Tangerine, Regresso, Saul, Trumbo

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TANGERINE ganhou fama por ter sido inteiramente rodado com um iPhone. Não exatamente um iPhone como o que você carrega no bolso, mas um exemplar aditivado pelo aplicativo Filmic Pro e um adaptador anamórfico que produz enquadramentos mais abertos e aparência de tela panorâmica antiga. O partido que o diretor Sean Baker tirou dessa tecnologia levíssima foi uma grande mobilidade do quadro e uma paleta de cores e luzes que reforça o aspecto de “coisa de rua”. Mas a técnica está longe de ser a principal qualidade do filme. O que mais agrada é a qualidade da comédia e o sabor dos personagens.

Numa véspera de Natal, em poucos quarteirões de uma ensolarada Hollywood, duas prostitutas travestis correm atrás de seus interesses. Sin-Dee Rella (Kitana Kiki Rodriguez) caça a branquela que teria roubado seu lugar no coração do namorado cafetão. Alexandra (Mya Taylor) tenta reunir as amigas para ouvi-la cantar num showzinho de bar. Enquanto isso, um taxista e pai de família caído por michês transgênero divide seu tempo entre os mais exóticos passageiros do táxi e sua família armênia tradicional. Há muitas situações e diálogos hilários, como uma inusitada cena erótica num lava-jato e um “barraco” geral numa loja de donuts.

Em sua carreira independente, Sean Baker tem mostrado um bom olho para figuras urbanas carismáticas, cujo exotismo de aparência e comportamento não ofusca suas características humanas. Ou seja: tem gente dentro dos aparentes estereótipos de TANGERINE. Na captação do espírito de minorias e outsiders, sinto ali também uma energia comparável à do Spike Lee de “Faça a Coisa Certa”. E como “filme de Natal”, nada mais simpático e ultrajante surgiu ultimamente.



O termo “revenant”, do título original de O REGRESSO, indica alguém que voltou dos mortos para assombrar os vivos. Com efeito, nesse early western passado na década de 1820, o guia de caçadas Hugh Glass (Leonardo DiCaprio) retorna pelo menos seis vezes da borda da morte como alguém predestinado a sobreviver. O conto de resistência e persistência é narrado como uma extensão do reality show “Survivor”, em que o protagonista tem que passar por provas radicais, contando que as coisas podem sempre piorar um pouco mais.

Algum crítico estrangeiro já chamou o filme de “pornografia do sofrimento”, o que bem pode valer não só para este, mas para os últimos filmes de Alejandro González Iñárritu. A sucessão de flagelos sofridos por Glass, que incluem ser transformado em rosbife por um urso e salvar-se da morte no gelo dormindo dentro da carcaça de um cavalo, colocam o espectador numa posição de testemunha passiva, quase sádica, que se compraz em saber que “vem mais por aí”. E tudo se esvai nesse movimento primal em torno de heróis e vilões, fortes e fracos de moral, compulsão de vingança e compaixão.

Parte importante do prestígio de Iñárritu no cinema americano é sua disposição para fazer o próprio cinema “sofrer” mediante técnicas desafiadoras. A sufocante câmera na mão de “Biutiful”, os planos-sequência tortuosos de “Birdman” e agora as tomadas em 360 graus de Emmanuel Lubezcki gravitando no centro da ação ou em deslocamentos aparentemente impossíveis, no encalço dos atores, com bafo e sangue atingindo a lente. Ou ainda a sujeição do elenco ao clima gelado e a ações árduas numa natureza selvagem como a têmpera dos personagens. Essa perícia contrasta com erros flagrantes de continuidade (o dinheiro recusado pelo rapaz desaparece da mesa do capitão entre um plano e outro, Glass apoia-se seguidas vezes na mão há pouco trespassada por uma faca no duelo final) e implausibilidades como o cavalo que não empaca antes de se atirar no precipício.

Nos flashbacks da família de Glass, que destilam clichês de sabedoria indígena, Iñárritu emula o estilo etéreo de Terrence Malick – prova de que almeja atingir níveis de transcendência através de um cinema extremamente físico. A minha impressão é de que ele só atinge, com bastante eficiência, os instintos mais básicos do público.



Saí da sessão de FILHO DE SAUL pensando nas semelhanças e diferenças entre esse filme e “O Regresso”. Nada mais distante, em termos de produção e intenções, do que a mega-aventura hollywoodiana de Iñárritu e o soturno drama de László Nemes. No entanto, ambos trazem um pai empenhado até o risco de vida em reparar, em alguma medida, a morte do filho (ainda que no caso húngaro a relação seja apenas nominal). E para isso, os personagens vividos por DiCaprio e pelo poeta Géza Röhrig passam diversas vezes pela borda da morte e sofrem enormes sacrifícios físicos. Houve mesmo quem apontasse, no filme húngaro, a mesma exploração do sofrimento que se vê no americano.

Mas é preciso também considerar as diferenças. Se Saul Ausländer carrega o cadáver do “filho” nas costas, Hugh Glass o leva somente na consciência. Enquanto Saul busca uma reparação apenas simbólica – o ritual do enterro judaico –, Glass sai atrás de vingança. Essa disparidade diz muito da origem cultural de cada um dos filmes, assim como da relação que estabelece com o espectador.

Em termos de construção fílmica, “O Regresso” varia entre a proximidade do personagem, quando se trata de enfatizar a dor, e os planos abertos para situar a ação em seu contexto geográfico e dar ao público um quadro amplo de percepção. Já FILHO DE SAUL encerra o quadro numa tela estreita e fecha a distância focal no personagem, fazendo dele o único eixo da narrativa. Não sabemos bem o que acontece a sua volta, a não ser pelos sons que penetram de todos os lados, numa sensação de angústia similar à de Saul quando é jogado daqui para ali no inferno de Auschwitz. “O Regresso” quer que vejamos e sintamos tudo em detalhes, e a atuação de DiCaprio trabalha nesse sentido. Em FILHO DE SAUL, o rosto de Röhrig é quase sempre impassível, e a filmagem aposta no fato de que quanto menos vemos, pior imaginamos. Mas os resultados, no fundo, são muito semelhantes.

O filme húngaro é tão aclamado (Palma de Ouro em Cannes, melhor filme estrangeiro no Globo de Ouro e provável vencedor do Oscar nesta categoria) e seu tema, o Holocausto, tão grave que fica chato fazer restrições. Mas a insistência em destacar os “latidos” dos nazistas em off e os cochichos dos prisioneiros dentro do quadro, assim como a opção claustrofóbica dos enquadramentos e a informação rarefeita que recebemos sobre as ações em curso, me provocaram um pouco de tédio e a impressão de que o filme tem sido hipervalorizado. Quero pensar um pouco mais, à luz de uma tradição do cinema do antigo leste europeu que almeja a experiência sensorial da guerra e inclui “Kanal”, de Andrzej Wajda, e “Vá e Veja”, de Elem Klimov.



TRUMBO – LISTA NEGRA segue o figurino das biografias heroicas hollywoodianas. A única mancha no currículo de Dalton Trumbo, a crer no filme, foi o fato de ser um pai de família autoritário – fruto certamente de seu apego ao centralismo democrático dos comunistas –, mas oportunamente regenerado pela autocrítica. De resto, sobram virtudes como dignidade política para nunca trair seus ideais, persistência profissional para montar uma fábrica de roteiros assinados por colegas e pseudônimos durante o período da lista negra macarthista e talento artístico para transformar bombas escritas em matéria para filmes aproveitáveis.

Essa qualidade de Trumbo, porém, não parece ter se transferido para John McNamara ao adaptar o livro de Bruce Cook. Embora correto do início ao fim, o roteiro não atinge uma distinção que o assunto merecia, nem tampouco a direção de Jay Roach. A apresentação da campanha anti-comunista pouco difere dos cinejornais da época, tendo como atração principal as encarnações, por bons atores, do ogro direitista John Wayne, da víbora colunista Hedda Hopper, do destemido Kirk Douglas e do divertidamente solidário Otto Preminger, entre outros menos estelares. Na camada privada da história, Trumbo se relaciona com uma família que não saiu da realidade, mas de algum almanaque do American way of life.

A festejada performance de Bryan Cranston (“Breaking Bad”) é sólida o suficiente para nos conectar com o personagem, mesmo quando tudo em volta soa um tanto esquemático. Esse é o tipo de filme que, embora bom, é mais recebido como “importante”.

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