Notas de Tiradentes: Intelectuais-atores

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Da primeira – uma mala fechada com alguém respirando dentro – à última imagem – um homem se esgueirando sob uma estante entre livros –, não entendi nada do que se passa em Pingo d’Água, longa do paraibano Taciano Valério. E, para falar a verdade, não fiz questão nenhuma de entender. Metalinguagem desarvorada e cenas feitas “para impressionar” há muito ficaram para trás no meu campo de interesse. Mas uma coisa é incontornável no filme: a presença de Jean-Claude Bernardet no papel principal.

Nenhuma novidade em ver Jean-Claude como ator. Ele faz aparições do tipo desde 1968. Ultimamente, a par de sua parceria dramatúrgica com vários diretores, ele intensificou a presença na tela em Filmefobia, O Homem das Multidões e Periscópio. Mas Pingo d’Água é praticamente um manifesto da passagem do crítico à condição de performer. Fazendo o seu próprio papel, ele diz ao telefone estar cansado do ofício de crítico. Assume-se radicalmente como ator, seja em ações solitárias no seu apartamento, seja interagindo no limite da sexualidade com a equipe do filme que está sendo feito dentro do filme.

Expondo sua nudez como num quadro de Lucien Freud (aliás, ele lembra o próprio pintor na terceira idade), namorando com o ator Everaldo Pontes e fazendo uma dança lúbrica com a agilidade e a flexibilidade adquiridas na ioga, Jean-Claude galvaniza a câmera, sobretudo para quem conhece seu histórico de emérito pensador do cinema brasileiro. Vê-lo assim, se não chega a ressignificar sua imagem, pelo menos acrescenta camadas de sentido a sua figura de intelectual sofisticado. O esforço que ele empreende, aliás,  é mesmo o de ser visto agora principalmente como ator.

Se pensamos no ator Jean-Claude e também nas atuações do professor de cinema André Gatti em filmes como Avanti Popolo, de Michael Wahrmann, e O Tempo Não Existe no Lugar em que Estamos, de Dellani Lima (a ser exibido aqui em Tiradentes, foto à esquerda), vemos que já é hora de examinar esse tipo de transição. Em ambos os casos, são atores muito especiais que não se amoldam a personagens predeterminados, mas, ao contrário, amoldam os personagens a suas características. Na verdade, continuam sendo eles mesmos, mais ou menos dissimulados. Impõem ao filme um tom, um ritmo e um olhar que lhes são próprios. Levam para a tela sua postura física, seu jeito de se mover, o colorido do seu olhar. Mais que tudo, levam um tanto da persona que criaram fora da tela, fazendo com que ela atrite ou se integre ao personagem construído. São os nossos intelectuais-atores, como um dia Paulo Emilio Salles Gomes também foi.

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