hoje, 67 anos depois, estamos prestes a conquistar nossa primeira estatueta dourada, mais uma vez, pelo trabalho dos profissionais da música. Carlinhos Brown e Sergio Mendes foram indicados mais uma vez na categoria Melhor Canção, pela melodia de “Rise In Rio”, do longa-metragem animado “Rio” (Rio. Estados Unidos, 2011).

Sem escarcéu midiático ou otimismo infundado, e ao contrário de diversas outras oportunidades relativamente recentes, desta vez as possibilidades de êxito são realmente muito grandes. A junta de músicos da Academia (responsável pelas indicações da categoria) reúne-se na sede da entidade em Los Angeles entre os meses de Dezembro e Janeiro para ouvir as canções e assistir aos filmes elegíveis nessa categoria. Para este ano foram 39 composições que, durante o processo de avaliação, recebem uma nota que varia entre 6 e 10. Apenas trabalhos com conceito igual ou superior a 8,25 são considerados finalistas na categoria, que neste ano resultaram em “Rise In Rio” e “Man Or Muppet”, de “Os Muppets” (The Muppets. Estados Unidos, 2011), cuja melodia e letras são de Bret McKenzie. Ou seja, das quase quatro dezenas de canções elegíveis, apenas essas duas despertaram a atenção dos votantes, que nesta segunda rodada terão apenas tais escolhas para decidirem sobre a vencedora. Uma possibilidade de no mínimo 50%.

Para além da matemática, o histórico de canções premiadas na categoria sempre privilegiou trabalhos derivados de grandes musicais ou longas de animação: “Over The Rainbow” de “O Mágico De Oz” (1939), “Talk To the Animals” de “O Fantástico Doutor Dolittle” (1967), “Fame” de “Fama” (1980), “Circle of Life” de “O Rei Leão” (1994) e “You’ll Be In My Heart” de “Tarzan” (1999) são alguns exemplos disso. Se até aí a corrida parece empatada pelo fato de Os Muppets ser um musical de grande sucesso da Disney, o histórico recente da categoria mostra que o perfil dos vencedores vem se distanciando de composições melosas e piegas, como já foi o mote da categoria em alguns períodos do passado. Entre as vencedoras nos últimos dez anos estão duas canções de hip hop: “Lose Yourself”, de “8 Mile – Rua Das Ilusões” (2002) e “It’s Hard Out Here For A Pimp”, de “Ritmo De Um Sonho” (2005), uma canção “indiana” (“Jai Ho”, de “Quem Quer Ser Um Milionário”, em 2008) e até mesmo uma canção em espanhol: “Al Otro Lado Del Rio”, de “Diários de Motocicleta” (2004). Há uma mudança gradual no perfil das canções, sejam elas premiadas ou somente indicadas. E cá entre nós, a música de “Rio” é tecnicamente superior à dos Muppets. Portanto, o Brasil deverá finalmente colocar as mãos em um Oscar na noite do próximo dia 26 de fevereiro. E ironicamente, assim como há 67 anos, não pelo mérito de nossos cineastas, mas de nossos músicos.

Não posso deixar de citar, por fim, o quanto a figura de Carlinhos Brown é alegórica nessa provável conquista. Ao contrário de nossos representantes cinematográficos outrora indicados (Fernando Meirelles, Walter Salles, Bruno e Fábio Barreto, Fernanda Montenegro, Carlos Saldanha e o próprio Ary Barroso), Brown não tem suas origens fundadas em uma família de posses do Sudeste. Não faz parte da elite branca intelectual brasileira, que elege seus cânones culturais e possui os meios econômicos e políticos para entrar pesado no jogo comercial que também é o cinema. Negro, nascido nas periferias de Salvador, Brown é aquele que levou a influência do som afro baseado na forte percussão aos blocos de Carnaval da Bahia, ainda na década de 1980. É aquele que levou garrafadas por ter tido a ousadia de reproduzir sua música “de baixa qualidade” durante a programação do Rock in Rio 3. E que, ao lado de Sergio Mendes e da compositora norte-americana Siedah Garrett, provavelmente fará o Brasil finalmente receber seu primeiro Oscar pela excelência do trabalho.

Felipe Haurelhuk

Luz tropical brasileira

fevereiro 18th, 2012 § 1 Comentário

Waldemar Lima, o fotógrafo de Deus e o Diabo na Terra do Sol, e Linduarte Noronha, diretor de Aruanda, morreram recentemente no espaço de pouco mais de uma semana. Ambos tinham a ver com a descoberta de uma luz especificamente brasileira para o cinema, ali na primeira metade dos anos 1960. Hoje publico aqui um texto que Waldemar escreveu especialmente para a dissertação de mestrado de Iara Magalhães, de Uberlândia (MG). Essa preciosidade me chegou às mãos através de Joel Pizzini, a quem agradeço.

Deus e o Diabo na Terra do Sol

LUZ TROPICAL BRASILEIRA

Waldemar Lima

A qualidade da luz do sol, originalmente branca, que chega à terra, pode ser dura ou suave dependendo da incidência e da largura da camada atmosférica que ela atravessa. Nas regiões tropicais, a largura da atmosfera é estreita, a luz do sol a atravessa perpendicularmente e chega à superfície da terra como uma luz dura e branca com sombras negras e cores fortes.

Se não houvesse absolutamente nada no espaço terrestre, nem poeira nem gases (como acontece no espaço sideral), o céu seria negro. A luz do sol, ao atravessar a atmosfera terrestre, encontra moléculas de gases de várias densidades, poeira e minúsculas gotas de água em suspensão, que refletem, refratam, difundem e dispersam a luz. O céu tem, dependendo da hora do dia e da região, luz de diferentes intensidades. As minúsculas gotas de água em suspensão são os principais dispersadores das ondas luminosas curtas (a extremidade azul de espectro) e responsáveis pela tonalidade azulada do céu.  Continue lendo

As ricas, as pobres, as heroicas

fevereiro 14th, 2012 § 1 Comentário

Um único festival não é suficiente para propiciar grandes conclusões, mas pode fornecer algumas pistas sobre como um tema ou personagem está sendo tratado no cinema atual. Durante o 12º Mumbai International Film Festival eu focalizei minha atenção nas imagens de mulher indiana que emergiam dos documentários exibidos em várias seções do festival.

Uma variedade de personagens e approachs cobria desde uma princesa do Rajastão filmada por uma cineasta belga até meninas lutadoras de boxe de Uttar Pradesh documentadas por uma jovem diretora recém-saída de uma escola de cinema de Calcutá, passando por mães de aluguel numa “babies farm” do Gujarat. E incluía heroínas contemporâneas envolvidas com a assistência a moças vilipendiadas e com protestos políticos anti-castas. Um vasto espectro da sociedade indiana e seus problemas passava pelos sáris e jeans dessas mulheres.

Memórias de uma Princesa Hindu põe em contraste imagens do fausto da era dos marajás com a ruína atual de seu patrimônio através das reminiscências e cenas de arquivo de Gayatri Devi, a última Maharani (esposa de marajá) da Índia. Ainda uma mulher bonita e elegante quando filmada por Françoise Levi em 1996, Gayatri em seus dias de maior glória foi amiga de reis e presidentes, chegou a ser comparada com Jacqueline Onassis, fundou o primeiro colégio para moças do Rajastão e liderou um partido de oposição a Indira Gandhi. Morreu em 2010, como sempre reverenciada por todas as castas – sobretudo pelas humildes mulheres “intocáveis” que então habitavam seu antigo e imenso palácio em Jaipur. As imagens de Gayatri revisitando seus palácios em ruínas estão entre as mais potentes do filme. Boa parte da história da Índia moderna está representada por sua história particular: a perda de poder e privilégios pelos marajás e, ainda assim, a manutenção de certo grandeur, quase ficcional, nas atitudes e nos ideais. “Nada me influencia”, é como ela responde a uma pergunta da cineasta sobre sua formação.

Se Gayatri Devi, em seus últimos anos, praticava a caridade como elo com seu passado de opulência, a protagonista de Pink Saris, Sampat Devi, é uma mulher do povo que devota sua vida a ajudar outras mulheres. Ela lidera uma certa Gangue Cor-de-Rosa, teoricamente dedicada a defender e acolher mulheres vítimas de violência e abandono numa paupérrima região do norte da Índia. Digo teoricamente por que não vemos a ação da gangue – o que pode ser uma deficiência do filme ou a insinuação de um artifício político da líder. Testemunhamos apenas o empenho individual de Sampat ao afrontar maridos irresponsáveis e sogros violentos, proteger meninas em fuga de casamentos arranjados e advogar por namorados de castas diferentes que desejam concretizar seu romance.

A relação maternal de Sampat com uma dessas meninas forma o núcleo emocional do filme, onde repercute a própria história pregressa daquela mulher forte e aparentemente invulnerável. Mas o conjunto de situações, envolvendo também familiares de Sampat, mostra a complexidade dessa personagem megalomaníaca, contraditória e, no fundo, uma grande farsante do bem. Os “processos” informais abraçados por Sampat desnudam na prática as convenções mais retrógradas da sociedade indiana. Nesse bojo há lugar para o espanto, o humor e instantes de tamanha comoção que poderiam ter saído da criação de Ingmar Bergman. Pink Saris foi exibido no É Tudo Verdade de 2011.

Atuando em esfera diferente de Sampat Devi, mas em front ainda mais arriscado, está Sheetal Sathe, a jovem cantora de protesto que domina os momentos finais de Jai Bhim Comrade, do veterano Anand Patwardhan, um dos mestres do doc político na Índia. Um grande painel da luta contra a discriminação dos “intocáveis”, esse longo e detalhado libelo revela nas entrelinhas a crescente participação das mulheres nos Ambedkarite Dalits. Esse movimento inspira-se no legado antissegregacionista de B.R. Ambedkar, um raro dalit bem-sucedido a quem Gandhi chamou para redigir a Constituição da Índia independente. A cantora, vivendo atualmente na clandestinidade depois que companheiros do seu grupo musical foram presos sob acusação de “maoísmo”, pode rapidamente vir a ser uma heroína na luta dos dalits contra os tabus religiosos e sociais que mantêm em vigor o hediondo sistema de castas. Mais interessante que ela, porém, é a tomada de consciência de sua mãe, flagrada em processo no próprio filme. Uma mulher a princípio devota e temerosa pelas atividades da filha, converte-se numa das cenas finais em mãe gorkiana, pregando abertamente pela mesma causa.

Um dos aspectos mais dramáticos das relações globais Norte-Sul é o fornecimento de recursos corporais das mulheres indianas para o mercado de aquisições europeu e norte-americano. Outros documentários já enfocaram o comércio internacional de transplante de órgãos e de cabelos. Womb of the World, de Rajendra Srivathsa Kondapalli, aborda a contratação de mães de aluguel (surrogates) para atender à demanda de casais de países mais ricos. O filme se concentra numa clínica de Anand, cidade do estado do Gujarat, onde as surrogates se internam pelos nove meses em que carregam no ventre o ovário e o sêmen alheios. Para essas indianas, o contrato representa a possibilidade de saldar dívidas, comprar uma casa e pagar a educação dos seus próprios filhos. Para os pais contratantes, é a chance de realizar um sonho impossível.

Womb of the World sublinha seu tema com ênfases de um estilo por demais televisivo e às vezes pode soar como um institucional da clínica, na medida em que rapidamente descarta os argumentos contrários a essa prática bastante discutida. Mas não se pode negar a eficácia com que acompanha o processo de um casal canadense em sua relação emocionada com a gravidez vendida por uma humilde surrogate indiana. Um estudo de caso como esse, mesmo se conduzido de maneira um tanto parcial e excessivamente dramatizada, pode ser mais elucidativo que um painel genérico cheio de estatísticas e depoimentos “especializados”.

No outro extremo da submissão representada pelos ventres de aluguel estão o fairplay e a autoconfiança das três irmãs retratadas em The Boxing Ladies. Recém-saídas da adolescência numa favela de Calcutá, as irmãs Fatma desafiam convenções de gênero e do comportamento muçulmano ao abraçarem o boxe como diversão e posteriormente profissão. O curta da também jovem Anusha Nandakumar consegue, a par de um grande poder de síntese, evidenciar o que há de semelhante e de diferente entre Zainab, Bushra e Sughra. Cada uma tem suas particularidades no que julga ser feminino, mas todas se igualam na forma lúdica e resoluta com que enfrentam socos e preconceitos.

Nesses cinco filmes muito distintos, alguns dirigidos por cineastas estrangeiras, pulsam retratos capazes de pontuar as dinâmicas do feminino num país onde essa ainda é uma questão crucial. O cruzamento de tradições religiosas, culturais, sociais e econômicas faz hoje da mulher indiana um laboratório onde se passa de tudo: da nobreza à vilipendiação; da precariedade ao heroísmo.

Imagens urgentes

fevereiro 10th, 2012 § 1 Comentário

"Nargis - When Time Stopped Breathing"

O Prêmio do Júri da Crítica (Fipresci) do 12º Mumbai International Film Festival, encerrado ontem, foi para o documentário Nargis – When Time Stopped Breathing, realizado por dois cineastas sob pseudônimo. Uma semana depois do ciclone que arrasou uma região de Myanmar (ex-Burma) em 2008, eles foram para o local desafiando a censura do governo militar contra qualquer mídia que não fosse oficial. O que colheram são imagens eloquentes e dolorosas da catástrofe ainda úmida. Imagens capazes de conectar a tragédia humana com a devastação material ao redor. O filme não tem uma cena sequer de arquivo nem qualquer retórica narrativa. Apenas um comentário eventual e meditativo dos realizadores, além das memórias ainda latejantes dos sobreviventes. De alguma maneira, lembrou-me a pureza documental de Shoah. Só assim teríamos a dimensão humana de um desastre em região extremamente fechada para o mundo.

Veja o trailer aqui:

Outros filmes que impressionam nosso júri:

Dreaming Taj Mahal, de Nirmal Chander. Um motorista de táxi paquistanês e sua família sonham com visitar a Índia, especialmente o Taj Mahal, mas seu pedido de visa é constantemente negado. O contencioso entre os dois países desde a Partição em 1947 é referido aqui pela visão de cidadãos comuns do Paquistão, que sofrem os efeitos da política e do terrorismo. Esse enfoque íntimo de uma família particularmente simpática toca a sensibilidade das pessoas nos dois lados da fronteira. O média-metragem foi nosso segundo candidato ao prêmio.

Shape of Shapeless, de Jayan Cherian. Esse diretor malaio radicado em Nova York é familiarizado com documentários experimentais. Shape of Shapeless é um perfil bastante ousado de um personagem idem: um travesti judeu que é artista burlesco, iogue e artesão. O filme exibe sem rodeios diversos processos corporais de uma criatura que desafia praticamente todas as noções de gênero, sexualidade, religião e comportamento. Foi talvez o filme mais agudo da competição internacional.

Flamenco de Raiz, de Vicente Perez Herrero. Exibido em Bombaim com um título em inglês, é talvez o melhor filme sobre flamenco que já vi. Enquanto os maravilhosos filmes de Carlos Saura, por exemplo, concentram-se no espetáculo e em grandes estrelas, esse doc vai ao encontro de figuras menos conhecidas, sobretudo o visceral cantor “El Álvaro”, que prefere ganhar a vida como varredor de rua em Málaga. Herrero quis falar das raízes populares do flamenco, da emoção legítima que turva os olhos dos ouvintes identificados com a emoção do canto, histórias de um gênero musical que nasceu como grito dos despossuídos. A montagem de falas intercaladas com passos de dança deixa clara a interação entre arte e modo de vida dos praticantes do flamenco.

Dancing With Dictators, de Hugh Piper. Perfil de um pequeno magnata da imprensa australiano que investe em jornais de países “tranquilos” como Vietnã, Camboja e Myanmar. Ross Dunkley é visto gerindo o Myanmar Times em meio ao processo das primeiras eleições no país em 20 anos. A equipe do filme trabalha clandestinamente, o tempo todo ameaçada por agentes da inteligência e próceres do governo militar que não estava nem um pouco disposto a entregar o poder a civis em 2010. Num tour de force documental de primeira ordem, Hugh Piper e seus colaboradores não perdem uma oportunidade de flagrar o que é fazer jornalismo numa ditadura implacável. Cobre as relações com a censura, o medo e os riscos da profissão, e o episódio que levou Ross Dunkley a passar 47 dias na prisão.

Prince, de Kurnal Rawat e Anand Tharaney. Uma pequena joia no cruzamento entre animação, ficção e documentário. Em seis minutos, a jornada de um táxi comum de Bombaim do nascimento à morte num mercado de carros desmontados. O curta explora a estética da “taxi-art” da cidade, remanescente dos filmes de Bollywood e da iconografia religiosa hindu. Seria meu candidato, não fosse o prêmio Fipresci um pouco sério demais para um curta-curtição.

Sobre outros filmes vou escrever num próximo artigo, dedicado a imagens da mulher indiana.

Premiados em Mumbai

fevereiro 9th, 2012 § Deixe um comentário

Uma lista rápida dos principais prêmios do 12º Mumbai International Film Festival. Nos próximos dias vou postar textos sobre alguns desses filmes e outros mais.

Competição internacional:
Melhor longa doc: Pink Saris (Inglaterra/Índia) resenha aqui
Melhor curta/média doc: I am Your Poet (India)
Melhor curta fi: Music in the Blood (Romênia)
Melhor curta animação: Prince (Índia)
Prêmio Fipresci (o júri de que participei): Nargis - When Time Stopped Breathing (Birmânia)

Competição indiana:
Melhor doc: At the Stairs
Melhor curta fic: Midnight Bioscope
Melhor animação: Journey to Nagaland
Prêmio Fipresci: Good Morning Mumbai! (animação)

Anotações do festival em Mumbai

fevereiro 7th, 2012 § Deixe um comentário

  • As projeções (todas digitais) do Mumbai International Film Festival são excelentes. Mesmo assim, o chato aqui precisou algumas vezes pedir ao operador que corrigisse a proporção da tela. Por sorte, a cabine de projeção é apenas uma mesa no fundo da plateia do Tata Theatre, facilmente acessível. O som fica no limite entre a clareza absoluta e o excesso de decibéis, como é praxe nos cinemas indianos. A pontualidade parece ser uma herança fixa dos colonizadores britânicos.
  • Mais difícil do que decifrar o Livro dos Vedas em sânscrito é compreender os critérios de quem programou as sessões da competição internacional. Curtas passam depois de longas e filmes completamente díspares foram reunidos numa mesma sessão. Quando há alguma relação, é desastrosa, como a que exibiu um longa extremamente dramático com sobreviventes do ciclone que devastou uma região da Birmânia em 2008 e, em seguida, uma alegre animação de Hong Kong sobre um casal que é separado por uma enchente, os dois sobrevivem miraculosamente e se reencontram tempos depois por um capricho do destino. A combinação foi, no mínimo, de mau gosto.
  • No primeiro dia do festival, um guarda fazia revista de bolsas na entrada do National Center for the Performing Arts. Ao ver minha câmera de vídeo, enfatizou que era estritamente proibido o seu uso naquelas dependências. Estranhei a interdição de câmeras de filmar num festival de cinema, mesmo fora da sala de exibição. Mas acho que logo alguém se tocou e suspendeu qualquer restrição. Eu e o documentarista David Bradbury, membro do júri oficial, não largamos nossas Dvcams.
  •  O Open Forum, onde se dão os seminários e debates matinais (foto à esquerda), leva seu nome a sério demais: é realizado num anfiteatro ao ar livre. O sol da manhã essa época do ano não chega a ser escaldante, mas garantiria um belo bronze caso os participantes não estivessem cobertos de roupas do tornozelo ao pescoço. Não há sequer uma bermuda à vista, nem em convidados estrangeiros.

 

Documentário brasileiro: a subjetividade liberada e a vida como performance

fevereiro 5th, 2012 § Deixe um comentário

Para deixar registrado aqui no blog, o texto que fiz especialmente para o livro Cinema sem Fronteiras – 15 anos da Mostra de Cinema de Tiradentes. Reflexões do Cinema Brasileiro – 1998-2012. Organizadoras: Raquel Hallak e Fernanda Hallak

Os 15 anos de existência da Mostra Tiradentes coincidem com um período de franca proliferação e renovação do documentário no Brasil. Em 1998, pelos meus registros, apenas um longa-metragem documental teve lançamento em cinemas: Atlântico Negro –Na Rota dos Orixás, de Renato Barbieri. Em 2011, estrearam em salas do Rio de Janeiro 22 documentários. Isso é apenas a ponta mais visível de um iceberg que se alarga no espaço cada vez maior ocupado pelos docs em mostras, festivais, editais, bem como na expansão da chamada cultura do documentário: publicações impressas e eletrônicas, cursos, seminários, estudos de cinema, etc.

A consolidação do modelo digital e mesmo as mudanças no estado de espírito do país nos últimos 10 anos favoreceram um certo retorno ao real como matéria-prima de criação audiovisual. Mas esse retorno ao real se deu sob uma nova perspectiva, guiado sobretudo pela ideia de subjetividade – essa palavrinha tão reprimida na história do cinema documental.  Continue lendo

Perto e longe de Bollywood

janeiro 31st, 2012 § Deixe um comentário

Junte as palavras Bombaim e cinema, e logo você pensará numa terceira: Bollywood. É da “cidade máxima” indiana que saem entre 120 e 150 “hindi films” por ano, os mais populares entre os vários cinemas das diversas regiões da Índia. Mas Bombaim, ou Mumbai para os não-colonizados, também joga suas fichas num tipo bem diferente de filme. A prova disso é que começa nesta sexta-feira a 12ª edição do Mumbai International Film Festival. Neste não haverá requebros na tela nem desfile de celebridades pop no tapete vermelho. O MIFF, realizado a cada dois anos desde 1990, é dedicado a documentários, curtas e animação.

Como jurado da Fipresci, vou me juntar ao dinamarquês Steffen Moestrup e ao indiano Utpal Borpujari para conferir o prêmio da crítica internacional. Não tenho ideia de como funciona um festival de cinema na Índia, mas a programação é das mais interessantes. A competição é dominada por filmes indianos, asiáticos e europeus, com poucas entradas americanas. Da América Latina comparecem apenas programas informativos de curtas da Venezuela e do México. O festival é ótimo principalmente para se tomar o pulso da produção não comercial do Oriente. Onde mais se pode ver filmes do Afeganistão, da Cachemira e animações produzidas em diversos países asiáticos?

Na programação paralela, constam também exibições comemorativas dos 100 anos de nascimento de Satyajit Ray, o célebre cineasta de Calcutá, e dos 150 anos do poeta e músico Rabindranath Tagore. Seminários e master classes completam o calendário. O documentarista David Bradbury (Chile: Hasta Quando?, Front Line), membro do júri oficial, fará uma palestra tipicamente intitulada Keep the Camera Rolling No Matter (Continue filmando aconteça o que acontecer). Um dos objetivos principais do MIFF é estimular a formação e a carreira de novos cineastas não comprometidos com o mainstream.

Promovido pelo Ministério da Informação e Difusão da Índia, o festival vai se beneficiar este ano da onda de prestígio que banha o cinema documental praticamente no mundo inteiro. Até Bollywood se descobriu agora interessada em investir no cinema do real. Javed Jaffrey, um dos mais festejados comediantes e dançarinos das telas, resolveu colocar seu prestígio no mercado da não-ficção. Ele criou a Indian Documentary Foundation para levantar fundos com vistas à produção e comercialização de documentários. Acaba de co-produzir um dos títulos que estarão na competição do MIFF, Inshallah Football (Futebol, se Deus Quiser). O doc enfoca uma família de Srinagar, capital da Cachemira, a disputada e belicosa região do noroeste do país, administrada pela Índia, o Paquistão e a China. O chefe da família é um ex-militante treinado por paquistaneses e casado com uma brasileira. Seu filho cresceu sob a guerra e encontrou no futebol uma razão de viver. Encorajado por um treinador argentino, ele sonha em vir para o Brasil num programa de intercâmbio. Mas a condição do pai torna as coisas muito difíceis para o garoto sair do país.

Na mão inversa, viajo hoje (terça) à noite via Frankfurt e Nova Delhi. Chego em Bombaim somente na tarde de quinta-feira. Depois do festival, que ninguém é de ferro, faço um pequeno périplo pelo sul da Índia, incluindo as cidades de Mysore, Chennai (ex-Madras), Madurai, Trivandrum, Kochi e as famosas Backwaters do estado de Kerala. Não sei como ficará a atualização do blog nesse período, mas pretendo manter um “diário de bordo” no Twitter e no Facebook. Se os deuses da conexão estiverem velando por mim, é claro.

Cenas indianas

janeiro 29th, 2012 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

Prosseguindo nos meus preparativos de viagem, divido com vocês essas duas curiosidades tipicamente indianas que encontrei no Youtube:

1. Um flashmob à moda bollywoodiana na gigantesca estação de trens CST de Bombaim:

2. Uma cena de trânsito tão ordinária quanto inacreditável em qualquer aglomeração urbana do país:

Uma sessão de cinema na Índia

janeiro 25th, 2012 § 1 Comentário

Aí vai mais um bom pedaço de memória da minha viagem à Índia em 2005. Uma sessão no popularíssimo e folclórico cinema Raj Mandir, na cidade de Jaipur, norte do país. O vídeo tem quase 9 minutos. Em seguida, leia alguns trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima, referentes aos costumes dos indianos dentro das salas de cinema.

Trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima. Enquanto o escrevia, o autor Suketu Mehta colaborava no roteiro do filme Missão Kashmir.

“Na grande maioria, os filmes comerciais híndis são musicais que contêm entre cinco e quinze sequências de canções. Os cineastas ocidentais abandonaram os musicais quando abandonaram o próprio cinema, em favor da televisão. Musicais exigem largueza, escala; não cabem em telas espremidas de dezenove polegadas. Houve outra exigência descabida que críticos e espectadores impuseram aos musicais de Hollywood: que a canção se ajustasse ao enredo. Os filmes híndis nunca obedeceram a essas diretrizes fascistas. A suspensão da descrença na Índia é imediata e generosa, e começa antes de os espectadores entrarem no cinema. É fácil suspender a descrença numa terra onde a crença é tão generalizada e vigorosa.
(…)
Os indianos levam seus filmes tão a sério quanto os italianos levam a ópera. Quando percebem que seus heróis divergem radicalmente do que deveriam fazer, os espectadores podem chegar às vias de fato. Enquanto preparamos o roteiro, lemos que em Ludhiana, depois da primeira sessão do filme Fiza, no qual o herói também faz um terrorista, a plateia ficou descontente com a maneira como seu ídolo era retratado e manifestou seu desapontamento levantando-se e depredando o cinema. Sinto agora uma imensa responsabilidade como roteirista. Construímos o filme olhando ansiosamente para o condutor de riquixá que está sentado numa das fileiras de baixo, com uma lata de gasolina.
(…)
Toma-se infinito cuidado, como dizem os jornais, para “não ferir os sentimentos de determinada comunidade”. Vinod (o produtor Vidhu Vinod Chopra) passa e repassa a questão de saber que religião as protagonistas femininas devem professar, o que pode ser ofensivo, o que pode ser bem aceito pelos espectadores. Finalmente, ele estabelece as diferenças: a senhora Khan, mulher do policial, é hindu, e Sufi, a namorada do militante, é muçulmana. As restrições sob as quais trabalhamos são peculiares ao país. Vinod não pode usar fade to black em seus filmes. Usou cinco num de seus primeiros filmes, quando saiu do Film and Television Institute of India, e a plateia começou a gritar e assoviar. Os espectadores achavam que a luz de arco voltaico estava apagando. No interior os responsáveis pela projeção cortam os fade outs dos rolos de filmes para impedir que a plateia quebre o cinema.
(…)
Nos cinemas da Índia, as plateias aprenderam a saber quando o filme vai terminar. Este senso é ajudado pelas portas que se abrem e pelas luzes que se acendem, cinco minutos antes do fim. As pessoas que têm crianças pequenas precisam sair logo, para pegar um táxi ou um riquixá. Portanto, os cinco minutos finais de qualquer filme híndi estão inevitavelmente perdidos, mesmo que a gente permaneça no cinema, porque a maioria das pessoas na frente se levanta. É por isso que os filmes terminam com uma canção, ou com uma breve reprise dos momentos mais importantes, como a vida de um moribundo passando diante dos seus olhos”.
(…)
Uma sala de cinema indiana jamais se torna uma câmara de inconsciência de massa como no Ocidente. Em primeiro lugar, não se pode mandar ninguém calar a boca. Todos falam à vontade, muitas vezes mantendo um diálogo com os personagens. Se um deus aparece na tela, as pessoas podem jogar moedas ou se prostrar nos corredores. Crianças berram; durante a execução de um número musical, um quarto da plateia pode se levantar e ir comprar lanche no saguão. Diálogo complexo não funciona, porque a maior parte do tempo a plateia não escuta. O som é tão ruim na maioria dos cinemas que, como no teatro, não pode haver sussurros num filme híndi, e a música precisa ser executada o tempo todo no volume máximo”.

Ondas de Tom

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

O documentário do Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim seria melhor definido como uma suíte audiovisual. Não há informações para interromper a música, não há cronologia para demonstrar nada. Tudo vem em ondas (waves), num fluxo caprichoso que vai nos seduzindo mais e mais para a infinita riqueza e a insuperável qualidade da música do Tom. Quando o filme termina, é como uma missa. As pessoas estão contritas e emocionadas, aplaudem e ficam grudadas na cadeira até quase o derradeiro crédito, a derradeira nota. Já se sabia muito e muito ainda se saberá sobre Tom. Mas aqui se trata somente (e maravilhosamente) de “ver” e ouvir a sua música, embalando o coração no colo e desejando que o filme perdure para sempre.

A pequena fábrica de matizes

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Os documentários produzidos pela Matizar de Guilherme Coelho têm apresentado algumas características comuns: a presença de diretores jovens, o bom gosto formal, a eleição de dispositivos interessantes e a procura de temas que fogem às pautas mais frequentes da atualidade.

Assim foi, por exemplo, Romance de Formação, de Julia Simone, perfil sintético de três jovens universitários brasileiros estudando longe de seus locais de origem. Já escrevi aqui sobre esse doc, destacando a convergência entre a linguagem do filme e a disposição dos personagens para perseguir arduamente seus objetivos.

Recentemente vi mais dois filmes da Matizar, estes voltados para a recuperação de expressões artísticas do passado. Um deles é dirigido pelo próprio Guilherme Coelho e tem como personagem central um crítico de arte. Um Domingo com Frederico Morais começa em chave intimista, com o crítico na cozinha de sua casa preparando o café da manhã de um domingo qualquer, um pouco como Manuel Bandeira no clássico curta de Joaquim Pedro. Mas logo a conversa se enviesa para outros domingos, os Domingos da Criação que Frederico Morais, então curador do MAM-Rio, promoveu em1971. A cada domingo entre janeiro e julho daquele ano, ele convidou artistas e público a se juntarem em atividades com materiais específicos: terra, papel, tecido, corpo, som, fios. Milhares de pessoas acorriam aos jardins do MAM numa catarse artística que não deixava de ter uma dimensão política no auge da ditadura.

Um Domingo com Frederico Morais

Tudo isso é evocado em tom de conversa informal, seja em torno de fotos e registros da época, seja em bate-papo de Frederico com participantes como Cildo Meirelles, Amir Haddad e Regina Casé. Embora o dispositivo do “domingo qualquer” não seja mais retomado, prevalece a atmosfera de reminiscência pessoal, bem distante do modelo mais clássico de recuperação didática. De quebra, o filme ainda incorpora uma discussão sobre a função do crítico entre o papel de gerador de manifestações artísticas e o de mero braço auxiliar do mercado.

Esse filme será lançado em breve na caixa de DVDs Retratos Contemporâneos de Arte, juntamente com três outros rebentos da produtora: Fernando Lemos, Atrás da Imagem, de Guilherme Coelho, Cildo, de Gustavo Moura, e 5+5+, de Rodrigo Lamounier.

Uma das corroteiristas de Um Domingo…, Letícia Simões, assumiu a direção de Bruta Aventura em Versos, mais uma iniciativa no sentido de trazer à luz a poesia de Ana Cristina César (1952-1983). Aqui também o formato de “biografia de artista” é matizado por uma abordagem não apenas memorialística, mas também mediada pelos rastros da poeta em jovens criadores de hoje. É Ana Cristina César conjugada no presente através das suas influências sobre poetas, escritores, dançarinos, atores, em sua maior parte mulheres.

Bruta Aventura em Versos

O retrato que da própria Ana emerge é tão fugidio quanto dizem ter sido aquela “sereia de papel”: uma sucessão de fugas, despistes, disfarces. As duras delicadezas de Ana são contadas por contemporâneos seus como Armando Freitas Filho e Heloísa Buarque de Holanda; são incorporadas por outros que nem chegaram a conhecê-la pessoalmente, mas foram tocados pela sua poesia; e são ilustradas por um videografismo flutuante, em que textos e iconografia sugerem uma memória difícil de aprisionar completamente.

Todos esses filmes têm ainda um traço comum: não são dós-de-peito documentais. Não trazem a última palavra sobre nada. Querem apenas trabalhar os matizes de histórias que clamam por ser contadas.

A mentira que altera o mundo

janeiro 20th, 2012 § 1 Comentário

A Separação entra em cartaz pouco depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e posicionar-se como favorito absoluto para o Oscar da categoria. É desde muito cedo candidato a melhor filme do ano nas futuras listas de dezembro.

Talvez só uma sociedade islâmica possa gerar filmes como A Separação. O moderno cinema iraniano, aliás, reflete muito as questões subjacentes à cultura islâmica. A noção de “guerra santa”, por exemplo, era dramatizada metaforicamente no cotidiano nos primeiros filmes de Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf  e Abbas Kiarostami. Já o magistral Asghar Farhadi trabalha em profundidade os limites entre ética e oportunidade, virtude e pecado, que fazem o lastro moral do cidadão iraniano.

Como no anterior Procurando Elly, Farhadi arma um tabuleiro de xadrez em que cada movimento de uma peça se reflete no conjunto. Em ambos os filmes, uma mentira é que detona os acontecimentos. É como se uma mentira fosse sempre capaz de alterar o mundo a partir daqueles que estão próximos. Para recompor o arranjo rompido, será necessário levar ao extremo o jogo das aparências e das conveniências. E o espectador à beira da poltrona de tanto suspense psicológico.

A primeira cena – o casal em plano fixo discute a separação com o juiz – nos mostra a excelência do trabalho de Farhadi com os atores e o texto (o conjunto do elenco ganhou os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim). A sequência seguinte – a família em casa começa a se desorganizar com a saída da mulher – expõe a eficácia do diretor no trato com atores, espaços e sentido. Os múltiplos pontos de vista da cena e os movimentos um tanto confusos exprimem a desorientação geral. Dali em diante, os vários dilemas vão se cruzar e interagir num fluxo irresistível. Enquanto dois casais se acusam reciprocamente, oscila a balança entre os interesses ecnômicos, as regras religiosas, as normas judiciárias, a solidariedade familiar, o compromisso ético e a compaixão humana. Tudo isso repercute, em graus diferentes, sobre o olhar mais inocente de duas meninas e um avô com Alzheimer.

Talvez haja apenas uma “facilidade” na escrita de Farhadi: os lances definidores da trama são adiados para o espectador mediante a interrupção deliberada de certas cenas. Isso pode parecer um truque primário de roteiro, mas seus efeitos são tão satisfatórios que tendemos a perdoar.

De frente para o palco

janeiro 17th, 2012 § Deixe um comentário

Carla Ribas em "Testemunha 4"

Estamos assistindo a uma nova onda de interesse pela relação entre o cinema brasileiro e o teatro. Diversos filmes têm investido nesse diálogo – a começar, talvez, por Moscou, de Eduardo Coutinho, que tentava abrir camadas de significação por trás dos ensaios para uma pseudomontagem de As Três Irmãs, de Tchekov.

Essa disposição do cinema para documentar e criar a partir de espetáculos teatrais conheceu um momento efusivo nos anos1990, a chamada era do vídeo. Naquela época, enquanto coordenava o setor audiovisual  do CCBB-Rio, eu programei com a produtora e curadora Irene Monteiro algumas edições da mostra Palco Eletrônico, onde diretores como Adriana Varella, Gilberto Gouma, Eduardo Vaisman, Rosane Svartman e Marisa Alvarez Lima apresentavam seus registros e ensaios filmados na boca de cena.

Estavam ali os precursores de uma geração que hoje inclui Eryk Rocha, Pedro Asbeg, Cristiane Jatahy, Marcelo Grabowsky e o Quarteto Pretti-Parente, entre outros. A variedade de abordagens do evento cênico é a principal característica dessa nova febre teatral.

Eryk e seu irmão Pedro Paulo Rocha assinam uma das cinco “(trans)versões autorais” do mega-espetáculo Os Sertões, editadas em DVD pelo Teatro Oficina com patrocínio da Petrobras. Os filmes (A Terra, O Homem I e II, A Luta I e II) destacam-se pelo apetite audiovisual com que se lançam à cena e aos bastidores da peça, e ainda pelo uso de 11 câmeras móveis, incluindo grua, steadicam e flyingcam.

Mentiras SincerasPedro Asbeg, que há dez anos vem dirigindo os DVDs da Cia. Armazém de Teatro, apresentou em festivais no ano passado o longa Mentiras Sinceras, exercício de captação das entranhas de uma montagem da peça Mente Mentira, de Sam Shepard (foto à esquerda). A linguagem fílmica se presta sobretudo a aprofundar a reflexão dos atores sobre seu trabalho. Em minha resenha de outubro último, eu classifiquei o filme como um thinking of da peça.

Outra incursão importante no rumo de um hibridismo entre cinema e teatro foi A Falta que nos Move, de Cristiane Jatahy, transposição para a tela de sua experiência homônima no palco. Tratava-se de reproduzir diante das câmeras a mesma aventura de improvisação de um grupo de atores reunidos à espera de outro que demora a chegar. Não fiquei muito seduzido pela proposta de Cristiane, na medida em que os recursos me pareceram repetitivos e os resultados, bastante inócuos tanto como cena quanto como cinema.

Outra ideia em que não embarquei foi a dos Irmãos Pretti e Primos Parente de filmar a peça Eutro, de Rodrigo Fischer, numa espécie de bolha preto-e-branco sem plateia. As câmeras de No Lugar Errado operam livremente diante e entre os quatro atores (dois casais) envolvidos num jogo cênico de atração e repulsa que se estende por uma longa noite. O teatro aqui é matéria bruta para uma filmagem minimalista (eu diria mesmo lacônica). A peça, por sua vez, me soou um tanto pueril, apesar da boa trip dos atores.

Deixo por último uma das experimentações mais curiosas nessa safra de cineteatro. Até porque Testemunha 4 vai ter uma sessão nesta quarta-feira, dia 18, às 20 horas, no Midrash Centro Cultural (Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon, Rio). Depois do filme, o diretor Marcelo Grabowsky e a atriz Carla Ribas conversam com a plateia.

Meio brincadeira, meio sério, costumo dizer que o filme é o cruzamento possível entre A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, e o documentário Zidane – Um Retrato do Século XXI. Explico. Testemunha 4, ganhador do prêmio de melhor direção da última Semana dos Realizadores, parte da montagem de O Interrogatório, de Peter Weiss, com direção de Eduardo Wotzik. Em setembro de2009, a peça, de seis horas de duração, foi encenada quatro vezes consecutivas numa “vigília cênica” de 24 horas ininterruptas. Durante esse período, os cerca de 40 atores não deveriam dormir nem sair do personagem, mesmo se estivessem fora de cena. Marcelo Grabowski optou por filmar a maratona com as lentes afixadas na atriz Carla Ribas, sua mãe.

A câmera concentra toda sua atenção nos closes dramáticos da atriz, no papel de uma das testemunhas no Julgamento de Frankfurt (1963-65), que condenou oficiais nazistas por seus atos em Auschwitz. Isso remete imediatamente à Joana D’Arc de Dreyer, que não esteve ausente das referências de Marcelo ao fazer o filme. Mas Carla Ribas também é vista nos momentos de repouso, refeições, nos bastidores do teatro etc. O filme se revela então uma testemunha do trabalho contínuo da atriz, de sua permanente “ocupação” pelo personagem. Nesse sentido, lembra o doc de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que acompanhava cada movimento ou inação de Zidane (e só ele) durante os 90 minutos de uma partida de futebol.

Nessas várias aproximações do jovem cinema brasileiro ao teatro, o que aparece em comum é o desejo de fugir ao mero registro, buscar uma interação diferente dos velhos modelos de filme-peça e, ao mesmo tempo, reinventar o que é tradicionalmente amaldiçoado como “teatro filmado”. Encarar o palco de frente e sem medo para produzir alguma coisa que só compete ao cinema.

Sucessos segundo Ely Azeredo

janeiro 16th, 2012 § Deixe um comentário

O crítico e amigo Ely Azeredo enviou comentários a respeito do assunto do meu post anterior, As contas do nacional-popular.  Mais que meros comentários, acho que merecem o destaque de um post especial.

Rabiscos às margens de seu estudo para Filme Cultura

>O CANGACEIRO – Um dos muitos enigmas, até porque é sabido que havia “caixas de ingressos 2″ no mercado exibidor. A coisa se complicou quando a Vera Cruz entregou o filme à Columbia para quitar dívidas. O filme de Lima Barreto rodou mundo (legendas em árabe, japonês etc). Na última rodada pelos grotões USA, ”O cangaceiro” passou como “anglo”, com título trocado, e elenco de nomes gringos, à moda do western espaguete.

>APLAUSOS ENGAJADOS – O Partidão mandava seus fiéis puxarem aplausos para alguns lançamentos “nacional-populares”. O caso mais conhecido: “O pagador de promessas”. O companheiro e autor da peça teatral, Dias Gomes, merecia.

>O ÉBRIO – Um dos maiores sucessos de nossa História. Infelizmente sem registros “matemáticos”. Os exibidores rogavam por cópias. Pelo menos até as vésperas do Cinema Novo a produção da Cinédia ainda rodava pelas periferias e pelo deep Brasil. Nada que empolgasse a classe média – ao contrário das chanchadas Atlântida.

>OS HOMENS QUE EU TIVE – Só faltou dar cadeia para a menina Teresa Trautman, 22 anos, estreante na longa-metragem - essa historia de “ter homens”…no Brasil Grande (e Macho) da ditadura militar.  Um estouro em 1973, no Rio, reforçado por polêmicas que atraíram a ira das censuras. Um grande circuito de SP reservara datas “a seguir”. Proibidíssimo. Quando Brasília largou o osso, muitos anos depois, a produção tinha perdido o Ponto G (a sexualidade estava na geléia geral) e os contratos de exibição deteriorados.

>MAZZAROPI – Sua história econômica nunca foi muito bem apurada. Sou testemunha ocular de que o pseudo-Jeca apreciava  levar dinheiro de bilheteria em maletas. Eram tempos de menos bandidagem, e ele não fazia cerimônia com isso nos escritórios das distribuidoras. A partir de 1958, quando se tornou produtor, fechava seus acordos de exibição com os donos de cinemas – por circuitos e, frequentemente, sala por sala. Tornou-se também distribuidor. Pelo que faturava (isoladamente) na capital de São Paulo, continuaria rico se perdesse o resto de SP e do Brasil.

>INGRESSOS BARATOS – Enquanto os filmes norte-americanos chegavam montados no lucro de seu mercado doméstico, as produções brasileiras sofriam com o tabelamento dos ingressos – fator de estresse que entrou pelos anos 1960. ”O cangaceiro”, por exemplo, estreou durante o último governo Vargas, que não admitia qualquer reajuste na entrada da grande diversão popular. Certamente ingressos menos nanicos não impediriam a grande adesão popular a filmes como os citados acima.

Ely Azeredo

As contas do nacional-popular

janeiro 12th, 2012 § 1 Comentário

Em tempos de muitas estatísticas sobre o mercado do cinema brasileiro, publico aqui a matéria que fiz para a revista Filme-Cultura nº 52, cujo tema de capa era uma história dos arrasa-quarteirão verde-amarelos. O artigo se refere aos sucessos de bilheteria dos anos 1960 e 70.

Numa cena do documentário Cinema Novo (Improvisiert und Zielbewusst), dirigido em 1967 por Joaquim Pedro de Andrade para a TV alemã, vemos Cacá Diegues e Zelito Viana fazerem a ronda pelos cinemas do Rio no dia da estreia de A grande cidade. O diretor e o produtor do filme entram em cada sala para conferir a afluência de público. Por duas vezes, a câmera se detém nas urnas transparentes onde eram depositados os ingressos. Àquele recipiente mágico, termômetro do sucesso de um filme, Glauber Rocha se referia como “cacife”.

A semântica de jogo não era desprovida de sentido nos anos 1960. Mais que hoje, a sorte de um lançamento era decidida pelo acaso. Não havia P&A (orçamento para despesas de comercialização), nem qualquer ciência de divulgação. As fichas eram jogadas nos anúncios de jornal publicados pelo exibidor. O chamado “decreto” (lei que reservava 56 dias por ano para a exibição de filmes brasileiros), se garantia a chegada às salas, também induzia à retirada de cartaz tão logo se cumprisse o prazo mínimo exigido pela lei.

Os filmes eram produzidos com recursos próprios, empréstimos bancários pessoais e patrocínio privado, às vezes favorecidos pelo que Gustavo Dahl chamou de “industrialização do mecenato”. Podia-se obter, quando muito, uma mãozinha oficial do governo do estado da Guanabara ou, a partir de 1967, do Instituto Nacional do Cinema (INC). Se a renda fosse gorda, o filme se pagava e talvez sobrasse para comprar carro e apartamento. Se não fosse, assumia-se o prejuízo e partia-se para outra. “A gente andava mesmo pelos cinemas olhando o ‘cacife’, conversando com o gerente, conferindo o som”, lembra Zelito Viana, um dos fundadores da produtora Mapa Filmes.  Continue lendo

Tiffinwallas

janeiro 9th, 2012 § 5 Comentários

Sempre que estou preparando uma viagem mais, digamos, intensa, gosto de submergir nas referências do lugar: leituras, filmes, músicas, conversas com quem já foi lá e revisita às minhas próprias imagens e recordações quando se trata de um local onde já estive antes. Essa pré-viagem é, para mim, quase tão importante quanto a viagem em si. É a criação de expectativas, a pré-seleção do que ver, o antegustar dos detalhes. Às vezes acaba sendo melhor que a viagem em si, o que vale como uma espécie de compensação.

Agora mesmo estou em plena pré-viagem para a Índia. Em fevereiro vou participar do júri de um festival de cinema em Bombaim e, em seguida, conhecer um pouco do sul do país, que ficou de fora da minha viagem de 2005 pela metade norte. Estou lendo Bombaim Cidade Máxima, de Suketu Mehta, relendo trechos do incontornável Índia – Um Olhar Amoroso, de Jean-Claude Carrière, e ainda pretendo passear ao léu pelas 900 páginas de Shantaram, de Gregory David Roberts. A exposição do CCBB e a Mostra Bhava de cinema indiano vieram a calhar no final do ano.

Fui rever minhas gravações em vídeo de sete anos atrás em Bombaim e tive vontade de editar essas cenas com os Tiffinwallas (ou Dabbawallas), os famosos entregadores de marmita da cidade. Trata-se de um serviço inimaginável numa cidade moderna, mas que lá se mantém por tradição. Os trabalhadores saem de suas casas de subúrbio pela manhã sem levar suas lunch boxes. Por volta das 11 horas, os Tiffinwallas começam a coletá-las nas casas e transportá-las por trem até a estação de Churchgate, no centro. Dali sai uma malha de distribuição para os escritórios e locais de trabalho. O objetivo é que a comida chegue ainda quentinha às mãos do cliente.

O mais incrível ainda está por vir. À tarde os Tiffinwallas recolhem as marmitas e as devolvem da mesma maneira às casas de origem. Vale tudo para dar emprego às multidões indianas. O serviço é tão eficiente que já mereceu o prêmio Six Sigma da revista Forbes. Veja meu vídeo de 6 minutos:

407 horas de cinema brasileiro

janeiro 5th, 2012 § 5 Comentários

A Programadora Brasil, distribuidora de filmes brasileiros em DVD para exibições não comerciais, vinculada à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, completou em 2011 cinco anos de existência, com um público superior a 500.000 espectadores. Eles publicaram um catálogo geral do acervo e me convidaram para escrever o texto de apresentação. É um tanto mais longo que a média postada aqui no blog. Vamos a ele:

Poucas cinematografias no mundo podem se orgulhar de ter, numa mesma coleção de DVDs, um acervo amplamente representativo como o da Programadora Brasil. Com uma vantagem que não é pequena: eis uma coleção que, ao invés de ser vendida a preço de ouro em livrarias chiques, é disseminada a custo baixo em cineclubes, escolas, espaços culturais, bibliotecas e espaços correlatos país afora, do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Uma cinemateca ambulante, pode-se dizer. Os números são expressivos: em 255 discos (ou programas), encontram-se 825 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. Totalizam 407 horas de cinema. Para assistir ao catálogo inteiro, um espectador precisaria dedicar 50 dias em jornadas integrais de oito horas, sem intervalos. Mas como essa não é uma experiência das mais saudáveis, os programas vêm formatados para se conhecer, com calma e esclarecimento crítico, os momentos mais interessantes dessa aventura que é o cinema brasileiro.  Continue lendo

Rastros de 2011

janeiro 2nd, 2012 § 9 Comentários

Divido com vocês as informações de um relatório enviado pela WordPress a respeito do desempenho deste blog em 2011. Não foi nenhum Mashable!, mas também não creio que tenha sido desprezível para um blog individual, solto no mundo e sem celebridades envolvidas.

Os rastros de carmattos receberam 92.000 visitas durante o ano, o que, segundo a WordPress, corresponde à visitação do Louvre durante quatro dias. Isso dá uma média de 7.666 visitas por mês, 1.916 por semana e 273 por dia. Brasil, Portugal e Argentina foram os países onde mais se clicou por aqui.

O dia com mais tráfego foi 19 de março, com 920 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Menos silêncio, por favor. Ao todo foram publicados 238 novos artigos, contendo 288 imagens.

A performance de comentários continuou sendo bem fraquinha. Mas vale a pena destacar os comentadores mais ativos, pela ordem: Fernando Trevas Falcone, Vitor Souza Lima, Thereza Jessouroun, Ariane Mondo e Paulo Lima. A eles agradeço em nome da troca e da interatividade. Agradeço, é claro, a todos os visitantes frequentes e aos assinantes que recebem notificações automáticas por email.

Aproveito para informar que o blog vai ter atualização um pouco menos frequente nos meses de janeiro e fevereiro. Mas pelo menos um post novo por semana dá pra garantir. Quem anda sempre deixa rastros.

Meus melhores de 2011

dezembro 28th, 2011 § 8 Comentários

A pesquisadora e ensaísta Ilana Feldman lançou no Facebook a hipótese de que listas de melhores são uma diversão de homens. Ela escreveu: “Numa boa: elencar afetos é uma atividade tipicamente masculina. Um dia alguém precisa escrever a história da “cinefilia” feminina. Não haverá, pois que não há listas. (Só para feira, mercado, afazeres da vida e do lar). Que assim seja.”

Tenho minhas dúvidas. O próprio Facebook está cheio de moças com suas listinhas de melhores do ano. Mesmo que não saiam alardeando espontaneamente suas escolhas, críticas de cinema como Susana Schild, Roni Filgueiras e outras vinculadas a jornais e internet as publicam quando solicitadas. De uma maneira geral, homens são mais afeitos a coleções. Mas não às de livros. Nas bibliotecas, pelo menos, a presença de profissionais femininas é mais frequente.

Bem, ventilada a questão, vamos ao que interessa. Como anoto numa tabela do computador todos os longas-metragens (mais de 60 minutos) a que assisto, pude contar 274 filmes vistos em 2011, entre lançamentos comerciais, mostras, festivais, DVDs e internet. Aí vão as minhas listas de melhores. Afinal, esse aqui é um blog espada.

Melhores lançamentos em sala

  • Melancolia (resenha)
  • Não me Abandone Jamais
  • Margin Call (resenha)
  • Incêndios
  • Diário de uma Busca (resenha)
  • O Vencedor
  • Transeunte
  • Tio Boonmee, que Pode Recordar Vidas Passadas (resenha)
  • O Garoto da Bicicleta
  • Morro do Céu (resenha)

 

Melhores de mostras e festivais

  1. A Separação (Festival do Rio) (resenha)
  2. Sudoeste (Festival do Rio) (resenha)
  3. Chico & Rita (Anima Mundi)
  4. Morrer como um Homem (Cineport) (resenha)
  5. 48 (Cineport) (resenha)
  6. O Cavalo de Turim (Festival do Rio) (resenha)
  7. Tablóide (Festival do Rio) (resenha)
  8. Os Últimos Cangaceiros (Festival do Rio)
  9. Uma Longa Viagem (Festival do Rio)
  10. Girimunho (Festival do Rio)

 

Melhores vistos em DVD e outros suportes

  1. Pina
  2. Exit Through the Gift Shop (resenha)
  3. A Film Unfinished

 

E agora alguns ícones que marcaram o meu ano cinematográfico:

Cavalos – O de Turim, os de Goethe (Arthur Omar) e os desenhados na Caverna dos Sonhos Esquecidos. Três belos filmes marcados pela presença do mais belo dos animais.

Grafite – Entre os desenhos do Cro-Magnon na Caverna dos Sonhos Esquecidos e os de Banksy em Exit Through the Gift Shop, um salto de 30.000 anos e a mesma fascinação pela arte gravada nas paredes.    

Vitrine – A Sessão Vitrine surgiu para dar um mínimo de visibilidade extra-festivais a filmes arriscados e inventivos do jovem cinema brasileiro. Ganhou o destaque de “evento do ano” da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro.

Novíssimos – Frequentando a Mostra de Tiradentes, correndo atrás dos filmes, lendo o livro Cinema de Garagem e participando de um debate que se estendeu ao jornal e à internet, acho que pude sentir o pulso de uma geração empenhada em fazer-se presente à sua maneira no cinema brasileiro.

Minas  – Quantas Gerais cabem em filmes tão diferentes quanto O Céu sobre os Ombros, Girimunho, O Mineiro e o Queijo e Estrada Real da Cachaça? Um ano mineiro, sem dúvida.

Faróis – A segunda Mostra Faróis do Cinema trouxe alegrias e ótimas conversas sobre cinema aos que a frequentaram. Obrigado a Mariana Bezerra e Marcelo Laffitte.

Águas – Minha paródia de Águas de Março aplicada ao cinema brasileiro foi muito apreciada pelos amigos. Houve quem sugerisse gravá-la. E também quem reclamasse por não ter sido citado.

Deus – Esteve na berlinda em função dos filmes A Árvore da Vida Melancolia. Materialismo desencantado e espiritualismo consolador estiveram por trás da maior celeuma cinéfila do ano.

Dahl – O ano em que eu mais me aproximei de Gustavo Dahl, via Filme Cultura, foi também o ano em que o perdemos. Um estado de orfandade no cinema brasileiro.

O pré-Hemingway de Curitiba

dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário

Essa cara de moleque paranaense aí em cima não engana. Bem antes de pular para trás das câmeras, Sylvio Back era um jovem crítico de cinema e teatro, jornalista “entrão” que sonhava em ser copidesque, posição cobiçada nas redações em fins dos anos 1950. O Diário do Paraná confiou-lhe em1959 a edição de sua página literária dominical. Influenciados pelo Suplemento Dominical do JB carioca, Back e o programador visual de nome não menos literário, Emilio Zola Florenzano, criaram uma página dinâmica, arejada, contemporânea. Durante 85 domingos, o letras e/& artes (assim mesmo, com minúsculas) fustigou a cena cultural de Curitiba. Parou de circular quando Back, aos 23 anos, foi demitido por liderar uma greve salarial.

Agora, 50 anos depois, o letras e/& artes ressurge em edição facsimilar, patrocinada pela Itaipu Binacional e distribuída à margem do comércio. Dá gosto folhear as páginas enormes e ver como o debate cultural de uma fase de transição na cultura brasileira repercutia num ambiente relativamente provinciano.

A pauta aprovada pelo editor Sylvio C. Back contemplava contos, poemas, traduções (de Genet, Camus, Lorca etc), críticas de filmes e montagens teatrais, ensaios sobre existencialismo (então na moda entre os jovens curitibanos) e muitos textos editorializantes contra os pseudointelectuais, os escritores “barrocos”, os críticos “viteloni” (boas-vidas) e os canastrões de toda ordem. A página era feita por e para os “jovens da terra”, como afirmava o editor.

Back jogava em diferentes posições. Como crítico de cinema, saudava Tati, Jules Dassin e Tchukrai, incensava O Grande Momento de Roberto Santos e duvidava de Glauber na afirmação de que a ida das câmeras para o Nordeste renovaria o cinema brasileiro. Voltando-se para os palcos, lastimava “o ambiente descultural do teatro paranaense” e celebrava a novidade do Teatro de Arena. Rebatia Wilson Martins em defesa de um escritor-filósofo local. Defendia a Lolita de Nabokov (“nada tem de imoral”), Os Amantes de Louis Malle e a revolução cubana (“Não foi em vão que Sartre disse ter Castro feito o que é preciso fazer”). Outros pequenos textos, de teor “angustial” (então sinônimo para existencial), prenunciavam a veia ficcional do futuro cineasta-poeta.

Do garoto que aspirava a ser um “pré-Hemingway” ao diretor de filmes como Aleluia Gretchen e Lost Zweig, Sylvio Back mudou muito e ao mesmo tempo não mudou tanto. Os seus filmes e – principalmente – os textos que ele produz em paralelo conservam bastante daquela verve conflagradora, da rejeição a alinhamentos e do gosto pela palavra mordaz.

Abacateiro digital

dezembro 26th, 2011 § 2 Comentários

Gil e Bodanzky na tela do Skype

Transformar boas palestras em bons documentários não é tarefa fácil. A CPFL, companhia de energia sediada em Campinas e uma das patrocinadoras do É Tudo Verdade, está convidando cineastas para criar em cima dos registros de eventos patrocinados por ela. Jorge Bodanzky acaba de finalizar dois trabalhos nessa série chamada Discussões e Reflexões.

Sociologia da Crise discute os efeitos da crise financeira de 2008. Aqui, a dinâmica construída pelo roteiro não consegue eliminar uma certa aridez nem organizar as ideias de modo mais produtivo. Em compensação, Transanarquia dá uma boa impressão do que esse modelo de construção pode render.

Transanarquia é um doc de 50 minutos feito a partir de um simpósio de cibercultura realizado em Santos, em 2009. Bodanzky volta a alguns dos participantes para atualizar questões e perguntar para onde anda a internet. Mas, bem de acordo com a proposta geral, ele volta pelo Skype, em entrevistas à distância, notebook a notebook. É claro que nada muda em profundidade nessa abordagem virtualizada, mas pelo menos a superfície do filme se imanta das potencialidades do que seria hoje uma estética digital.

A imagem lowtech e a sincronia desarrumada do Skype conferem uma urgência e uma atualidade especiais às falas de Gilberto Gil e José Arbex Jr. Como sempre nesses casos, Gil é uma estrela cintilante. No simpósio, cantou baladas e raps com o tema da tecnologia e contagiou a todos com suas análises de uma certa vocação da cultura para o consumo coletivo e seu ciberotimismo em vista de um novo “comunismo sem estado” propiciado pela cultura digital. “É muito John Lennon o que vem por aí”, imaginou, com um riso cheio de fé. Na outra ponta do espectro, um outro “Gil”, o economista e sociólogo Gilson Schwartz, relativiza bastante esse entusiasmo, apontando a perda de substância e o advento de uma “iconomia”, variação da economia que se baseia em ícones das relações virtuais.

O debate é interessantíssimo e ainda não perdeu a oportunidade desde a época em que o Wikileaks dominava o noticiário. Mas a CPFL não deve demorar a fazer circular esses filmes, sob pena de suas discussões serem rapidamente superadas pelo trem-bala dessa nova cultura. Seja como for, um doc como Transanarquia resistirá pela simples cota de inteligência nele contida. Inteligência no seu melhor estado, que é a verve. O filme termina deliciosamente quando Pierre Lévy conclui sua palestra anunciatória e Gil pega o microfone para perguntar, todo candura: “Mas Pierre, e se não for assim, como será?”

Não ouvimos a resposta de Pierre, mas eu bem que gostaria de ouvir a de Gil à mesma pergunta, caso Bodanzky a tivesse feito no seu Skype.

A cada um seu Natal

dezembro 24th, 2011 § 1 Comentário

Esta é a Madona dos sul-africanos

fotografada este ano numa igreja da Cidade do Cabo

Foto: Carlos Alberto Mattos

Ou seja, que cada um de nós tenha o Natal que melhor desejar

E que o seu fim de ano seja o mais parecido com os seus desejos

São os votos do blogueiro

O chamado da selva

dezembro 23rd, 2011 § 1 Comentário

Em sua obra-prima, O Chamado da Selva, o escritor Jack London narra as transformações de um cão São Bernardo. Originalmente doméstico e civilizado, Buck é raptado e vendido a aventureiros do ouro no Alasca do século 19. Subjugado, maltratado e exposto a condições extremas de sobrevivência, ele aos poucos vai abandonando os nobres sentimentos. Passa a disputar agressivamente as melhores posições e eliminar concorrentes. Finalmente, faz contato com seus instintos primordiais e se converte numa fera indomável, capaz de estraçalhar animais e homens.

Lembrei-me dessa leitura enquanto assistia a Tudo pelo Poder. No fundo, a história contada aqui por George Clooney, a partir de peça de Beau Willimon, é tão behaviorista quanto a de Jack London e tem muitos pontos de contacto. Substitua-se Buck pelo assessor de imprensa Stephen Meyers (Ryan Gosling) e a selva pela campanha a uma indicação Democrata nas primárias de uma eleição presidencial americana. O que temos é uma parábola sobre a dificuldade em preservar a pureza e o idealismo na luta pelo poder. Atacado por todos os lados, deixando flancos abertos por um misto de ingenuidade e ambição, Stephen é como um cão fiel a seu dono, desde que possa descansar a cabeça sobre seu colo e sentir-se o preferido. Ao perder esse posto, não medirá atitudes para satisfazer o orgulho ferido. O candidato vivido por Clooney, o dono do cão, também terá testados os seus princípios imaculados quando for preciso salvar as aparências e a candidatura.

O título original refere-se, um tanto pomposamente, aos célebres “Idos de Março”, episódio da morte de César por conspiradores no século 44 AC. Talvez a pretensão de Clooney tenha sido maior que o material em suas mãos. Tudo pelo Poder não é muito mais que um bom filme, claramente bem dirigido e roteirizado. O drama político se torna um thriller a meio caminho, valendo-se de bons paralelos entre a “vitrine” da campanha – os discursos, entrevistas e performances públicas do candidato – e os bastidores, onde se arma o jogo dos blefes, chantagens e intimidações. Numa cena excepcional, essas duas linhas vão se encontrar em torno de um simples chamado num celular.

Como se não bastasse o caso Clinton-Lewinski, o democrata Clooney volta a alertar os políticos para o perigo sempre latente das estagiárias sexy. Elas também podem acionar o “chamado da selva”.

Críticos de cinema do Rio elegem os melhores do ano

dezembro 21st, 2011 § 9 Comentários

A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro elegeu ontem (terça) os melhores filmes de 2011. Foram considerados os lançamentos em salas no Rio de Janeiro até 20 de dezembro, deixando de fora as estreias das duas próximas sextas-feiras.

Após dois turnos de escrutínio e discussões, envolvendo a participação de 21 críticos, chegou-se a um empate insolúvel, levando à eleição de 11 filmes, a saber:

ALÉM DA VIDA, de Clint Eastwood
A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick
UM CONTO CHINÊS, de Sebastián Borensztein
CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami
O GAROTO DA BICICLETA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve
O INFERNO DE HENRI GEORGES-CLOUZOT, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
MEIA-NOITE EM PARIS, de Woody Allen
MELANCOLIA, de Lars Von Trier
A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar
O VENCEDOR, de David O. Russell

Foi escolhido ainda DIÁRIO DE UMA BUSCA, de Flávia Castro, como o melhor lançamento brasileiro do ano.

Os críticos cariocas elegeram também:

Melhor evento do ano – criação da SESSÃO VITRINE para lançar filmes brasileiros em sete capitais.

Melhor iniciativa para o pensamento cinematográfico: MOSTRA BÉLA TARR, parte da programação do Festival do Rio.

Os 12 filmes serão exibidos e debatidos numa mostra de 14 a 26 de fevereiro no CCBB-Rio.

Além dos muros da escola

dezembro 19th, 2011 § 5 Comentários

"Ser e Ter", um dos filmes abordados no livro

Amizade, autoestima, comportamento de grupos, comunicação, conexão, confiança, conflito, criatividade, ética, informática, lealdade, talento, tecnologia, traição… Essas são algumas tags para o filme A Rede Social, conforme abordado por Myrna Silveira Brandão no livro Leve seus Alunos ao Cinema (Qualitymark Editora, 2011). Aqui mais um vez Myrna combina seus dotes de crítica de cinema, pesquisadora (ela preside o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e especialista em recursos humanos (é também diretora cultural da Associação Brasileira de Recursos Humanos).

Ela já havia feito isso em dois livros anteriores, dirigidos ao público corporativo. Leve seu Gerente ao Cinema (2004) e Luz, Câmera, Gestão – A arte do cinema na arte de gerir pessoas (2006) colocavam os filmes nossos de todo dia numa perspectiva de relacionamento humano e profissional. Com esta nova publicação, Myrna fornece orientações para professores tirarem proveito das abordagens cinematográficas no debate da própria escola, do aprendizado e dos temas do cotidiano de seus alunos.

O livro explora as potencialidades de 62 filmes, de um blockbuster como Duelo de Titãs a um documentário brasileiro como Pro Dia Nascer Feliz; de filmes europeus como Cinema Paradiso a asiáticos como Nenhum a Menos, de Zhang Yimou; de dramas como O Óleo de Lorenzo a animações como Ratatouille e Wall-E. Cada filme é descrito com ênfase nos aspectos educacionais, evidenciando metáforas e detalhes de dramaturgia que se prestam ao assunto em pauta. A isso se seguem uma lista de temas (as tags a que me referi acima) e uma série de sugestões para debate em classe, incluindo dicas metodológicas para um melhor aproveitamento das discussões pós-filme.     

Títulos como Ao Mestre com Carinho, Entre os Muros da Escola e Sociedade dos Poetas Mortos trazem a questão da educação na sua própria trama, mas outros requerem certa perspicácia para serem usados em sala de aula. É onde entra o olhar tarimbado de Myrna para apontar caminhos e levantar questões. A escola, projetada no mundo através dos filmes, passa a ser não apenas um lugar de acumulação de conhecimentos, mas de reflexão sobre a sociedade e o estar no mundo.

Democracia ou escambo?

dezembro 17th, 2011 § 3 Comentários

Diz o senso comum que a democracia representativa é uma merda, mas não existe melhor opção. Pois até o senso comum fica ameaçado por amostras como as contidas no documentário Porta a Porta – A Política em Dois Tempos. Marcelo Brennand acompanhou a campanha para prefeito e vereador em 2008 na cidade pernambucana de Gravatá. Coletou evidências de que o jogo eleitoral, ali como em tantas cidades do interior do Brasil, não passa de um escambo quase primitivo de favores, empregos etc. OK, sabemos disso muito bem, mas nem sempre temos a chance de ver o monstro em ação.

Para começar, numa cidade pequena como aquela, de 80.000 habitantes, sem indústria nem produção rural expressiva, o município é o principal empregador. Ter seu voto ou seu trabalho de cabo eleitoral “reconhecido” pelo candidato vitorioso pode significar um posto de trabalho mais adiante. A própria militância na campanha é um emprego sazonal precioso, com salários que superam a média dos menos favorecidos. Ninguém disfarça – sequer diante das câmeras – que um voto pode ser trocado por uma porta de banheiro ou um exame de vista, ainda que nenhuma das partes venha a cumprir sua palavra – nem o político depois, nem o eleitor na hora da urna.

Por conta de toda essa movimentação, que altera profundamente a rotina do lugar, a cidade se divide como na festa do Boi de Parintins: azuis e vermelhos se enfrentam nas ruas, às vezes fisicamente. O título do filme se refere à prática dos candidatos e militantes de bater a cada porta para pedir “a sua confiança e o seu voto”. Os candidatos são comerciantes, taxistas, lavradores, e suas motivações variam da tradição familiar ao senso de oportunidade. Inaugurar três semáforos ou remodelar um açougue são façanhas que podem assegurar uma reeleição. Quem falar em ideologia corre o risco de ser tomado por grego.

Porta a Porta usa uma narração em primeira pessoa do diretor para se orientar no período da campanha e na volta à cidade um ano depois das eleições. Não há grandes pretensões além de narrar seu case e rascunhar alguns bons personagens. Mas ao flagrar momentos realmente definidores de uma prática política bem distante dos ideais democráticos, o filme diz a que veio.

Longa jornada crise adentro

dezembro 15th, 2011 § 1 Comentário

Kevin Spacey é parte do excepcional elenco de "Margin Call"

Nada mais adequado do que o subtítulo de filme-catástrofe sapecado no lançamento brasileiro de Margin Call – O Dia Antes do Fim. O dia C do crack financeiro de 2008 é contado do ponto de vista da primeira empresa que teria escancarado a crise oferecendo-se em holocausto no mercado para que seus mais altos executivos pudessem sobreviver. O clima é de apocalipse. Não à toa, aqueles homens apavorados diante das telas de computador se assemelham aos cientistas de uma central de comando monitorando um choque inevitável de planetas em filme de ficção científica.

Margin Call já foi chamado de “continuação de Wall Street”, em referência aos dois filmes de Oliver Stone. Mas eu o vejo mais como um contracampo do documentário Trabalho Interno. Enquanto este tratava a crise numa perspectiva macro, enfeixando-a histórica e contextualmente, Margin Call o faz por dentro de um case específico. Nem os personagens, nem a empresa têm contraparte definida no mundo real, mas, como anotou o crítico americano Roger Ebert, é bem claro que o nome do chefão John Tuld, vivido por Jeremy Irons, lembra o de Richard Fuld, o CEO da Lehman Brothers que lucrou milhões com a falência de sua empresa.

Há uma cena discreta mas muito simbólica no filme. Em dado momento da longa noite de agonia, dois executivos entram num elevador onde se encontra uma faxineira. Eles continuam a conversa – cifrada para simples mortais – como se não houvesse ninguém com eles no elevador. A faxineira, por sua vez, mantém os olhos fixos para a frente e uma expressão impassível, misto de respeito e ignorância. A cena expressa bem o nível de alienação recíproca entre o mundo das finanças e o mundo do trabalho. De certa forma, expressa também a relação da maioria dos espectadores com as discussões que presenciamos dentro e fora do elevador. E é justamente aí que Margin Call se revela um prodígio de dramaturgia.

O teor de abstração e de “financês” de quase tudo o que ouvimos é espantoso, mas ainda assim acompanhamos a jornada noite adentro daqueles executivos com absoluta compreensão e engajamento. Tanto em termos de roteiro quanto de direção, é espantoso o trabalho de J.C. Chandor, vindo de comerciais, videoclipes e pequenos documentários para essa promissora estreia no longa-metragem. A noção de timing, a propriedade dos diálogos e a maestria na direção dos atores nos coloca no centro de um torvelinho de vaidades, oportunismo e humilhação que por vezes tangencia Eugene O’Neill, Arthur Miller ou mesmo uma tragédia de Shakespeare.

De resto, não é desprezível o efeito catártico provocado pelo filme. Afinal, como é bom ver grandes porcos capitalistas em apuros.

Por dentro da Missa

dezembro 14th, 2011 § Deixe um comentário

Antes de publicar o post anterior, sobre a montagem em cartaz de Missa dos Quilombos, eu tinha enviado algumas perguntas ao diretor Luiz Fernando Lobo. As respostas chegaram depois da publicação. Segue aqui a entrevista:
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- Esta parece ser a sétima vez que você monta o espetáculo. Qual a principal novidade dessa atual montagem, além do espaço do Armazém?
LFL – De fato essa é a sétima edição da Missa. Não há nenhuma inovação formal. O que há é que ao longo dos anos fomos trabalhando e conseguindo com isso um aperfeiçoamento técnico e artístico do próprio espetáculo. Em termos de tecnologia há uma grande mudança na qualidade do som, especialmente das vozes.
- Que acréscimos você fez nessa versão em relação ao texto original da Missa?
LFL – Acrescentei só dois textos, mas já em 2002: a carta das mães sem terra e o texto do Betinho sobre a criança que corta uma tonelada de cana por dia.
- Com quem você divide a direção do canto e as coreografias?
LFL – A preparação vocal é da Aurora Dias, também atriz do espetáculo e membro da Ensaio Aberto. A preparação corporal é da Joana Marinho, também do nosso coletivo desde 2003. A preparação das danças de orixás são do Forró, que faz o espetáculo desde a criação, e da Valéria Monã.  A coreografia de Mariama e do Ofertório é da Paula Águas.
- Quem é o cantor que tem voz idêntica à do Milton Nascimento, que faz o primeiro solo da peça?
LFL – Aquele cantor maravilhoso é de Minas e se chama Ladston Nascimento. Apesar da origem, do sobrenome e da voz, não é parente do Milton.
- Estou delirando ou tem uma estética de Metropolis/Fritz Lang ali?
LFL – Não é delírio. Criei todo o espetáculo a partir do conceito de Eisenstein de dramaturgia da forma, uma dramaturgia que não parte do texto mas das imagens. No caso, partimos das imagens do mundo do trabalho do Sebastião Salgado e do João Roberto Ripper. Com essas imagens na mão, vimos a que parte da Missa elas mais se ligavam e depois fechamos os pontos. É claro que isso tem toda uma relação com o construtivismo russo e alemão do início do século 20. Não busquei uma estética nem russa nem alemã mas o espetáculo é herdeiro disso de alguma forma. Tem uma coisa que se fala muito pouco que é o conceito brechtiano de estranhamento, que tem um similar russo, Ostreinie. É um caldo disso tudo com a música linda do Milton e a poesia do Pedro Tierra e de D. Pedro Casaldáliga. 

Ópera operária

dezembro 14th, 2011 § 2 Comentários

Foto: Carlos Alberto Mattos

Dê uma pausa na dupla Botelho & Moeller e se ligue num autêntico musical brasileiro. Missa dos Quilombos está só até terça que vem no Armazém da Utopia, no cais do porto. A Missa na verdade é uma ópera afro-brasileira, escrita há 30 anos por Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra. Já foi montada sete vezes pela mesma Companhia Ensaio Aberto desde 2002 em várias partes do Brasil. Mesmo que você já tenha visto alguma dessas montagens, vale a pena revê-la no espaço literalmente épico do Armazém.

O pequeno vídeo abaixo, que gravei com meu celular, dá uma ideia do uso que Luiz Fernando Lobo e sua trupe fazem da ampla boca de cena e do pé direito monumental. Ali se pode sentir melhor os ecos de um Metropolis, de Fritz Lang, ou de uma ópera contemporânea tipo Bob Wilson. Sob o palco principal instala-se uma oficina metalúrgica, enquanto a ação se espalha pelas laterais evocando ora canteiros de construção civil, ora as labutas da mineração, da lavoura ou dos estivadores. O entorno das docas, com seus guindastes e os barcos que passam, compõe uma espécie de cenário adicional, perfeitamente integrado ao espetáculo.

Missa dos Quilombos usa a estrutura narrativa e os temas de uma missa católica para falar da escravidão, do preconceito racial e das injustiças sociais de um Brasil então mergulhado nos últimos anos da ditadura. A Companhia Ensaio Aberto atualiza a pauta com o movimento dos sem-terra e outras referências mais recentes. Aqui e ali, Luiz Fernando Lobo deixa sua marca um tanto jogralesca, com textos exclamados em uníssono e posturas de realismo socialista. Mas da forma como isso vem envelopado na musicalidade exuberante da Missa e no magnífico trabalho de canto, dança e luz, tudo fica irresistível, emocionante. Não dá pra perder.

Missa dos Quilombos: quarta a sábado, segunda e terça às 21h; domingo às 19h.
Armazém da Utopia – Av. Rodrigues Alves, Armazém 6. Tel.: 2253-8726