Cenas indianas

janeiro 29th, 2012 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

Prosseguindo nos meus preparativos de viagem, divido com vocês essas duas curiosidades tipicamente indianas que encontrei no Youtube:

1. Um flashmob à moda bollywoodiana na gigantesca estação de trens CST de Bombaim:

2. Uma cena de trânsito tão ordinária quanto inacreditável em qualquer aglomeração urbana do país:

Uma sessão de cinema na Índia

janeiro 25th, 2012 § Deixe um comentário

Aí vai mais um bom pedaço de memória da minha viagem à Índia em 2005. Uma sessão no popularíssimo e folclórico cinema Raj Mandir, na cidade de Jaipur, norte do país. O vídeo tem quase 9 minutos. Em seguida, leia alguns trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima, referentes aos costumes dos indianos dentro das salas de cinema.

Trechos do livro Bombaim, Cidade Máxima. Enquanto o escrevia, o autor Suketu Mehta colaborava no roteiro do filme Missão Kashmir.

“Na grande maioria, os filmes comerciais híndis são musicais que contêm entre cinco e quinze sequências de canções. Os cineastas ocidentais abandonaram os musicais quando abandonaram o próprio cinema, em favor da televisão. Musicais exigem largueza, escala; não cabem em telas espremidas de dezenove polegadas. Houve outra exigência descabida que críticos e espectadores impuseram aos musicais de Hollywood: que a canção se ajustasse ao enredo. Os filmes híndis nunca obedeceram a essas diretrizes fascistas. A suspensão da descrença na Índia é imediata e generosa, e começa antes de os espectadores entrarem no cinema. É fácil suspender a descrença numa terra onde a crença é tão generalizada e vigorosa.
(…)
Os indianos levam seus filmes tão a sério quanto os italianos levam a ópera. Quando percebem que seus heróis divergem radicalmente do que deveriam fazer, os espectadores podem chegar às vias de fato. Enquanto preparamos o roteiro, lemos que em Ludhiana, depois da primeira sessão do filme Fiza, no qual o herói também faz um terrorista, a plateia ficou descontente com a maneira como seu ídolo era retratado e manifestou seu desapontamento levantando-se e depredando o cinema. Sinto agora uma imensa responsabilidade como roteirista. Construímos o filme olhando ansiosamente para o condutor de riquixá que está sentado numa das fileiras de baixo, com uma lata de gasolina.
(…)
Toma-se infinito cuidado, como dizem os jornais, para “não ferir os sentimentos de determinada comunidade”. Vinod (o produtor Vidhu Vinod Chopra) passa e repassa a questão de saber que religião as protagonistas femininas devem professar, o que pode ser ofensivo, o que pode ser bem aceito pelos espectadores. Finalmente, ele estabelece as diferenças: a senhora Khan, mulher do policial, é hindu, e Sufi, a namorada do militante, é muçulmana. As restrições sob as quais trabalhamos são peculiares ao país. Vinod não pode usar fade to black em seus filmes. Usou cinco num de seus primeiros filmes, quando saiu do Film and Television Institute of India, e a plateia começou a gritar e assoviar. Os espectadores achavam que a luz de arco voltaico estava apagando. No interior os responsáveis pela projeção cortam os fade outs dos rolos de filmes para impedir que a plateia quebre o cinema.
(…)
Nos cinemas da Índia, as plateias aprenderam a saber quando o filme vai terminar. Este senso é ajudado pelas portas que se abrem e pelas luzes que se acendem, cinco minutos antes do fim. As pessoas que têm crianças pequenas precisam sair logo, para pegar um táxi ou um riquixá. Portanto, os cinco minutos finais de qualquer filme híndi estão inevitavelmente perdidos, mesmo que a gente permaneça no cinema, porque a maioria das pessoas na frente se levanta. É por isso que os filmes terminam com uma canção, ou com uma breve reprise dos momentos mais importantes, como a vida de um moribundo passando diante dos seus olhos”.
(…)
Uma sala de cinema indiana jamais se torna uma câmara de inconsciência de massa como no Ocidente. Em primeiro lugar, não se pode mandar ninguém calar a boca. Todos falam à vontade, muitas vezes mantendo um diálogo com os personagens. Se um deus aparece na tela, as pessoas podem jogar moedas ou se prostrar nos corredores. Crianças berram; durante a execução de um número musical, um quarto da plateia pode se levantar e ir comprar lanche no saguão. Diálogo complexo não funciona, porque a maior parte do tempo a plateia não escuta. O som é tão ruim na maioria dos cinemas que, como no teatro, não pode haver sussurros num filme híndi, e a música precisa ser executada o tempo todo no volume máximo”.

Ondas de Tom

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

O documentário do Nelson Pereira dos Santos sobre Tom Jobim seria melhor definido como uma suíte audiovisual. Não há informações para interromper a música, não há cronologia para demonstrar nada. Tudo vem em ondas (waves), num fluxo caprichoso que vai nos seduzindo mais e mais para a infinita riqueza e a insuperável qualidade da música do Tom. Quando o filme termina, é como uma missa. As pessoas estão contritas e emocionadas, aplaudem e ficam grudadas na cadeira até quase o derradeiro crédito, a derradeira nota. Já se sabia muito e muito ainda se saberá sobre Tom. Mas aqui se trata somente (e maravilhosamente) de “ver” e ouvir a sua música, embalando o coração no colo e desejando que o filme perdure para sempre.

A pequena fábrica de matizes

janeiro 23rd, 2012 § Deixe um comentário

Os documentários produzidos pela Matizar de Guilherme Coelho têm apresentado algumas características comuns: a presença de diretores jovens, o bom gosto formal, a eleição de dispositivos interessantes e a procura de temas que fogem às pautas mais frequentes da atualidade.

Assim foi, por exemplo, Romance de Formação, de Julia Simone, perfil sintético de três jovens universitários brasileiros estudando longe de seus locais de origem. Já escrevi aqui sobre esse doc, destacando a convergência entre a linguagem do filme e a disposição dos personagens para perseguir arduamente seus objetivos.

Recentemente vi mais dois filmes da Matizar, estes voltados para a recuperação de expressões artísticas do passado. Um deles é dirigido pelo próprio Guilherme Coelho e tem como personagem central um crítico de arte. Um Domingo com Frederico Morais começa em chave intimista, com o crítico na cozinha de sua casa preparando o café da manhã de um domingo qualquer, um pouco como Manuel Bandeira no clássico curta de Joaquim Pedro. Mas logo a conversa se enviesa para outros domingos, os Domingos da Criação que Frederico Morais, então curador do MAM-Rio, promoveu em1971. A cada domingo entre janeiro e julho daquele ano, ele convidou artistas e público a se juntarem em atividades com materiais específicos: terra, papel, tecido, corpo, som, fios. Milhares de pessoas acorriam aos jardins do MAM numa catarse artística que não deixava de ter uma dimensão política no auge da ditadura.

Um Domingo com Frederico Morais

Tudo isso é evocado em tom de conversa informal, seja em torno de fotos e registros da época, seja em bate-papo de Frederico com participantes como Cildo Meirelles, Amir Haddad e Regina Casé. Embora o dispositivo do “domingo qualquer” não seja mais retomado, prevalece a atmosfera de reminiscência pessoal, bem distante do modelo mais clássico de recuperação didática. De quebra, o filme ainda incorpora uma discussão sobre a função do crítico entre o papel de gerador de manifestações artísticas e o de mero braço auxiliar do mercado.

Esse filme será lançado em breve na caixa de DVDs Retratos Contemporâneos de Arte, juntamente com três outros rebentos da produtora: Fernando Lemos, Atrás da Imagem, de Guilherme Coelho, Cildo, de Gustavo Moura, e 5+5+, de Rodrigo Lamounier.

Uma das corroteiristas de Um Domingo…, Letícia Simões, assumiu a direção de Bruta Aventura em Versos, mais uma iniciativa no sentido de trazer à luz a poesia de Ana Cristina César (1952-1983). Aqui também o formato de “biografia de artista” é matizado por uma abordagem não apenas memorialística, mas também mediada pelos rastros da poeta em jovens criadores de hoje. É Ana Cristina César conjugada no presente através das suas influências sobre poetas, escritores, dançarinos, atores, em sua maior parte mulheres.

Bruta Aventura em Versos

O retrato que da própria Ana emerge é tão fugidio quanto dizem ter sido aquela “sereia de papel”: uma sucessão de fugas, despistes, disfarces. As duras delicadezas de Ana são contadas por contemporâneos seus como Armando Freitas Filho e Heloísa Buarque de Holanda; são incorporadas por outros que nem chegaram a conhecê-la pessoalmente, mas foram tocados pela sua poesia; e são ilustradas por um videografismo flutuante, em que textos e iconografia sugerem uma memória difícil de aprisionar completamente.

Todos esses filmes têm ainda um traço comum: não são dós-de-peito documentais. Não trazem a última palavra sobre nada. Querem apenas trabalhar os matizes de histórias que clamam por ser contadas.

A mentira que altera o mundo

janeiro 20th, 2012 § 1 Comentário

A Separação entra em cartaz pouco depois de ganhar o Globo de Ouro de melhor filme em língua estrangeira e posicionar-se como favorito absoluto para o Oscar da categoria. É desde muito cedo candidato a melhor filme do ano nas futuras listas de dezembro.

Talvez só uma sociedade islâmica possa gerar filmes como A Separação. O moderno cinema iraniano, aliás, reflete muito as questões subjacentes à cultura islâmica. A noção de “guerra santa”, por exemplo, era dramatizada metaforicamente no cotidiano nos primeiros filmes de Jafar Panahi, Mohsen Makhmalbaf  e Abbas Kiarostami. Já o magistral Asghar Farhadi trabalha em profundidade os limites entre ética e oportunidade, virtude e pecado, que fazem o lastro moral do cidadão iraniano.

Como no anterior Procurando Elly, Farhadi arma um tabuleiro de xadrez em que cada movimento de uma peça se reflete no conjunto. Em ambos os filmes, uma mentira é que detona os acontecimentos. É como se uma mentira fosse sempre capaz de alterar o mundo a partir daqueles que estão próximos. Para recompor o arranjo rompido, será necessário levar ao extremo o jogo das aparências e das conveniências. E o espectador à beira da poltrona de tanto suspense psicológico.

A primeira cena – o casal em plano fixo discute a separação com o juiz – nos mostra a excelência do trabalho de Farhadi com os atores e o texto (o conjunto do elenco ganhou os prêmios de melhor ator e atriz no Festival de Berlim). A sequência seguinte – a família em casa começa a se desorganizar com a saída da mulher – expõe a eficácia do diretor no trato com atores, espaços e sentido. Os múltiplos pontos de vista da cena e os movimentos um tanto confusos exprimem a desorientação geral. Dali em diante, os vários dilemas vão se cruzar e interagir num fluxo irresistível. Enquanto dois casais se acusam reciprocamente, oscila a balança entre os interesses ecnômicos, as regras religiosas, as normas judiciárias, a solidariedade familiar, o compromisso ético e a compaixão humana. Tudo isso repercute, em graus diferentes, sobre o olhar mais inocente de duas meninas e um avô com Alzheimer.

Talvez haja apenas uma “facilidade” na escrita de Farhadi: os lances definidores da trama são adiados para o espectador mediante a interrupção deliberada de certas cenas. Isso pode parecer um truque primário de roteiro, mas seus efeitos são tão satisfatórios que tendemos a perdoar.

De frente para o palco

janeiro 17th, 2012 § Deixe um comentário

Carla Ribas em "Testemunha 4"

Estamos assistindo a uma nova onda de interesse pela relação entre o cinema brasileiro e o teatro. Diversos filmes têm investido nesse diálogo – a começar, talvez, por Moscou, de Eduardo Coutinho, que tentava abrir camadas de significação por trás dos ensaios para uma pseudomontagem de As Três Irmãs, de Tchekov.

Essa disposição do cinema para documentar e criar a partir de espetáculos teatrais conheceu um momento efusivo nos anos1990, a chamada era do vídeo. Naquela época, enquanto coordenava o setor audiovisual  do CCBB-Rio, eu programei com a produtora e curadora Irene Monteiro algumas edições da mostra Palco Eletrônico, onde diretores como Adriana Varella, Gilberto Gouma, Eduardo Vaisman, Rosane Svartman e Marisa Alvarez Lima apresentavam seus registros e ensaios filmados na boca de cena.

Estavam ali os precursores de uma geração que hoje inclui Eryk Rocha, Pedro Asbeg, Cristiane Jatahy, Marcelo Grabowsky e o Quarteto Pretti-Parente, entre outros. A variedade de abordagens do evento cênico é a principal característica dessa nova febre teatral.

Eryk e seu irmão Pedro Paulo Rocha assinam uma das cinco “(trans)versões autorais” do mega-espetáculo Os Sertões, editadas em DVD pelo Teatro Oficina com patrocínio da Petrobras. Os filmes (A Terra, O Homem I e II, A Luta I e II) destacam-se pelo apetite audiovisual com que se lançam à cena e aos bastidores da peça, e ainda pelo uso de 11 câmeras móveis, incluindo grua, steadicam e flyingcam.

Mentiras SincerasPedro Asbeg, que há dez anos vem dirigindo os DVDs da Cia. Armazém de Teatro, apresentou em festivais no ano passado o longa Mentiras Sinceras, exercício de captação das entranhas de uma montagem da peça Mente Mentira, de Sam Shepard (foto à esquerda). A linguagem fílmica se presta sobretudo a aprofundar a reflexão dos atores sobre seu trabalho. Em minha resenha de outubro último, eu classifiquei o filme como um thinking of da peça.

Outra incursão importante no rumo de um hibridismo entre cinema e teatro foi A Falta que nos Move, de Cristiane Jatahy, transposição para a tela de sua experiência homônima no palco. Tratava-se de reproduzir diante das câmeras a mesma aventura de improvisação de um grupo de atores reunidos à espera de outro que demora a chegar. Não fiquei muito seduzido pela proposta de Cristiane, na medida em que os recursos me pareceram repetitivos e os resultados, bastante inócuos tanto como cena quanto como cinema.

Outra ideia em que não embarquei foi a dos Irmãos Pretti e Primos Parente de filmar a peça Eutro, de Rodrigo Fischer, numa espécie de bolha preto-e-branco sem plateia. As câmeras de No Lugar Errado operam livremente diante e entre os quatro atores (dois casais) envolvidos num jogo cênico de atração e repulsa que se estende por uma longa noite. O teatro aqui é matéria bruta para uma filmagem minimalista (eu diria mesmo lacônica). A peça, por sua vez, me soou um tanto pueril, apesar da boa trip dos atores.

Deixo por último uma das experimentações mais curiosas nessa safra de cineteatro. Até porque Testemunha 4 vai ter uma sessão nesta quarta-feira, dia 18, às 20 horas, no Midrash Centro Cultural (Rua General Venâncio Flores, 184 – Leblon, Rio). Depois do filme, o diretor Marcelo Grabowsky e a atriz Carla Ribas conversam com a plateia.

Meio brincadeira, meio sério, costumo dizer que o filme é o cruzamento possível entre A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, e o documentário Zidane – Um Retrato do Século XXI. Explico. Testemunha 4, ganhador do prêmio de melhor direção da última Semana dos Realizadores, parte da montagem de O Interrogatório, de Peter Weiss, com direção de Eduardo Wotzik. Em setembro de2009, a peça, de seis horas de duração, foi encenada quatro vezes consecutivas numa “vigília cênica” de 24 horas ininterruptas. Durante esse período, os cerca de 40 atores não deveriam dormir nem sair do personagem, mesmo se estivessem fora de cena. Marcelo Grabowski optou por filmar a maratona com as lentes afixadas na atriz Carla Ribas, sua mãe.

A câmera concentra toda sua atenção nos closes dramáticos da atriz, no papel de uma das testemunhas no Julgamento de Frankfurt (1963-65), que condenou oficiais nazistas por seus atos em Auschwitz. Isso remete imediatamente à Joana D’Arc de Dreyer, que não esteve ausente das referências de Marcelo ao fazer o filme. Mas Carla Ribas também é vista nos momentos de repouso, refeições, nos bastidores do teatro etc. O filme se revela então uma testemunha do trabalho contínuo da atriz, de sua permanente “ocupação” pelo personagem. Nesse sentido, lembra o doc de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que acompanhava cada movimento ou inação de Zidane (e só ele) durante os 90 minutos de uma partida de futebol.

Nessas várias aproximações do jovem cinema brasileiro ao teatro, o que aparece em comum é o desejo de fugir ao mero registro, buscar uma interação diferente dos velhos modelos de filme-peça e, ao mesmo tempo, reinventar o que é tradicionalmente amaldiçoado como “teatro filmado”. Encarar o palco de frente e sem medo para produzir alguma coisa que só compete ao cinema.

Sucessos segundo Ely Azeredo

janeiro 16th, 2012 § Deixe um comentário

O crítico e amigo Ely Azeredo enviou comentários a respeito do assunto do meu post anterior, As contas do nacional-popular.  Mais que meros comentários, acho que merecem o destaque de um post especial.

Rabiscos às margens de seu estudo para Filme Cultura

>O CANGACEIRO – Um dos muitos enigmas, até porque é sabido que havia “caixas de ingressos 2″ no mercado exibidor. A coisa se complicou quando a Vera Cruz entregou o filme à Columbia para quitar dívidas. O filme de Lima Barreto rodou mundo (legendas em árabe, japonês etc). Na última rodada pelos grotões USA, ”O cangaceiro” passou como “anglo”, com título trocado, e elenco de nomes gringos, à moda do western espaguete.

>APLAUSOS ENGAJADOS – O Partidão mandava seus fiéis puxarem aplausos para alguns lançamentos “nacional-populares”. O caso mais conhecido: “O pagador de promessas”. O companheiro e autor da peça teatral, Dias Gomes, merecia.

>O ÉBRIO – Um dos maiores sucessos de nossa História. Infelizmente sem registros “matemáticos”. Os exibidores rogavam por cópias. Pelo menos até as vésperas do Cinema Novo a produção da Cinédia ainda rodava pelas periferias e pelo deep Brasil. Nada que empolgasse a classe média – ao contrário das chanchadas Atlântida.

>OS HOMENS QUE EU TIVE – Só faltou dar cadeia para a menina Teresa Trautman, 22 anos, estreante na longa-metragem - essa historia de “ter homens”…no Brasil Grande (e Macho) da ditadura militar.  Um estouro em 1973, no Rio, reforçado por polêmicas que atraíram a ira das censuras. Um grande circuito de SP reservara datas “a seguir”. Proibidíssimo. Quando Brasília largou o osso, muitos anos depois, a produção tinha perdido o Ponto G (a sexualidade estava na geléia geral) e os contratos de exibição deteriorados.

>MAZZAROPI – Sua história econômica nunca foi muito bem apurada. Sou testemunha ocular de que o pseudo-Jeca apreciava  levar dinheiro de bilheteria em maletas. Eram tempos de menos bandidagem, e ele não fazia cerimônia com isso nos escritórios das distribuidoras. A partir de 1958, quando se tornou produtor, fechava seus acordos de exibição com os donos de cinemas – por circuitos e, frequentemente, sala por sala. Tornou-se também distribuidor. Pelo que faturava (isoladamente) na capital de São Paulo, continuaria rico se perdesse o resto de SP e do Brasil.

>INGRESSOS BARATOS – Enquanto os filmes norte-americanos chegavam montados no lucro de seu mercado doméstico, as produções brasileiras sofriam com o tabelamento dos ingressos – fator de estresse que entrou pelos anos 1960. ”O cangaceiro”, por exemplo, estreou durante o último governo Vargas, que não admitia qualquer reajuste na entrada da grande diversão popular. Certamente ingressos menos nanicos não impediriam a grande adesão popular a filmes como os citados acima.

Ely Azeredo

As contas do nacional-popular

janeiro 12th, 2012 § 1 Comentário

Em tempos de muitas estatísticas sobre o mercado do cinema brasileiro, publico aqui a matéria que fiz para a revista Filme-Cultura nº 52, cujo tema de capa era uma história dos arrasa-quarteirão verde-amarelos. O artigo se refere aos sucessos de bilheteria dos anos 1960 e 70.

Numa cena do documentário Cinema Novo (Improvisiert und Zielbewusst), dirigido em 1967 por Joaquim Pedro de Andrade para a TV alemã, vemos Cacá Diegues e Zelito Viana fazerem a ronda pelos cinemas do Rio no dia da estreia de A grande cidade. O diretor e o produtor do filme entram em cada sala para conferir a afluência de público. Por duas vezes, a câmera se detém nas urnas transparentes onde eram depositados os ingressos. Àquele recipiente mágico, termômetro do sucesso de um filme, Glauber Rocha se referia como “cacife”.

A semântica de jogo não era desprovida de sentido nos anos 1960. Mais que hoje, a sorte de um lançamento era decidida pelo acaso. Não havia P&A (orçamento para despesas de comercialização), nem qualquer ciência de divulgação. As fichas eram jogadas nos anúncios de jornal publicados pelo exibidor. O chamado “decreto” (lei que reservava 56 dias por ano para a exibição de filmes brasileiros), se garantia a chegada às salas, também induzia à retirada de cartaz tão logo se cumprisse o prazo mínimo exigido pela lei.

Os filmes eram produzidos com recursos próprios, empréstimos bancários pessoais e patrocínio privado, às vezes favorecidos pelo que Gustavo Dahl chamou de “industrialização do mecenato”. Podia-se obter, quando muito, uma mãozinha oficial do governo do estado da Guanabara ou, a partir de 1967, do Instituto Nacional do Cinema (INC). Se a renda fosse gorda, o filme se pagava e talvez sobrasse para comprar carro e apartamento. Se não fosse, assumia-se o prejuízo e partia-se para outra. “A gente andava mesmo pelos cinemas olhando o ‘cacife’, conversando com o gerente, conferindo o som”, lembra Zelito Viana, um dos fundadores da produtora Mapa Filmes.  Continue lendo

Tiffinwallas

janeiro 9th, 2012 § 5 Comentários

Sempre que estou preparando uma viagem mais, digamos, intensa, gosto de submergir nas referências do lugar: leituras, filmes, músicas, conversas com quem já foi lá e revisita às minhas próprias imagens e recordações quando se trata de um local onde já estive antes. Essa pré-viagem é, para mim, quase tão importante quanto a viagem em si. É a criação de expectativas, a pré-seleção do que ver, o antegustar dos detalhes. Às vezes acaba sendo melhor que a viagem em si, o que vale como uma espécie de compensação.

Agora mesmo estou em plena pré-viagem para a Índia. Em fevereiro vou participar do júri de um festival de cinema em Bombaim e, em seguida, conhecer um pouco do sul do país, que ficou de fora da minha viagem de 2005 pela metade norte. Estou lendo Bombaim Cidade Máxima, de Suketu Mehta, relendo trechos do incontornável Índia – Um Olhar Amoroso, de Jean-Claude Carrière, e ainda pretendo passear ao léu pelas 900 páginas de Shantaram, de Gregory David Roberts. A exposição do CCBB e a Mostra Bhava de cinema indiano vieram a calhar no final do ano.

Fui rever minhas gravações em vídeo de sete anos atrás em Bombaim e tive vontade de editar essas cenas com os Tiffinwallas (ou Dabbawallas), os famosos entregadores de marmita da cidade. Trata-se de um serviço inimaginável numa cidade moderna, mas que lá se mantém por tradição. Os trabalhadores saem de suas casas de subúrbio pela manhã sem levar suas lunch boxes. Por volta das 11 horas, os Tiffinwallas começam a coletá-las nas casas e transportá-las por trem até a estação de Churchgate, no centro. Dali sai uma malha de distribuição para os escritórios e locais de trabalho. O objetivo é que a comida chegue ainda quentinha às mãos do cliente.

O mais incrível ainda está por vir. À tarde os Tiffinwallas recolhem as marmitas e as devolvem da mesma maneira às casas de origem. Vale tudo para dar emprego às multidões indianas. O serviço é tão eficiente que já mereceu o prêmio Six Sigma da revista Forbes. Veja meu vídeo de 6 minutos:

407 horas de cinema brasileiro

janeiro 5th, 2012 § 5 Comentários

A Programadora Brasil, distribuidora de filmes brasileiros em DVD para exibições não comerciais, vinculada à Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura, completou em 2011 cinco anos de existência, com um público superior a 500.000 espectadores. Eles publicaram um catálogo geral do acervo e me convidaram para escrever o texto de apresentação. É um tanto mais longo que a média postada aqui no blog. Vamos a ele:

Poucas cinematografias no mundo podem se orgulhar de ter, numa mesma coleção de DVDs, um acervo amplamente representativo como o da Programadora Brasil. Com uma vantagem que não é pequena: eis uma coleção que, ao invés de ser vendida a preço de ouro em livrarias chiques, é disseminada a custo baixo em cineclubes, escolas, espaços culturais, bibliotecas e espaços correlatos país afora, do Amapá ao Rio Grande do Sul.

Uma cinemateca ambulante, pode-se dizer. Os números são expressivos: em 255 discos (ou programas), encontram-se 825 títulos, entre curtas, médias e longas-metragens. Totalizam 407 horas de cinema. Para assistir ao catálogo inteiro, um espectador precisaria dedicar 50 dias em jornadas integrais de oito horas, sem intervalos. Mas como essa não é uma experiência das mais saudáveis, os programas vêm formatados para se conhecer, com calma e esclarecimento crítico, os momentos mais interessantes dessa aventura que é o cinema brasileiro.  Continue lendo

Rastros de 2011

janeiro 2nd, 2012 § 9 Comentários

Divido com vocês as informações de um relatório enviado pela WordPress a respeito do desempenho deste blog em 2011. Não foi nenhum Mashable!, mas também não creio que tenha sido desprezível para um blog individual, solto no mundo e sem celebridades envolvidas.

Os rastros de carmattos receberam 92.000 visitas durante o ano, o que, segundo a WordPress, corresponde à visitação do Louvre durante quatro dias. Isso dá uma média de 7.666 visitas por mês, 1.916 por semana e 273 por dia. Brasil, Portugal e Argentina foram os países onde mais se clicou por aqui.

O dia com mais tráfego foi 19 de março, com 920 visitas. O artigo mais popular nesse dia foi Menos silêncio, por favor. Ao todo foram publicados 238 novos artigos, contendo 288 imagens.

A performance de comentários continuou sendo bem fraquinha. Mas vale a pena destacar os comentadores mais ativos, pela ordem: Fernando Trevas Falcone, Vitor Souza Lima, Thereza Jessouroun, Ariane Mondo e Paulo Lima. A eles agradeço em nome da troca e da interatividade. Agradeço, é claro, a todos os visitantes frequentes e aos assinantes que recebem notificações automáticas por email.

Aproveito para informar que o blog vai ter atualização um pouco menos frequente nos meses de janeiro e fevereiro. Mas pelo menos um post novo por semana dá pra garantir. Quem anda sempre deixa rastros.

Meus melhores de 2011

dezembro 28th, 2011 § 8 Comentários

A pesquisadora e ensaísta Ilana Feldman lançou no Facebook a hipótese de que listas de melhores são uma diversão de homens. Ela escreveu: “Numa boa: elencar afetos é uma atividade tipicamente masculina. Um dia alguém precisa escrever a história da “cinefilia” feminina. Não haverá, pois que não há listas. (Só para feira, mercado, afazeres da vida e do lar). Que assim seja.”

Tenho minhas dúvidas. O próprio Facebook está cheio de moças com suas listinhas de melhores do ano. Mesmo que não saiam alardeando espontaneamente suas escolhas, críticas de cinema como Susana Schild, Roni Filgueiras e outras vinculadas a jornais e internet as publicam quando solicitadas. De uma maneira geral, homens são mais afeitos a coleções. Mas não às de livros. Nas bibliotecas, pelo menos, a presença de profissionais femininas é mais frequente.

Bem, ventilada a questão, vamos ao que interessa. Como anoto numa tabela do computador todos os longas-metragens (mais de 60 minutos) a que assisto, pude contar 274 filmes vistos em 2011, entre lançamentos comerciais, mostras, festivais, DVDs e internet. Aí vão as minhas listas de melhores. Afinal, esse aqui é um blog espada.

Melhores lançamentos em sala

  • Melancolia (resenha)
  • Não me Abandone Jamais
  • Margin Call (resenha)
  • Incêndios
  • Diário de uma Busca (resenha)
  • O Vencedor
  • Transeunte
  • Tio Boonmee, que Pode Recordar Vidas Passadas (resenha)
  • O Garoto da Bicicleta
  • Morro do Céu (resenha)

 

Melhores de mostras e festivais

  1. A Separação (Festival do Rio) (resenha)
  2. Sudoeste (Festival do Rio) (resenha)
  3. Chico & Rita (Anima Mundi)
  4. Morrer como um Homem (Cineport) (resenha)
  5. 48 (Cineport) (resenha)
  6. O Cavalo de Turim (Festival do Rio) (resenha)
  7. Tablóide (Festival do Rio) (resenha)
  8. Os Últimos Cangaceiros (Festival do Rio)
  9. Uma Longa Viagem (Festival do Rio)
  10. Girimunho (Festival do Rio)

 

Melhores vistos em DVD e outros suportes

  1. Pina
  2. Exit Through the Gift Shop (resenha)
  3. A Film Unfinished

 

E agora alguns ícones que marcaram o meu ano cinematográfico:

Cavalos – O de Turim, os de Goethe (Arthur Omar) e os desenhados na Caverna dos Sonhos Esquecidos. Três belos filmes marcados pela presença do mais belo dos animais.

Grafite – Entre os desenhos do Cro-Magnon na Caverna dos Sonhos Esquecidos e os de Banksy em Exit Through the Gift Shop, um salto de 30.000 anos e a mesma fascinação pela arte gravada nas paredes.    

Vitrine – A Sessão Vitrine surgiu para dar um mínimo de visibilidade extra-festivais a filmes arriscados e inventivos do jovem cinema brasileiro. Ganhou o destaque de “evento do ano” da Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro.

Novíssimos – Frequentando a Mostra de Tiradentes, correndo atrás dos filmes, lendo o livro Cinema de Garagem e participando de um debate que se estendeu ao jornal e à internet, acho que pude sentir o pulso de uma geração empenhada em fazer-se presente à sua maneira no cinema brasileiro.

Minas  – Quantas Gerais cabem em filmes tão diferentes quanto O Céu sobre os Ombros, Girimunho, O Mineiro e o Queijo e Estrada Real da Cachaça? Um ano mineiro, sem dúvida.

Faróis – A segunda Mostra Faróis do Cinema trouxe alegrias e ótimas conversas sobre cinema aos que a frequentaram. Obrigado a Mariana Bezerra e Marcelo Laffitte.

Águas – Minha paródia de Águas de Março aplicada ao cinema brasileiro foi muito apreciada pelos amigos. Houve quem sugerisse gravá-la. E também quem reclamasse por não ter sido citado.

Deus – Esteve na berlinda em função dos filmes A Árvore da Vida Melancolia. Materialismo desencantado e espiritualismo consolador estiveram por trás da maior celeuma cinéfila do ano.

Dahl – O ano em que eu mais me aproximei de Gustavo Dahl, via Filme Cultura, foi também o ano em que o perdemos. Um estado de orfandade no cinema brasileiro.

O pré-Hemingway de Curitiba

dezembro 28th, 2011 § Deixe um comentário

Essa cara de moleque paranaense aí em cima não engana. Bem antes de pular para trás das câmeras, Sylvio Back era um jovem crítico de cinema e teatro, jornalista “entrão” que sonhava em ser copidesque, posição cobiçada nas redações em fins dos anos 1950. O Diário do Paraná confiou-lhe em1959 a edição de sua página literária dominical. Influenciados pelo Suplemento Dominical do JB carioca, Back e o programador visual de nome não menos literário, Emilio Zola Florenzano, criaram uma página dinâmica, arejada, contemporânea. Durante 85 domingos, o letras e/& artes (assim mesmo, com minúsculas) fustigou a cena cultural de Curitiba. Parou de circular quando Back, aos 23 anos, foi demitido por liderar uma greve salarial.

Agora, 50 anos depois, o letras e/& artes ressurge em edição facsimilar, patrocinada pela Itaipu Binacional e distribuída à margem do comércio. Dá gosto folhear as páginas enormes e ver como o debate cultural de uma fase de transição na cultura brasileira repercutia num ambiente relativamente provinciano.

A pauta aprovada pelo editor Sylvio C. Back contemplava contos, poemas, traduções (de Genet, Camus, Lorca etc), críticas de filmes e montagens teatrais, ensaios sobre existencialismo (então na moda entre os jovens curitibanos) e muitos textos editorializantes contra os pseudointelectuais, os escritores “barrocos”, os críticos “viteloni” (boas-vidas) e os canastrões de toda ordem. A página era feita por e para os “jovens da terra”, como afirmava o editor.

Back jogava em diferentes posições. Como crítico de cinema, saudava Tati, Jules Dassin e Tchukrai, incensava O Grande Momento de Roberto Santos e duvidava de Glauber na afirmação de que a ida das câmeras para o Nordeste renovaria o cinema brasileiro. Voltando-se para os palcos, lastimava “o ambiente descultural do teatro paranaense” e celebrava a novidade do Teatro de Arena. Rebatia Wilson Martins em defesa de um escritor-filósofo local. Defendia a Lolita de Nabokov (“nada tem de imoral”), Os Amantes de Louis Malle e a revolução cubana (“Não foi em vão que Sartre disse ter Castro feito o que é preciso fazer”). Outros pequenos textos, de teor “angustial” (então sinônimo para existencial), prenunciavam a veia ficcional do futuro cineasta-poeta.

Do garoto que aspirava a ser um “pré-Hemingway” ao diretor de filmes como Aleluia Gretchen e Lost Zweig, Sylvio Back mudou muito e ao mesmo tempo não mudou tanto. Os seus filmes e – principalmente – os textos que ele produz em paralelo conservam bastante daquela verve conflagradora, da rejeição a alinhamentos e do gosto pela palavra mordaz.

Abacateiro digital

dezembro 26th, 2011 § 2 Comentários

Gil e Bodanzky na tela do Skype

Transformar boas palestras em bons documentários não é tarefa fácil. A CPFL, companhia de energia sediada em Campinas e uma das patrocinadoras do É Tudo Verdade, está convidando cineastas para criar em cima dos registros de eventos patrocinados por ela. Jorge Bodanzky acaba de finalizar dois trabalhos nessa série chamada Discussões e Reflexões.

Sociologia da Crise discute os efeitos da crise financeira de 2008. Aqui, a dinâmica construída pelo roteiro não consegue eliminar uma certa aridez nem organizar as ideias de modo mais produtivo. Em compensação, Transanarquia dá uma boa impressão do que esse modelo de construção pode render.

Transanarquia é um doc de 50 minutos feito a partir de um simpósio de cibercultura realizado em Santos, em 2009. Bodanzky volta a alguns dos participantes para atualizar questões e perguntar para onde anda a internet. Mas, bem de acordo com a proposta geral, ele volta pelo Skype, em entrevistas à distância, notebook a notebook. É claro que nada muda em profundidade nessa abordagem virtualizada, mas pelo menos a superfície do filme se imanta das potencialidades do que seria hoje uma estética digital.

A imagem lowtech e a sincronia desarrumada do Skype conferem uma urgência e uma atualidade especiais às falas de Gilberto Gil e José Arbex Jr. Como sempre nesses casos, Gil é uma estrela cintilante. No simpósio, cantou baladas e raps com o tema da tecnologia e contagiou a todos com suas análises de uma certa vocação da cultura para o consumo coletivo e seu ciberotimismo em vista de um novo “comunismo sem estado” propiciado pela cultura digital. “É muito John Lennon o que vem por aí”, imaginou, com um riso cheio de fé. Na outra ponta do espectro, um outro “Gil”, o economista e sociólogo Gilson Schwartz, relativiza bastante esse entusiasmo, apontando a perda de substância e o advento de uma “iconomia”, variação da economia que se baseia em ícones das relações virtuais.

O debate é interessantíssimo e ainda não perdeu a oportunidade desde a época em que o Wikileaks dominava o noticiário. Mas a CPFL não deve demorar a fazer circular esses filmes, sob pena de suas discussões serem rapidamente superadas pelo trem-bala dessa nova cultura. Seja como for, um doc como Transanarquia resistirá pela simples cota de inteligência nele contida. Inteligência no seu melhor estado, que é a verve. O filme termina deliciosamente quando Pierre Lévy conclui sua palestra anunciatória e Gil pega o microfone para perguntar, todo candura: “Mas Pierre, e se não for assim, como será?”

Não ouvimos a resposta de Pierre, mas eu bem que gostaria de ouvir a de Gil à mesma pergunta, caso Bodanzky a tivesse feito no seu Skype.

A cada um seu Natal

dezembro 24th, 2011 § 1 Comentário

Esta é a Madona dos sul-africanos

fotografada este ano numa igreja da Cidade do Cabo

Foto: Carlos Alberto Mattos

Ou seja, que cada um de nós tenha o Natal que melhor desejar

E que o seu fim de ano seja o mais parecido com os seus desejos

São os votos do blogueiro

O chamado da selva

dezembro 23rd, 2011 § 1 Comentário

Em sua obra-prima, O Chamado da Selva, o escritor Jack London narra as transformações de um cão São Bernardo. Originalmente doméstico e civilizado, Buck é raptado e vendido a aventureiros do ouro no Alasca do século 19. Subjugado, maltratado e exposto a condições extremas de sobrevivência, ele aos poucos vai abandonando os nobres sentimentos. Passa a disputar agressivamente as melhores posições e eliminar concorrentes. Finalmente, faz contato com seus instintos primordiais e se converte numa fera indomável, capaz de estraçalhar animais e homens.

Lembrei-me dessa leitura enquanto assistia a Tudo pelo Poder. No fundo, a história contada aqui por George Clooney, a partir de peça de Beau Willimon, é tão behaviorista quanto a de Jack London e tem muitos pontos de contacto. Substitua-se Buck pelo assessor de imprensa Stephen Meyers (Ryan Gosling) e a selva pela campanha a uma indicação Democrata nas primárias de uma eleição presidencial americana. O que temos é uma parábola sobre a dificuldade em preservar a pureza e o idealismo na luta pelo poder. Atacado por todos os lados, deixando flancos abertos por um misto de ingenuidade e ambição, Stephen é como um cão fiel a seu dono, desde que possa descansar a cabeça sobre seu colo e sentir-se o preferido. Ao perder esse posto, não medirá atitudes para satisfazer o orgulho ferido. O candidato vivido por Clooney, o dono do cão, também terá testados os seus princípios imaculados quando for preciso salvar as aparências e a candidatura.

O título original refere-se, um tanto pomposamente, aos célebres “Idos de Março”, episódio da morte de César por conspiradores no século 44 AC. Talvez a pretensão de Clooney tenha sido maior que o material em suas mãos. Tudo pelo Poder não é muito mais que um bom filme, claramente bem dirigido e roteirizado. O drama político se torna um thriller a meio caminho, valendo-se de bons paralelos entre a “vitrine” da campanha – os discursos, entrevistas e performances públicas do candidato – e os bastidores, onde se arma o jogo dos blefes, chantagens e intimidações. Numa cena excepcional, essas duas linhas vão se encontrar em torno de um simples chamado num celular.

Como se não bastasse o caso Clinton-Lewinski, o democrata Clooney volta a alertar os políticos para o perigo sempre latente das estagiárias sexy. Elas também podem acionar o “chamado da selva”.

Críticos de cinema do Rio elegem os melhores do ano

dezembro 21st, 2011 § 9 Comentários

A Associação de Críticos de Cinema do Rio de Janeiro elegeu ontem (terça) os melhores filmes de 2011. Foram considerados os lançamentos em salas no Rio de Janeiro até 20 de dezembro, deixando de fora as estreias das duas próximas sextas-feiras.

Após dois turnos de escrutínio e discussões, envolvendo a participação de 21 críticos, chegou-se a um empate insolúvel, levando à eleição de 11 filmes, a saber:

ALÉM DA VIDA, de Clint Eastwood
A ÁRVORE DA VIDA, de Terrence Malick
UM CONTO CHINÊS, de Sebastián Borensztein
CÓPIA FIEL, de Abbas Kiarostami
O GAROTO DA BICICLETA, de Jean-Pierre e Luc Dardenne
INCÊNDIOS, de Denis Villeneuve
O INFERNO DE HENRI GEORGES-CLOUZOT, de Serge Bromberg e Ruxandra Medrea
MEIA-NOITE EM PARIS, de Woody Allen
MELANCOLIA, de Lars Von Trier
A PELE QUE HABITO, de Pedro Almodóvar
O VENCEDOR, de David O. Russell

Foi escolhido ainda DIÁRIO DE UMA BUSCA, de Flávia Castro, como o melhor lançamento brasileiro do ano.

Os críticos cariocas elegeram também:

Melhor evento do ano – criação da SESSÃO VITRINE para lançar filmes brasileiros em sete capitais.

Melhor iniciativa para o pensamento cinematográfico: MOSTRA BÉLA TARR, parte da programação do Festival do Rio.

Os 12 filmes serão exibidos e debatidos numa mostra de 14 a 26 de fevereiro no CCBB-Rio.

Além dos muros da escola

dezembro 19th, 2011 § 5 Comentários

"Ser e Ter", um dos filmes abordados no livro

Amizade, autoestima, comportamento de grupos, comunicação, conexão, confiança, conflito, criatividade, ética, informática, lealdade, talento, tecnologia, traição… Essas são algumas tags para o filme A Rede Social, conforme abordado por Myrna Silveira Brandão no livro Leve seus Alunos ao Cinema (Qualitymark Editora, 2011). Aqui mais um vez Myrna combina seus dotes de crítica de cinema, pesquisadora (ela preside o Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro) e especialista em recursos humanos (é também diretora cultural da Associação Brasileira de Recursos Humanos).

Ela já havia feito isso em dois livros anteriores, dirigidos ao público corporativo. Leve seu Gerente ao Cinema (2004) e Luz, Câmera, Gestão – A arte do cinema na arte de gerir pessoas (2006) colocavam os filmes nossos de todo dia numa perspectiva de relacionamento humano e profissional. Com esta nova publicação, Myrna fornece orientações para professores tirarem proveito das abordagens cinematográficas no debate da própria escola, do aprendizado e dos temas do cotidiano de seus alunos.

O livro explora as potencialidades de 62 filmes, de um blockbuster como Duelo de Titãs a um documentário brasileiro como Pro Dia Nascer Feliz; de filmes europeus como Cinema Paradiso a asiáticos como Nenhum a Menos, de Zhang Yimou; de dramas como O Óleo de Lorenzo a animações como Ratatouille e Wall-E. Cada filme é descrito com ênfase nos aspectos educacionais, evidenciando metáforas e detalhes de dramaturgia que se prestam ao assunto em pauta. A isso se seguem uma lista de temas (as tags a que me referi acima) e uma série de sugestões para debate em classe, incluindo dicas metodológicas para um melhor aproveitamento das discussões pós-filme.     

Títulos como Ao Mestre com Carinho, Entre os Muros da Escola e Sociedade dos Poetas Mortos trazem a questão da educação na sua própria trama, mas outros requerem certa perspicácia para serem usados em sala de aula. É onde entra o olhar tarimbado de Myrna para apontar caminhos e levantar questões. A escola, projetada no mundo através dos filmes, passa a ser não apenas um lugar de acumulação de conhecimentos, mas de reflexão sobre a sociedade e o estar no mundo.

Democracia ou escambo?

dezembro 17th, 2011 § 3 Comentários

Diz o senso comum que a democracia representativa é uma merda, mas não existe melhor opção. Pois até o senso comum fica ameaçado por amostras como as contidas no documentário Porta a Porta – A Política em Dois Tempos. Marcelo Brennand acompanhou a campanha para prefeito e vereador em 2008 na cidade pernambucana de Gravatá. Coletou evidências de que o jogo eleitoral, ali como em tantas cidades do interior do Brasil, não passa de um escambo quase primitivo de favores, empregos etc. OK, sabemos disso muito bem, mas nem sempre temos a chance de ver o monstro em ação.

Para começar, numa cidade pequena como aquela, de 80.000 habitantes, sem indústria nem produção rural expressiva, o município é o principal empregador. Ter seu voto ou seu trabalho de cabo eleitoral “reconhecido” pelo candidato vitorioso pode significar um posto de trabalho mais adiante. A própria militância na campanha é um emprego sazonal precioso, com salários que superam a média dos menos favorecidos. Ninguém disfarça – sequer diante das câmeras – que um voto pode ser trocado por uma porta de banheiro ou um exame de vista, ainda que nenhuma das partes venha a cumprir sua palavra – nem o político depois, nem o eleitor na hora da urna.

Por conta de toda essa movimentação, que altera profundamente a rotina do lugar, a cidade se divide como na festa do Boi de Parintins: azuis e vermelhos se enfrentam nas ruas, às vezes fisicamente. O título do filme se refere à prática dos candidatos e militantes de bater a cada porta para pedir “a sua confiança e o seu voto”. Os candidatos são comerciantes, taxistas, lavradores, e suas motivações variam da tradição familiar ao senso de oportunidade. Inaugurar três semáforos ou remodelar um açougue são façanhas que podem assegurar uma reeleição. Quem falar em ideologia corre o risco de ser tomado por grego.

Porta a Porta usa uma narração em primeira pessoa do diretor para se orientar no período da campanha e na volta à cidade um ano depois das eleições. Não há grandes pretensões além de narrar seu case e rascunhar alguns bons personagens. Mas ao flagrar momentos realmente definidores de uma prática política bem distante dos ideais democráticos, o filme diz a que veio.

Longa jornada crise adentro

dezembro 15th, 2011 § 1 Comentário

Kevin Spacey é parte do excepcional elenco de "Margin Call"

Nada mais adequado do que o subtítulo de filme-catástrofe sapecado no lançamento brasileiro de Margin Call – O Dia Antes do Fim. O dia C do crack financeiro de 2008 é contado do ponto de vista da primeira empresa que teria escancarado a crise oferecendo-se em holocausto no mercado para que seus mais altos executivos pudessem sobreviver. O clima é de apocalipse. Não à toa, aqueles homens apavorados diante das telas de computador se assemelham aos cientistas de uma central de comando monitorando um choque inevitável de planetas em filme de ficção científica.

Margin Call já foi chamado de “continuação de Wall Street”, em referência aos dois filmes de Oliver Stone. Mas eu o vejo mais como um contracampo do documentário Trabalho Interno. Enquanto este tratava a crise numa perspectiva macro, enfeixando-a histórica e contextualmente, Margin Call o faz por dentro de um case específico. Nem os personagens, nem a empresa têm contraparte definida no mundo real, mas, como anotou o crítico americano Roger Ebert, é bem claro que o nome do chefão John Tuld, vivido por Jeremy Irons, lembra o de Richard Fuld, o CEO da Lehman Brothers que lucrou milhões com a falência de sua empresa.

Há uma cena discreta mas muito simbólica no filme. Em dado momento da longa noite de agonia, dois executivos entram num elevador onde se encontra uma faxineira. Eles continuam a conversa – cifrada para simples mortais – como se não houvesse ninguém com eles no elevador. A faxineira, por sua vez, mantém os olhos fixos para a frente e uma expressão impassível, misto de respeito e ignorância. A cena expressa bem o nível de alienação recíproca entre o mundo das finanças e o mundo do trabalho. De certa forma, expressa também a relação da maioria dos espectadores com as discussões que presenciamos dentro e fora do elevador. E é justamente aí que Margin Call se revela um prodígio de dramaturgia.

O teor de abstração e de “financês” de quase tudo o que ouvimos é espantoso, mas ainda assim acompanhamos a jornada noite adentro daqueles executivos com absoluta compreensão e engajamento. Tanto em termos de roteiro quanto de direção, é espantoso o trabalho de J.C. Chandor, vindo de comerciais, videoclipes e pequenos documentários para essa promissora estreia no longa-metragem. A noção de timing, a propriedade dos diálogos e a maestria na direção dos atores nos coloca no centro de um torvelinho de vaidades, oportunismo e humilhação que por vezes tangencia Eugene O’Neill, Arthur Miller ou mesmo uma tragédia de Shakespeare.

De resto, não é desprezível o efeito catártico provocado pelo filme. Afinal, como é bom ver grandes porcos capitalistas em apuros.

Por dentro da Missa

dezembro 14th, 2011 § Deixe um comentário

Antes de publicar o post anterior, sobre a montagem em cartaz de Missa dos Quilombos, eu tinha enviado algumas perguntas ao diretor Luiz Fernando Lobo. As respostas chegaram depois da publicação. Segue aqui a entrevista:
…………………………………………………………………………………………………
- Esta parece ser a sétima vez que você monta o espetáculo. Qual a principal novidade dessa atual montagem, além do espaço do Armazém?
LFL – De fato essa é a sétima edição da Missa. Não há nenhuma inovação formal. O que há é que ao longo dos anos fomos trabalhando e conseguindo com isso um aperfeiçoamento técnico e artístico do próprio espetáculo. Em termos de tecnologia há uma grande mudança na qualidade do som, especialmente das vozes.
- Que acréscimos você fez nessa versão em relação ao texto original da Missa?
LFL – Acrescentei só dois textos, mas já em 2002: a carta das mães sem terra e o texto do Betinho sobre a criança que corta uma tonelada de cana por dia.
- Com quem você divide a direção do canto e as coreografias?
LFL – A preparação vocal é da Aurora Dias, também atriz do espetáculo e membro da Ensaio Aberto. A preparação corporal é da Joana Marinho, também do nosso coletivo desde 2003. A preparação das danças de orixás são do Forró, que faz o espetáculo desde a criação, e da Valéria Monã.  A coreografia de Mariama e do Ofertório é da Paula Águas.
- Quem é o cantor que tem voz idêntica à do Milton Nascimento, que faz o primeiro solo da peça?
LFL – Aquele cantor maravilhoso é de Minas e se chama Ladston Nascimento. Apesar da origem, do sobrenome e da voz, não é parente do Milton.
- Estou delirando ou tem uma estética de Metropolis/Fritz Lang ali?
LFL – Não é delírio. Criei todo o espetáculo a partir do conceito de Eisenstein de dramaturgia da forma, uma dramaturgia que não parte do texto mas das imagens. No caso, partimos das imagens do mundo do trabalho do Sebastião Salgado e do João Roberto Ripper. Com essas imagens na mão, vimos a que parte da Missa elas mais se ligavam e depois fechamos os pontos. É claro que isso tem toda uma relação com o construtivismo russo e alemão do início do século 20. Não busquei uma estética nem russa nem alemã mas o espetáculo é herdeiro disso de alguma forma. Tem uma coisa que se fala muito pouco que é o conceito brechtiano de estranhamento, que tem um similar russo, Ostreinie. É um caldo disso tudo com a música linda do Milton e a poesia do Pedro Tierra e de D. Pedro Casaldáliga. 

Ópera operária

dezembro 14th, 2011 § 2 Comentários

Foto: Carlos Alberto Mattos

Dê uma pausa na dupla Botelho & Moeller e se ligue num autêntico musical brasileiro. Missa dos Quilombos está só até terça que vem no Armazém da Utopia, no cais do porto. A Missa na verdade é uma ópera afro-brasileira, escrita há 30 anos por Milton Nascimento, Pedro Casaldáliga e Pedro Tierra. Já foi montada sete vezes pela mesma Companhia Ensaio Aberto desde 2002 em várias partes do Brasil. Mesmo que você já tenha visto alguma dessas montagens, vale a pena revê-la no espaço literalmente épico do Armazém.

O pequeno vídeo abaixo, que gravei com meu celular, dá uma ideia do uso que Luiz Fernando Lobo e sua trupe fazem da ampla boca de cena e do pé direito monumental. Ali se pode sentir melhor os ecos de um Metropolis, de Fritz Lang, ou de uma ópera contemporânea tipo Bob Wilson. Sob o palco principal instala-se uma oficina metalúrgica, enquanto a ação se espalha pelas laterais evocando ora canteiros de construção civil, ora as labutas da mineração, da lavoura ou dos estivadores. O entorno das docas, com seus guindastes e os barcos que passam, compõe uma espécie de cenário adicional, perfeitamente integrado ao espetáculo.

Missa dos Quilombos usa a estrutura narrativa e os temas de uma missa católica para falar da escravidão, do preconceito racial e das injustiças sociais de um Brasil então mergulhado nos últimos anos da ditadura. A Companhia Ensaio Aberto atualiza a pauta com o movimento dos sem-terra e outras referências mais recentes. Aqui e ali, Luiz Fernando Lobo deixa sua marca um tanto jogralesca, com textos exclamados em uníssono e posturas de realismo socialista. Mas da forma como isso vem envelopado na musicalidade exuberante da Missa e no magnífico trabalho de canto, dança e luz, tudo fica irresistível, emocionante. Não dá pra perder.

Missa dos Quilombos: quarta a sábado, segunda e terça às 21h; domingo às 19h.
Armazém da Utopia – Av. Rodrigues Alves, Armazém 6. Tel.: 2253-8726  

Mostra Faróis em segunda semana

dezembro 13th, 2011 § Deixe um comentário

A II Mostra Faróis do Cinema está entrando em sua segunda semana na Caixa Cultural RJ. O programa de hoje (terça) é um pequeno festival de curtas e médias dos realizadores farolados nesta edição. Veja a seguir:

(sala 1)
16h – Ismael & Adalgisa + Sexualidades (de Malu DeMartino)
18h – Anjos Urbanos + Crepúsculo Republicanos + Cabeça de Copacabana (de Rosane Svartman)
20h – Vox Populi + Banquete + Ópera Curta + Fúria (de Marcelo Laffitte)

(sala 2)
16h – Um Dia, Um Circo (de Marcelo Laffitte)
18h – Copa Mixta + Alô Tetéia (José Joffily) + Gentileza (Vinícius Reis)
20h – Vida Vertiginosa + Dor Secreta + O Acendedor de Lampiões + O Sereno Desespero (de Luiz Carlos Lacerda)

A primeira semana teve uma abertura animada com Xica da Silva e duas excelentes conversas sobre cinefilia, memória e criação cinematográfica. Uma delas reuniu Cacá Diegues e Rosane Svartman; a outra, José Joffily e Vinícius Reis. Nesta semana, mais quatro cineastas vão estar presentes para trocar ideias sobre suas admirações, influências e seu próprio trabalho. Sempre às 18 horas, na quinta-feira teremos Luiz Carlos Lacerda (For All – O Trampolim da Vitória) e Malu DeMartino (Como Esquecer); e no sábado, Neville D’Almeida (A Dama do Lotação) e Marcelo Laffitte (Elvis e Madona).

Acompanhe a programação e veja as sinopses dos filmes no blog Faróis do Cinema, onde também estão as coberturas de cada encontro pela crítica e pesquisadora Patricia Rebello. A mostra vai até domingo. Os ingressos custam 2 reais, com meia entrada a 1 real. Os encontros têm entrada franca.

Beleza e força

dezembro 11th, 2011 § 2 Comentários

Diversão de domingo:

Como uma pausa em tanto assunto sério aqui no blog, aí vai um vídeo que me deixou boquiaberto. A moça converte o erotismo banal da Pole Dance em momentos de pura graça corporal e arte dos músculos.

Obs.: Cheguei ao vídeo através de Paulo Noël no Facebook

Variações da mesma melodia

dezembro 9th, 2011 § 4 Comentários

Meu amigo cinéfilo Julio Miranda acha “o melhor filme de amor brasileiro”. Muitos colegas críticos se derramam em elogios, às vezes repetindo cansados chavões sobre o condensado humano dos filmes de Eduardo Coutinho. O próprio Coutinho há tempos não ficava tão satisfeito com um filme seu.

Diante de tudo isso, quem sou eu para discordar? Por isso revi As Canções tentando compreender melhor – e se possível dissipar – minha insatisfação com o filme. Mas como só fiz confirmar minhas primeiras impressões, limito-me a repetir aqui o que escrevi por ocasião do Festival do Rio, onde As Canções, por sinal, ganhou do júri e da crítica o prêmio de melhor documentário:

As canções sempre tiveram um papel importante nos filmes de Eduardo Coutinho. Quando os personagens de Santo Forte, Babilônia 2000 ou Edifício Master, por exemplo, eram instados a cantar diante da câmera, aquilo fazia parte da proposta de autofabulação embutida nos filmes. Ao cantar, as pessoas se reinventavam, assumiam mais plenamente o “teatro de si mesmas” que Coutinho buscava estimular com suas entrevistas. Esse recurso, subsidiário em vários trabalhos, ganha o proscênio agora em As Canções.

Invertendo o enquadramento de Jogo de Cena, as personagens de As Canções aparecem saindo das coxias para o proscênio de um teatro, e falam com a cortina ao fundo. Mais uma vez, parecem estar a sós com o diretor e suas lembranças. Cantam e explicam por que aquelas se transformaram nas músicas de suas vidas. A maioria dessas histórias se prende a amores perdidos no passado mas cuja memória ainda trava a voz e arranca lágrimas. Daí o filme ter um caráter algo repetitivo, como variações de uma mesma melodia. As canções, por seu turno, nem sempre parecem justificar plenamente o desenrolar das conversas, que Coutinho tenta sustentar às vezes penosamente, como que tirando leite de pedra.

Mas o que talvez roube mesmo de As Canções a força e a originalidade de outros filmes do diretor é o déficit de carisma de diversos personagens. Coutinho infringe uma regra básica do seu cinema, que é a particularidade graciosa de seus entrevistados. São poucos os momentos em que se dá aquele milagre de comunicação a que ele nos acostumou. Esse é, a meu ver, um momento de relativa estagnação no conjunto de uma obra desbravadora.

Segundas luzes

dezembro 6th, 2011 § Deixe um comentário

A segunda edição da Mostra Faróis do Cinema começa hoje (terça) na Caixa Cultural RJ. A sessão de abertura exibirá a cópia restaurada de Xica da Silva, de Cacá Diegues, que é um dos “farolados” da mostra. Como no ano passado, haverá exibições e encontros com cineastas. A curadoria este ano é de Marcelo Laffitte, mas eu vou participar mediando os encontros e, como de praxe, editando o blog Faróis do Cinema.

Aqui vai o link direto para a programação.

Abaixo, o texto de apresentação que escrevi para o folder da mostra:

Esta segunda edição da Mostra Faróis do Cinema dá prosseguimento a uma investigação sobre a formação do olhar dos cineastas brasileiros. Na primeira edição, enfocamos documentaristas. Este ano, nosso elenco é formado por realizadores prioritariamente envolvidos com o cinema de ficção. Não queremos com isso delimitar fronteiras em territórios cada vez mais hibridizados, mas apenas ampliar o espectro da nossa pesquisa.

Sabemos que não só com filmes molda-se o repertório de motivações para quem faz cinema. Ele é composto também por interações com outros campos artísticos, experiências biográficas e circunstâncias diversas que atuam sobre a criação de qualquer artista. Mesmo assim, queremos apostar na força da memória cinematográfica, seu caráter cultural, identitário e afetivo, como pistas das mais interessantes para compreendermos as escolhas dos nossos cineastas.

A consulta que encaminhamos aos diversos diretores é a mesma desde que a série surgiu no antigo DocBlog. Pedimos a cada um que aponte entre 5 e 10 filmes que consideram fundamentais na concepção da sua própria ideia de cinema. Não se trata de meras listas de melhores filmes, mas de obras cruciais na sua formação, remota ou recente. Pedimos filmes de qualquer época, duração, gênero ou procedência. Cada realizador, é claro, está livre para interpretar esse pedido a sua maneira.

As listas resultantes espelham uma imensa diversidade, com ênfases notáveis nos cinemas novos dos anos 1960/70 e em clássicos brasileiros e internacionais. Mas não só. Elas reservam também surpresas, sendo algumas bastante divertidas. Experimente lê-las pensando nas características e nas obras dos respectivos diretores.

A curadoria desta edição é assinada por Marcelo Laffitte, que idealizou o evento junto com Mariana Bezerra a partir das publicações nos meus blogs. A programação reúne cineastas de larga experiência e outros de carreira mais recente, mas igualmente dotados de personalidade autoral consolidada. Nos encontros em que eles estarão em duplas bigeracionais, queremos aprofundar essa observação sobre quem faz e quem inspira o cinema brasileiro.

Em matéria de filmes, a mostra mantém o mesmo perfil de combinar o clássico e o contemporâneo. Com esse passeio por títulos míticos do cinema mundial e do brasileiro, lado a lado com filmes contemporâneos que refletem aquelas influências em menor ou maior grau, procuramos ilustrar o espírito desse projeto.

Os faróis de Marcelo Laffitte

dezembro 5th, 2011 § Deixe um comentário

“As situações extraordinárias e os personagens bizarros me foram apresentados por David Lynch como uma crônica da normalidade, como se o mundo fosse exatamente daquele jeito. Todos os meus trabalhos, desde Vox Populi até Elvis & Madona, têm esse ingrediente”.

Marcelo Laffitte falando sobre Veludo Azul, um dos seus filmes-faróis. A lista completa com seus comentários está no blog Faróis do Cinema.

Marcelo Laffitte é o curador da II Mostra Faróis do Cinema, que começa amanhã (terça) na Caixa Cultural-RJ.

Passeios no bosque da arte

dezembro 4th, 2011 § 6 Comentários

Foto: Rosane Nicolau

Beehive Bunker, de Chris Burden

Dois dias são o tempo mínimo necessário para conhecer razoavelmente Inhotim, misto de jardim botânico, laboratório paisagístico e multigaleria de arte contemporânea a 60 km de Belo Horizonte. Trata-se de uma oportunidade rara, eu diria mesmo no mundo, de se perceber in loco as possibilidades de interação entre arte e natureza. Esse é mesmo um dos objetivos do projeto criado por Bernardo Paz a partir de uma fortuna amealhada na indústria de mineração e do desejo de interferir vigorosamente na forma como se consome a arte contemporânea e a (arte) botânica no Brasil.

(Clique nas fotos para vê-las maiores)

Fotos: Carlos Alberto Mattos e Rosane Nicolau

Folhagem e Galeria Miguel Rio Branco

Para começar, a solenidade dos museus é suavemente desmontada pelo fato de as obras de arte estarem distribuídas num imenso parque. São cerca de 500 obras de 97 artistas de 30 nacionalidades, dispostas ao ar livre ou dentro das 18 galerias espalhadas pelo terreno. A ideia de passeio sobrepõe-se à de maratona cultural, e o visitante se sente mais um flâneur que um consumidor programado de cultura. Entre uma obra e outra, caminhamos por alamedas de palmeiras, orlas de lagos, praças ajardinadas, caminhos de pedra e até trechos de bosque denso em carrinhos especiais.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

O domo geodésico de Matthew Barney e as esferas de Yayoi Kusama

De repente, no meio da vegetação podemos nos deparar com uma espécie de iglu tecnológico, ou uma esfera de vidro semelhante a uma nave espacial, ou um imenso cubo de concreto, ou uma piscina conceitual onde queremos mergulhar o pensamento. A harmonia entre essas estruturas arquitetônicas ou escultóricas e o entorno verde é algo que não pode ser descrito, mas apenas experimentado. A natureza é tratada como arte, ao passo que a arte, cuidadosamente “plantada” em cada jardim ou edificação construída especialmente para a obra, aparece como algo que “nasceu” ali naturalmente.

Algumas obras comentam sem rodeios o diálogo arte-natureza. Como a árvore suspensa em vigas de metal de Giuseppe Penone, ladeada por outras árvores plantadas que no curso do tempo abraçarão e cobrirão a árvore biônica central. Ou as esferas de aço de Yayoi Kusama, que flutuam numa piscina ao sabor do vento, formando uma obra mutante e que, ao refletir a imagem do espectador nas bolas, multiplica caleidoscopicamente o efeito de Narciso. Outro destaque nesse agenciamento da natureza é a instalação Sonic Pavilion, de Doug Aitken. Dentro de uma cúpula num dos pontos mais altos do terreno de Inhotim, podemos ouvir os ruídos do interior da terra através de microfones instalados num buraco de 202 metros de profundidade. As atividades de mineração da região reverberam nas caixas de som do ambiente.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Iglu de Olafur Eliasson e corola de uma palmeira

Quando saí de Belo Horizonte para Inhotim, Jean-Claude Bernardet me fez o alerta: “Aproveite as obras, mas não deixe de apreciar o jardim”. Lembrei-me dele a cada instante de deslumbramento diante, por exemplo, da diversidade das palmeiras – são cerca de 1500 espécies diferentes na maior coleção do mundo no gênero –, das flores e frutos exóticos que a gente quase toma por alguma delicada escultura, dos bancos “naturais” feitos de troncos inteiros embelezados por suas imperfeições. Tudo isso resgata uma dimensão artística da botânica e da jardinagem, muito comum nos jardins japoneses, mas aqui aditivados pela exuberância da flora tropical.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Detalhe de "Invenção da Cor" de Helio Oiticica e um banco do parque

Inhotim é também um curso rápido de arte contemporânea. Textos curtos mas densos introduzem cada obra, pontuando os sentidos buscados pelos artistas e as conexões entre os conceitos envolvidos. Como todo mundo, saí de lá com algumas obras preferidas. Forty Part Motet, de Janet Cardiff, é uma instalação de alto-falantes de pé dispostos em círculo num grande salão, emitindo um canto coral do século 16. Ao nos aproximarmos de cada caixa de som, ouvimos a voz específica de um dos cantores. Além da experiência auditiva única, há a sugestão visual da presença física dos cantores na sala, representados pelos alto-falantes erguidos à altura de um homem. Emocionante.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Esculturas de Edgard de Souza e trabalhadores do parque

Afora algumas obras já citadas, apreciei muito as esculturas humanas de Edgard de Souza, com as cabeças fundidas umas às outras ou enterradas no chão; as grandes vigas de ferro cravadas por Chris Burden no alto de uma elevação, compondo uma espécie de Pollock pesado e tridimensional; a grande sala densamente ocupada por Thomas Hirschhorn com ferramentas, livros de filosofia e fotos de corpos mutilados, tudo amordaçado com um aluvião de fita crepe.

Fotos: Carlos Alberto Mattos

Troncos de árvores e as vigas de "Beam Drop", de Chris Burden

E, bem, há os clássicos pelos quais já chegamos salivando em Inhotim. Lá estão cinco Cosmococas para entrar, brincar, banhar-se ou relaxar ao som de Jimi Hendrix ou John Cage. Lá está o quarto vermelho do Cildo Meireles, com sua sala adjacente por onde caminhamos em plena escuridão rumo àquela pia misteriosa de onde jorra “sangue”. Como não se deixar ficar uma boa hora no estupendo Pavilhão Miguel Rio Branco degustando as fotos-choque do bairro do Maciel, em Salvador, e o doc-ensaio Nada levarei quando morrer, Aqueles que me devem cobrarei no Inferno, entre muitas outras obras do artista em várias mídias?

Passeando por Inhotim, a gente pouco se dá conta de que o complexo não para de crescer. Obras para receber mais obras. Uma Grande Galeria está sendo construída, assim como estufas e laboratórios para as pesquisas de botânica. Muitas obras de arte já passaram pelas galerias e hoje pertencem à reserva técnica do instituto ou já foram desmontadas. Outras virão para se juntar às permanentes, numa dinâmica que não transparece na serena estabilidade do lugar. Tudo é relativamente novo, mas parece ter estado sempre ali – e não tem data para sair. Com certeza, uma das maravilhas do Brasil.

Os anos loucos da Cahiers

dezembro 1st, 2011 § Deixe um comentário

Numa especialíssima sessão na quarta-feira, o Fórum Doc BH apresentou – provavelmente pela primeira vez fora da França – o filme À Voir Absolument (Si Possible) – Dix Années aux Cahiers du Cinéma, 1963-1973. Cheirando ainda à mesa de edição, ele aparece na internet como lançamento de 2012. O privilégio dos mineiros veio por conta da relação que o Fórum mantém com Jean-Louis Comolli, um dos autores do filme junto com Jean Narboni e Ginette Lavigne. O próprio Comolli ofereceu a pré-estreia.

Como cinema, não há qualquer pretensão. Comolli e Narboni, redatores-chefes da Cahiers no período citado, limitam-se a conversar (mais ouvir, na verdade) com ex-colegas da redação sobre as decisões que levaram a essa ou aquela escolha editorial. A efervescência daqueles anos fazia com que cinema e ideologia se cruzassem constantemente. Foi o tempo da eclosão dos cinemas novos, da revalorização do cinema hollywoodiano pelos franceses, de Maio de 68, da fase de alinhamento da revista ao Partido Comunista e da adesão ao maoismo, que chegou a expelir as fotos das páginas da Cahiers.

Eles conversam desconfortavelmente numa sala de cinema, reproduzindo um filme de arquivo que flagrava os redatores jovens em situação semelhante. Às vezes, os venerandos atuais contemplam diretamente as imagens de outrora (como Narboni e Comolli na foto acima), mas não há grandes alusões à contemporaneidade. Trata-se de um projeto memorialístico de grupo, onde chega-se a lavar alguma roupa suja, como Jacques Aumont confrontando os que o demitiram no passado.

Curiosamente, quem tem uma das participações mais marcantes é Sylvie Pierre, a namorada francesa do cinema brasileiro. Quando entrou na Cahiers, ainda não mordida pela mosca da cinefilia, Sylvie era responsável pela fototeca. Depois passou a redatora e entrou para a “família”. No filme, porém, ela alterna louvores e questionamentos. Recorda sem rodeios a sensação de “terror” que dominava as reuniões da redação nos períodos mais politizados. O terror de parecer alienado ou ignorante. “Só me senti à vontade para apreciar Lelouch depois de ir para o Brasil”, exemplifica. Sylvie cita diversas vezes sua experiência brasileira, usando inclusive a expressão “fazer a cabeça” e dando o crédito da procedência. Não sei até que ponto a convivência de Sylvie com Glauber Rocha e com as propostas de um cinema revolucionário teriam criado um diferencial no seu olhar em relação ao dos colegas que se mantiveram ligados ao núcleo parisiense. Perguntei isso a Jean-Claude Bernardet após a sessão, mas ele limitou-se a estranhar que Sylvie tenha no filme um papel bem mais destacado que o que sempre teve na história da Cahiers.

Entre os episódios relembrados por críticos como Pascal Kané, Pascal Bonitzer, Jacques Bontemps e Bernard Eisenschitz, estão a mobilização da revista contra a censura a A Religiosa  (filme assinado por Jacques Rivette, diretor da revista), a campanha em defesa de Henri Langlois e a mostra de filmes independentes de que participou A Falecida, de Leon Hirszman. As fronteiras entre crítica e teoria também são debatidas, contando com exemplos de trechos de textos lidos em off e imagens de capas e páginas da revista.

O título do filme provém da recomendação dos críticos para que determinado filme fora de cartaz fosse visto de qualquer maneira, mas com a ressalva “se possível”, em função da dificuldade de se obter cópia. Era a expressão de uma época em que a Cahiers realmente ditava os caminhos da cinefilia mundial. O doc se encerra com um letreiro informando que em 1973 a revista passou a ser editada por Serge Daney e Serge Toubiana, e sucessivamente por outros nomes até pertencer atualmente a um grande grupo editorial, Phaidon. Nas entrelinhas, lemos que a Cahiers nunca mais foi a mesma daqueles anos loucos. Oui, absolument.

Ladrões e Bicicletas

novembro 30th, 2011 § 1 Comentário

Não sei se tem a ver com a minha chegada, mas ontem (terça) a chuva se foi e o sol se abriu sobre Belo Horizonte. No Palácio das Artes, a turma boa do Fórum Doc BH ocupava o Cinema Humberto Mauro e o café adjacente. Uma pena que a livraria Letras e Artes esteja desmobilizada. Mas bem em frente, no Conservatório de Música, é possível encontrar as atraentes edições da UFMG com 20% de desconto. Nada mau.

No cinema, tive dois programas principais ontem. Ao ver Bicicletas de Nhanderu, deu até pra entender por que houve certa rejeição dos índios guaranis ao filme, mesmo tendo sido feito por dois deles, Sandro Ariel Ortega e Patrícia Ferreira. O assunto é a perda da espiritualidade por parte dos Mbya-Guarany. Enquanto um líder da tribo coordena a construção de uma “casa de reza”, vemos um painel de comportamentos nada espiritualizados entre os índios: festas, jogo, cerveja, conversas sobre ganhar dinheiro com os filmes, crianças imitando Michael Jackson e pedindo restos de pão em casas de brancos.

O título do filme se refere ao ser humano, que para os Mbya-Guaranys seriam meros veículos dos deuses. Há certo realismo da parte do líder espiritual ao reconhecer que a pureza absoluta é impossível num mundo feito de imperfeições. O cotidiano da aldeia Koenju, no Rio Grande do Sul, revela essa imperfeição numa escala raramente vista por filmes realizados por índios. Mesmo para os padrões não conformistas da Vídeo nas Aldeias, Bicicletas éuma ousada investigação para além dos estereótipos dos indígenas simpáticos, modelares e ciosos de sua herança cultural.

A outra sessão memorável da terça-feira me trouxe de volta a alegria de quando vi pela primeira vez Ladrões de Cinema, de Fernando Coni Campos, nos anos 1970. Contando a história de um grupo de favelados que rouba o equipamento de cinema de uma equipe estrangeira e resolve fazer a sua própria versão de Tiradentes, o filme tira um sarro hilariante do cinema dominante no Brasil à época (1977). A onda do filme histórico-literário, estimulado pela ditadura militar e patrocinado pela Embrafilme, sofre aqui uma espécie de estupro. A estética popular se apossa dos meios de produção, transforma a História oficial em carnaval e a favela em cenário épico. A operação é magistralmente levada a cabo num modelo de espetáculo que bebe nas chanchadas, nos programas humorísticos de TV e nos desfiles das escolas de samba. A antropofagia se faz não somente sobre o estrangeiro, mas também sobre as formas de expressão nacionais, inclusive com Grande Otelo repetindo um pouco seu papel em Rio Zona Norte, mas agora tentando vender um argumento cinematográfico.

Após a sessão, aplaudida com força e gritos, Jean-Claude Bernardet praticamente saiu da tela – do papel do francês Claude Rouch, que fornece negativos para os cineastas-favelados – para comentar o filme diante da plateia. Ele fez sua habitual leitura política, chamando atenção para o “limite ideológico” que levou Coni e o roteirista Sergio Sanz a, de um lado, fazerem os favelados absorver a cultura intelectual dos livros de pesquisa e, de outro, pontuar alguns questionamentos sobre o papel de Tiradentes, um branco rico e de patente, como herói supremo da História do Brasil.

Em tempos de revisão da chanchada e tantas discussões sobre a fusão entre ficção e documentário, cultura de elite e cultura de periferia, um relançamento de Ladrões de Cinema seria uma tacada de mestre.

Ontem foi exibido também Santos Dumont: Pré-Cineasta?, de Carlos Adriano, já bastante comentado aqui no blog. O “mineiro pra lá de bom” deu o recado em sua terra natal. Adriano está acertando direitos de músicas e imagens para finalmente lançar seu premiado ensaio nos cinemas.

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