Paraná cinema
maio 26th, 2012 § Deixe um comentário
Curitiba tem uma população com alto poder aquisitivo, uma vida cultural razoavelmente intensa, bons museus, bons restaurantes, o maior festival de teatro do Brasil, uma cinemateca atuante… Mas não um festival de cinema à altura da cidade. Nem mesmo o claudicante Festival de Cinema, Vídeo e DCine, que movimentou os cinéfilos durante 10 anos, acontece mais desde 2007.
Felizmente, a carência feriu os brios de três jovens produtores culturais, que puseram de pé o projeto do Olhar de Cinema – Festival Internacional de Curitiba, cuja primeira edição começa na terça-feira. Antonio Júnior, Marisa Merlo e o cineasta Aly Muritiba (foto à direita) levantaram patrocínios da Volvo e de mais algumas empresas para levar 72 filmes, debates e oficinas ao Espaço Itaú de Cinema, à Cinemateca de Curitiba, ao Museu Oscar Niemeyer e ao Sesc Paço da Liberdade. Tudo com entrada franca.
Convidado pelo evento, vou acompanhar a estreia do Olhar de Cinema a partir de quarta-feira. A programação dá a partida na noite de terça com Mr. Sganzerla – Os Signos da Luz, de Joel Pizzini (em cartaz no Rio, em sessões diárias às 18h no Arteplex). Outros quitutes nacionais chegarão a Curitiba nos dias subsequentes, como Sudoeste, Girimunho, As Hipermulheres, Estradeiros e Olhe para Mim de Novo. É claro que o festival servirá também de vitrine para talentos locais, como Guto Pasko, que vai exibir seu longa Iván – De Volta Para O Passado, viagem de um velho imigrante à Ucrânia natal (leia meu post sobre o filme quando ainda em processo). Heloisa Passos e Rafael Urban também têm curtas novos na mostra Mirada Paranaense.
Entre os 24 longas internacionais, há filmes de procedências tão diversas quanto Islândia, Bulgária, Iraque e Colômbia. Portugal, Alemanha e França são, porém, as maiores representações depois do Brasil. Há muitos documentários entre eles, o que sem dúvida vai atrair meu “olhar de cinema”. O cardápio se completa com uma pequena mostra de videoarte (termo que Curitiba precisa superar rapidamente) e uma retrospectiva de cinco longas de John Cassavetes.
Os realizadores brasileiros que participam das mostras competitivas Olhares Brasil e Janela Internacional vão debater seus filmes na manhã seguinte aos dias de sua exibição. Durante cinco dias, um seminário sobre “Realização Criativa” vai reunir diretores, produtores, exibidores e pesquisadores. Três oficinas serão ministradas por Evaldo Mocarzel (documentário), Hernani Heffner (linguagem cinematográfica) e Fernando Marés (roteiro). Andrea Tonacci vai integrar o júri da Janela Internacional. Eu participarei como convidado do júri da Abraccine – Associação Brasileira de Críticos de Cinema.
Saiba tudo no site do festival. Repare a maneira inteligente e prática de consultar a programação por dia, sala e mostra. A partir de quinta-feira, confira minhas impressões sobre os filmes e o evento.
Imagens do corpo
maio 24th, 2012 § 2 Comentários
Nesta sexta-feira, dia 25, às 20 horas, vou apresentar uma sessão de curtas no Cine Lage, projeto mensal do Parque Lage, no Rio. Escolhi três filmes que colocam em evidência o corpo humano de maneiras muito especiais. A sessão chama-se Imagens do Corpo.
Primeiro, o rosto. Um rosto em particular, o da mítica atriz Glauce Rocha (1930-1971), amorosamente devassado por Joel Pizzini em Glauces – Estudo de um Rosto, filme de 2001. Costumo dizer que Glauces é uma espécie de nova atuação póstuma de Glauce, uma vez que Joel sampleia imagens e sons de diversos filmes e cria uma coisa inédita. Ora Glauce contracena com outros atores, ora consigo mesma. Muitas cenas saíram dos copiões de Terra em Transe, e vai ser interessante ver as locações do Parque Lage exibidas no próprio pátio da piscina. Em Glauces, o rosto da atriz é uma paisagem dramática e erótica à disposição do talento de Pizzini. O close de rosto é um fetiche absoluto da linguagem cinematográfica, com estágios importantes em Dreyer (A Paixão de Joana d’Arc), Bergman, Cassavetes e também no star system hollywoodiano, na linguagem da TV, nos talk-shows etc.
Na sequência, uma espécie de segundo rosto: as mãos. Senhoras dos gestos, das reações espontâneas, da passagem do pensamento à ação. No documentário Mãos de Outubro, Vitor Souza Lima capturou os muitos ofícios e participações na festa do Círio de Nazaré somente através das mãos e das vozes (em off) das pessoas. Materialidade e espiritualidade se encontram naqueles relatos e naquelas ações manuais carregadas de simbologia. Robert Bresson explorou como poucos a expressão das mãos em filmes como Pickpocket, Um Condenado à Morte Escapou e Mouchette. Mãos de Outubro chama atenção para essa parte do corpo como marco de identidade e aspecto de personalidade do ser humano.
Por fim, o corpo inteiro mobiizado pela dança em Arquitetura do Corpo, de Marcos Pimentel. Aqui temos um extracampo da dança como espetáculo. A atenção do curta está no esforço, na tensão e nas expectativas dos bailarinos. São músculos retesados, peles cobertas de suor, pés marcados pelas garras das sapatilhas, respiração ofegante. A dança antes de ser propriamente dança, no cansaço das aulas e dos ensaios, nos movimentos domésticos. Quando vemos uma obra de puro deleite como Pina, nem sempre pensamos na agonia e no êxtase que precedem uma apresentação. Arquitetura do Corpo nos coloca em sintonia com isso. E enfatiza o cinema como lugar da mutilação corporal através dos cortes e das escolhas de enquadramento.
Os três filmes, muito diferentes entre si, se assemelham na proposta de lançar ao corpo um olhar nada indiferente. E são todos trabalhos de grande empenho estético. A sessão de sexta-feira deverá contar com a presença de Joel Pizzini e Vitor Souza Lima.
Levem, vocês também, seus corpos até lá.
Atualidades de Capovilla
maio 22nd, 2012 § Deixe um comentário
Aqui vão as novidades no trabalho de mais um cineasta biografado por mim (Maurice Capovilla – A Imagem Crítica).
Capô concluiu há pouco, junto à montadora Marília Alvim, a edição de imagens do seu próximo longa-metragem, Nervos de Aço. Para finalizar o filme, ele depende agora de captar novos recursos. A coprodução do Canal Brasil e da produtora Saturna, com patrocínio da Petrobras e do Oi Futuro, é um misto de musical e drama romântico em cujo coração pulsam as canções de Lupicínio Rodrigues. O universo de traições, dores de cotovelo e apelos de reconciliação das músicas de Lupi fazem o roteiro, que vai e vem entre os ensaios de um show e a “realidade” dos personagens.
Lupicínio é uma velha paixão de Capô, reavivada há três anos quando ele viu o show Caixa de Ódio, de Arrigo Barnabé, em São Paulo. Para quem quiser conferir, o show saiu em DVD e é exibido com frequência pelo Canal Brasil. Foi ali que o cineasta decidiu chamar Arrigo para ser o astro de seu filme. Ele vive um compositor em constantes rusgas amorosas com a cantora (a ótima Ana Paula Lonardi, na foto acima) durante a preparação de um show. É um filme de músicos, tanto quanto de atores. Matias Capovilla, filho do diretor e maestro, fez a direção musical e montou a banda quer toca à vera no filme.
De um primeiro corte que vi, ainda sem tratamento das imagens, mixagem do som etc, saí com a impressão de que este será o filme mais popular da carreira de Capovilla. Musicalmente, é da melhor qualidade. Arrigo está impagável como o amante à beira de um triângulo amoroso. A dramaticidade exacerbada de Lupi, tratada no limite entre a convicção e a paródia, gera momentos muito divertidos. Em meados de julho deve ficar pronta a primeira cópia digital. Capô quer inscrevê-lo em Gramado e no Festival de Havana.
Quando não está cuidando de Nervos de Aço, ele está na capital do Acre, onde coordena o núcleo audiovisual da Usina de Arte João Donato desde 2004. Nesse projeto inovador do governo acreano, Capovilla ajuda a promover a integração das áreas de cinema, teatro, música e artes visuais. Nos próximos meses, vai levar gente como Hernani Heffner, Amir Haddad e os integrantes de um núcleo de animação de Campinas para oficinas em Rio Branco. É o seu lado de professor (ex-UNB, EICTV-Cuba, Instituto Dragão do Mar), que nunca deixou de se manifestar em paralelo ao de realizador.
Mais adiante, Maurice Capovilla planeja concretizar o projeto de uma série de TV de corte antropológico, voltada para o lugar da mulher na família, no esporte, na política, no trabalho etc. Esse olhar sobre a mulher brasileira vai ecoar, de certa forma, a série Os Brasileiros – Retrato Falado de um Povo, que o mesmo Capô dirigiu nos anos 1980 para a TV Manchete. Dessa vez, as mulheres traiçoeiras de Lupicínio Rodrigues devem ficar fora do quadro.
Pílulas na rede
maio 21st, 2012 § Deixe um comentário
Mais comentários postados recentemente nas redes sociais sobre filmes e peças:
Além de seu excelente trabalho como redator da Filme Cultura (aguardem o número 56, em junho), Luís Alberto Rocha Melo me deu outra alegria com seu novo filme, NENHUMA FÓRMULA PARA A CONTEMPORÂNEA VISÃO DO MUNDO. Paródia de um processo de contratação artística envolvendo uma escritora em clima de separação amorosa, um “gangster cultural” paulista e um diretor teatral polonês com fome de sexo, a comédia tem insuspeitados sabores sganzerlianos e godardianos. Uma atriz fenomenal, Anna Karinne Ballalai, segura a peteca de improvisações deliciosas, coadjuvada por atuações igualmene impagáveis de Alessandro Gamo e Roman Stulbach, este estreando como ator. A trilha sonora é uma atração à parte, de Debussy a “I’m singing in the rain” (ou melhor “Assim eu me enganei”). A brincadeira inteligente tem potencial para extrapolar o “filme de turma para a turma”.
Terra bruta, ruínas, morte precoce, uma cidade fantasma – MÃE E FILHA não tem refresco do primeiro ao último plano. Até aí, tudo bem. Sokurov e Tarkovsky também passaram por essas plagas. O problema do filme de Petrus Cariry, a meu ver, é que não consegue transcender essa cova em que se enterra deliberadamente. Tudo é encenado com tanto peso, tanta intencionalidade, tanta convicção de que se está mostrando algo de muito sério e grave, que acabou me aborrecendo apesar das imagens cuidadas e do som intrigante. Um filme que se esgota na busca da solenidade, da “expressividade” plástica a todo custo e de muletas simbólicas como a Ofélia de Hamlet e os “4 vaqueiros do Apocalipse”. Não vi argumento para sustentar tanta pretensão.
O QUE EU MAIS DESEJO é um Kore-Eda menor. Flerta com as facilidades do cinema infantil japonês, como fazia Kitano em KIKUJIRU. Mas tem um fundo moral interessante: não há caminho mágico para realizarmos nossos desejos. O que conseguimos de fato é somente correr atrás deles. Ou então as coincidências, os acasos, os simulacros (biscoito com sabor de carpaccio de cavalo). O resto é conformar-se com o que não se realiza de jeito nenhum e seguir vivendo. Depois de tanto doce e tanta criança simpática, a mensagem vem dura, realista.
DE VERDADE, a peça adaptada do romance de Sandór Marai em cartaz agora no Planetário, é uma experiência interessante entre o teatro convencional e o “livro encenado”. Se o texto é excelente, a transposição de Susana Schild e Isabel Muniz sabe tirar partido do narrador múltiplo e do jogo de versões com que as cenas desse casamento são apresentadas. Guilherme Piva dá um show de nuança e relevo dramático ao marido burguês que se relaciona com mulheres de outras classes.
AMOR E DOR: Não amei nem me doeu. Fiquei quase sempre indiferente à história de “amor adesivo” (cfe. resenha de Luiz Fernando Gallego) entre a universitária chinesa e o trabalhador braçal francês numa Paris coalhada de imigrantes. O filme monta paisagens transculturais à moda de Wong Kar Wai, menos o glamour. Lembra algo também do último Salvá, NA CARNE E NA ALMA, embora não vá tão fundo na perversão romântica. Um belo momento: o desespero de Hua quando cai a ficha de que está (novamente) apaixonada. Ali doeu um pouquinho.
Ontem eu vi A PRIMEIRA VISTA, peça em cartaz no Teatro Poeira. Não tem a mesma potência de IN ON IT, do mesmo autor, Daniel MacIvor. Ali pelo meio o material começa a perder força e rodar no vazio. Mas como os textos de MacIvor dependem MUITO da direção e dos atores, este não poderia estar mais bem servido. Drica Moraes e Mariana Lima dão um show de ritmo, graça e compreensão mútua e do texto. A direção de Enrique Diaz é sintonizadíssima com o contemporâneo, atenta a cada inflexão de voz ou de corpo. E é tudo isso que segura o interesse até o final. Com uma emoção a mais: a felicidade de ver Drica Moraes de volta, sã e linda. E hilariante.
O HOMEM QUE NÃO DORMIA não é filme para todos os gostos. Foi para o meu, ainda bem. É preciso gostar de um certo mau-gosto, no bom sentido. É preciso gostar de uma Bahia profunda e peluda, safada e mística. É preciso gostar de “Ó Paí Ó” misturado com Georges Bataille. Tem que apreciar Monteiro Lobato virado de cabeça pra baixo com uma faísca saindo da bunda. Edgar Navarro faz uma bagunça da porra no roteiro, mas como filma o feladaputa, valha-me deus! Tudo é surpreendente, vibrante e bonito no filme: locações, direção de arte, fotografia, elenco, montagem e a direção ao mesmo tempo expansiva e precisa de Navarro. Pode ter lá seus excessos, mas cada um deles tem a medida certa, você entende? Pois vá correndo ver, não ligue muito para a continuidade da narrativa, que é muito louca mesmo. Deixe-se perder na força e na boniteza de cada cena. Ali ninguém dorme. Nem o Bonequinho. Uma coisa pelo menos não soa completamente original em O HOMEM QUE NÃO DORMIA: a atribuição por engano do nome “Me Esqueci” a um personagem e a uma cidade já acontecia em BRASIL ANO 2000, de Walter Lima Jr. Naquele filme, as pessoas também gritavam “Me Esqueci!!!” no ermo da locação. Mas, vá lá, como BA2000 está fora de circulação há tanto tempo, acaba soando original de novo.
Graças!
maio 20th, 2012 § 6 Comentários
Se eu fosse uma pessoa célebre, um Caetano ou um Saramago, começaria hoje mesmo uma campanha contra o “muito obrigado”. Pensando bem, essa é uma das expressões mais estapafúrdias e ultrapassadas da língua portuguesa. Ora, alguém lhe faz um favor ou lhe dá um presente e você, à guisa de agradecimento, diz que se sente obrigado a retribuir, ou que está recebendo aquilo por uma obrigação, ou seja lá que etimologia esteja por trás disso.
A explicação mais corrente para a origem do “obrigado” liga-se ao latim medieval obligatu. “Fico-lhe muito obrigado por esse favor ou presente”, ou seja, “tenho a obrigação de lhe retribuir no futuro”. É algo imposto pela lei da boa educação e da cortesia, em lugar de sugerir espontaneidade e simples reconhecimento. A expressão foi sendo encurtada até chegar ao “obrigado” ou “obrigada”. Mas quem considera esse sentido quando se dirige ao porteiro que lhe ajuda com as sacolas ou ao amigo que lhe dá uma caixa de chocolates? Fica apenas o termo vazio, automático, pomposo. Praticamente sem significado.
Invejo as línguas em que se agradece dizendo simplesmente que se está muito grato. Isso também vem do latim. Línguas latinas usam “gracias” ou “grazie”. Anglo-saxônicas aplicam o mesmo sentido: “thank”, “danke”. Ou seja, quando eles são ajudados na rua ou ganham um livro, dão graças ao outro, em vez de se sentir obrigados. A graça é um campo semântico muito mais conveniente para quem se sente agradecido.
É quixotesco, eu sei, mas de agora em diante pretendo me acostumar a dizer “graças” a quem me for útil ou amoroso. Graças a essas pessoas, nossa vida fica melhor. Sem débitos para o futuro, sem obrigação de recompensa.
A voz humana
maio 17th, 2012 § Deixe um comentário
Pierre Perrault começou a fazer documentários no rádio, nos anos 1950. Colhia as falas de trabalhadores e gente comum para seu programa na Radio-Canada. Deixou-se seduzir especialmente pelas histórias dos pescadores, marinheiros e caçadores que viviam às margens do rio St. Laurent. Alguns desses personagens seriam levados ao cinema quando surgiram as câmeras leves e o som direto, no início dos anos 60. Pour la Suite du Monde (Para que o Mundo Prossiga), realizado por Perrault e Michel Brault em 1962, ia se tornar um clássico, o primeiro longa do cinema direto. Ele é um dos carros-chefe da Mostra Pierre Perrault, que chega ao Rio nesta sexta, 18, no Instituto Moreira Salles.
Com 31 documentários do diretor, produzidos entre 1958 e 1994, e mais três filmes sobre ele, a mostra vai percorrer seis capitais brasileiras apresentando o conjunto de um trabalho pouco conhecido por aqui. Perrault esteve no Rio, na Mostra do Filme Etnográfico, em 1996, quando se encontrou com Jean Rouch (na foto acima, PP, JR e Patrícia Monte-Mór). Mas quantos de nós já viram sua famosa trilogia sobre os habitantes da Île-aux-Coudres ou os filmes que ajudaram a construir uma ideia de cinema tipicamente quebequense?
Por se basearem fortemente na fala e nas tradições populares, os filmes de Pierre Perrault inspiraram um certo nacionalismo no Québec, espremido num país majoritariamente anglófono. Mas seu enfoque vai além do registro preservacionista e tangencia uma poética do real. Em Pour la Suite du Monde, por exemplo, a fascinação dos pescadores pelos marsouins (belugas, ou pequenas baleias brancas) é tão importante quanto o projeto de capturá-las. A pesca da beluga torna-se mais uma tradição a ser conservada no vilarejo muito católico, assim como as festas da Micarena (Meia-Quaresma) ou a devoção às “almas do purgatório”.
Por pouco essa opra-prima não existiria dessa forma. Perrault queria representar os habitantes da Île-aux-Coudres com atores profissionais. Foi o cineasta Fernand Dansereau quem apresentou Perrault a Michel Brault, levando o projeto para a seara então nascente do documentário de observação.
Na história do cinema documental, Pour la Suite du Monde representa uma revolução na ideia de reencenação. Se Robert Flaherty, em Nanook, o Esquimó e O Homem de Aran, dissimulou o fato de que estava encenando velhas práticas de pesca já em desuso, no filme de Perrault essa retomada é o próprio assunto do filme. Os ilhéus discutem como farão para reavivar um método abandonado havia quase 50 anos. Explicitamente, é o filme que os leva a se lançar mais uma vez à captura da beluga por meio de um cercado de varas no meio das águas. A câmera de Michel Brault (o cinegrafista de Crônica de um Verão) acompanha todo o processo de convencer os mais velhos, montar o aparato e mobilizar a vila para o grande momento. E por fim transportar uma beluga viva até um aquário em Nova York. Não há, portanto, encenação, mas uma ação deliberada de voltar-se para o passado a fim de manter viva uma tradição.
O prazer de ver o filme se espalha pela visão idílica da “Ilha das Avelaneiras”, a graça peculiar dos personagens e seu dialeto, a sensibilidade da câmera em seguir os passos e gestos das pessoas, a sutil passagem do encenado para o espontaneamente vivido.
Já no filme seguinte, La Règne du Jour (O Reino do Dia), Perrault adota um procedimento mais, digamos, rouchiano. Sete anos depois do filme anterior, ele volta à Île-aux-Coudres e convida o velho Alexis Tremblay, sua mulher e o filho para uma viagem à Bretanha (França), a terra de seus antepassados. O filme foi montado com as filmagens da visita, que durou um mês, e os comentários do trio de volta ao Québec. O que eles fazem é cotejar os modos de vida rural dos dois países, em busca de continuidades e contrastes entre a mãe-França e o “filho abandonado”, o Canadá francófono. O tema do filme é a busca de uma matriz étnica, assim como a ilustração de uma dialética entre tradição e modernidade.
La Règne du Jour testemunha uma evolução do cinema de Perrault na direção de um estilo mais solto e uma montagem mais liberta do tempo real, inspirados talvez na descontração dos personagens em suas raríssimas férias turísticas. A família Tremblay, com suas discussões ásperas entre pai e filho e o carinho rústico entre os velhos cônjuges, forma um conjunto de personagens inesquecíveis que atravessam esses dois filmes.
Desconheço o restante da obra de Pierre Perrault e como ele levou adiante o pioneirismo dos canadenses no cinema direto. Sei, porém, que se manteve fiel ao procedimento de propor uma atividade ou uma viagem a seus personagens para assim revelá-los em plena ação.
Cerca de 20 filmes dele podem ser vistos na íntegra no site do Office National du Film du Canada, mas com a desvantagem de estarem quase todos sem legendas – e não adianta muito saber francês para decifrar o québécois predominante. Daí a importância dessa mostra subtitulada em português no Instituto Moreira Salles. Nos dias 24 a 26, no mesmo local, um colóquio sobre a obra de Perrault reunirá 18 estudiosos do documentário, incluindo Michel Marie, Phillipe Dubois, Marc-Henri Piault, Silvio Da-Rin e Fernão Ramos.
Confira aqui a programação e outras informações sobre o evento.
Agenda brasileira em Cannes
maio 16th, 2012 § Deixe um comentário
Começa hoje o Festival de Cannes. Aqui está, em primeira mão, o anúncio que o Governo do Estado do Rio vai publicar nas edições especiais das revistas Variety, Film France, Screen e Hollywood Reporter. Logo abaixo, veja a agenda oficial da homenagem de Cannes ao Brasil e das atividades de promoção da Secretaria de Estado da Cultura do RJ.
Clique na imagem para ver em tamanho maior:
A agenda
DIA 18/05, SEXTA-FEIRA
19h às 21h - Churrasco do Cinema do Brasil. Local: Plage Le Goéland – Boulevard de la Croisette, s/n.
DIA 19/05, SÁBADO
16h às 18h - Evento de Networking Cinema do Brasil – Happy Hour 1. Local: Stand Cinema do Brasil.
DIA 21/05, DOMINGO
16h30 – Reuniao Filme Rio – Film London – com Anna Yasmin Highet, Ministro de Cultura da Inglaterra, Ministra da Cultura Anna de Holanda, e Secretária do Audiovisual Ana Paula Santana.
17hs- Sessão filme Xica da Silva, de Cacá Diegues – Homenagem ao Brasil no Cannes Classic – Local: Salle Bunuel – Presença de Cacá Diegues confirmada.
20h- Jantar oficial Homenagem Cannes ao Brasil – Local: Hotel Carlton
20h30– Festa “Incredible India” – Governo da India em Cannes – Local: Vegaluna Plage, La Crosseite.
DIA 22/05, SEGUNDA-FEIRA
11hs às 13hs - Evento de Networking – Índia –Brasil. Local: Pavilhão da Índia. N. 111, International Village, Riviera. Presença confirmadas do Ministro de Information e Broadcasting da India, da Diretora do National Film Development Corporation da India e da Secretária de Estado de Cultura Adriana Rattes e equipe SEC confirmadas.
17h30 – Sessão Homenagem ao Brasil – Filme Cabra Marcado para Morrer, de Eduardo Coutinho – Local: Salle Bunuel.
23h30 – Festa oficial Homenagem Cannes ao Brasil – Local: Espace Agora (Village International)
DIA 23/05, TERÇA-FEIRA
09 às 11hs - Café da manhã Producers Network –Spotlight Rio de Janeiro com os 05 selecionados no edital SEC. Abertura evento pela Secretária Adriana Rattes. Local: La Plage des Palmes (Village International- Riviera).
16 às 17h – Debate Short Film Corner com o tema “Do Curta ao Longa“, com a participação de Nelson Pereira dos Santos, Cacá Diegues e Juliana Rojas, e mediado por Ailton Franco Jr, diretor do Curta Cinema.
17hs às 18hs- Happy Hour do Brasil no Short Film Corner.
19h45 – Sessão Homenagem ao Brasil – Filme A música segundo Tom Jobim,de Nelson Pereira dos Santos – Local: Salle du 60e (montée des marches pour ce film). Presença de Nelson Pereira dos Santos confirmada.
Mais África
maio 15th, 2012 § Deixe um comentário
Por causa de meu post anterior, sobre a mostra África Hoje, fiquei sabendo de outro festival com filmes africanos que está em cartaz esta semana, até sexta-feira. É no Ceará onde está rolando o FestFilmes - Festival de Audiovisual Luso-Afro-Brasileiro, em Fortaleza e mais 24 cidades daquele estado.
Não costumo transcrever releases aqui no blog, mas vai uma exceção como adendo ao outro post:
O Ceará se transforma, esse ano, em polo catalizador e irradiador do intercâmbio cultural, social e econômico dos países de língua portuguesa, com a realização do FestFilmes – Festival do Audiovisual Luso Afro Brasileiro, que ocupa a capital Fortaleza e outras 24 cidades cearenses. Contando com filmes de jovens cineastas de países de língua portuguesa (Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste), o festival exibe 45 filmes de curta-metragem em três mostras competitivas – regional, nacional e internacional – entre 13 e 18 de maio. Os vencedores das mostras serão escolhidos por voto popular durante as sessões, e as premiações somam R$ 47 mil em dinheiro.
Em sua primeira edição, o festival também homenageia o documentarista Silvio Tendler em mostra paralela, além de trazer para o público brasileiro os filmes do Festival Internacional de Curtas-Metragens de Évora (FIKE), em Portugal. Dentre as muitas atividades promovidas pelo festival, destacam-se também as oficinas de cinema oferecidas pelo músico David Tygel e pelo roteirista Di Moretti. Confirmando a crescente importância do Ceará no cinema brasileiro hoje, o FestFilmes é uma boa oportunidade para se conhecer os mais novos nomes do nosso cinema – e de nossos irmãos lusófonos.
Para além de carvão e hidrelétricas
maio 14th, 2012 § Deixe um comentário
Dos cinco continentes, a África e a Oceania são os que menos conhecemos através do cinema. Se a Oceania talvez não faça tanta falta, da África seria muito bom se tivéssemos um fluxo regular de filmes para nos conectar a uma de nossas matrizes étnicas. A mostra África Hoje, que começa nesta terça-feira na Caixa Cultural Rio – e dia 29 na de São Paulo – tenta preencher um pouco desse déficit.
Com curadoria de Luciana Hees e do moçambicano Pedro Pimenta, diretor do Dockanema, um dos mais importantes festivais de documentários da África, a mostra traz 24 docs de longa e média metragem. Eles tratam da realidade de diversos países, tendo sido dirigidos tanto por realizadores africanos quanto por estrangeiros. Pimenta resume assim o objetivo da mostra: “Pareceu-nos relevante transmitir ao irmão brasileiro que o irmão africano é diverso, complexo, rico também e que as realidades das gentes africanas devem ser integradas na relação, que tem que passar do carvão e das hidroelétricas para uma dimensão mais abrangente que só o conhecimento da cultura do outro irá permitir”.
Alguns dos filmes programados já tiveram passagem rápida pelo Brasil em mostras e festivais. É o caso do já clássico Oxalá Cresçam Pitangas, de Kiluange Liberdade e do escritor Ondjaki (2006), em que dez habitantes de Luanda, Angola, fornecem sua visão da cidade, suas aspirações e desilusões. Ou o delicioso Dolce Vita Africana, de Cosima Spender (2008), sobre um estúdio fotográfico que registrava a elite do Mali nos anos 1960 e 70 (leia aqui minha resenha). Ou ainda Neither Allah, Nor Master, de Nadia El Fani (2011), investigação ateísta dos tabus muçulmanos na Tunísia em plena era das revoluções árabes.
Da África do Sul já tive a oportunidade de conferir dois filmes: Behind the Rainbow, dirigido pela egípcia Jihan El-Tahri, e Sea Point Days, de François Vester. Behind the Rainbow, ao que consta, vai passar na versão de média metragem. Assisti ao longa, que faz um detalhado balanço da transição do Congresso Nacional Africano de movimento de liberação (que tirou o país do apartheid) a partido hegemônico no poder desde 1994. A partir da relação de cumplicidade e posterior rivalidade entre os dois últimos presidentes do país, Thabo Mbeki e Jacob Zuma, o filme analisa a eventual transformação de antigos heróis românticos em políticos controvertidos, com acusações de corrupção e até de estupro pesando sobre as costas. Um painel denso de sugestões shakespeareanas, baseado na riqueza do material de arquivo e no privilégio de ouvir diretamente os protagonistas.
Sea Point Days é um retrato impressionista de um bairro chique de Cape Town, outrora restrito aos brancos e hoje laboratório dos ideais de integração racial na África do Sul. Com poucas falas e muita observação do cotidiano, senso de humor e de oportunidade, François Vester deixa entrever a dialética entre aceitação e rejeição que ainda prevalece entre brancos, negros e mulatos naquela linda cidade. Senhoras saudosas da “lei e ordem” dos “good old days” passam o tempo num lar de idosos em frente ao mar. As piscinas municipais são ocupadas pelo “arco-íris” racial sul-africano. As ruas são patrulhadas por uma polícia branca que tenta limpá-las dos homelesses e bêbados, em geral negros. Uma variedade de personagens, alguns bastante interessantes, e um estilo quase musical fazem do filme não só informação relevante, mas também entrentenimento de qualidade.
Outro filme que já teve exibição entre nós é Sisters in Law (2005). Como sempre faz em culturas que não domina, a inglesa Kim Longinotto juntou-se a uma cineasta nativa, no caso a camaronesa Florence Ayisi, para realizar Sisters in Law. O filme é um elogio discreto da atuação da Women Lawyers Association numa pequena cidade rural de Camarões. Num cenário clássico de famílias muçulmanas em que a mulher é pouco mais que um utensílio doméstico, uma advogada defende esposas agredidas ou forçadas ao sexo por maridos brutais, meninas estupradas ou maltratadas por parentes, mulheres vendidas pelos pais a homens que não amam. O método de Longinotto é sempre eficaz: ganhar acesso às salas de depoimento e às cortes judiciais, conquistar a confiança das mulheres e gravar os momentos decisivos dos processos. Podemos nos perguntar até que ponto essa presença tão próxima e frequente da câmera e da pequena equipe do filme influenciará na performance e nos vereditos de advogados e juízes. O fato é que Sisters in Law, por mais realista que se pretenda, ajuda a produzir e repercutir casos exemplares de empoderamento da mulher em contexto social especialmente difícil.
O média Fronteiras de Amor e Ódio recolhe as memórias de trabalhadores moçambicanos expelidos da África do Sul por uma onda de xenofobia em 2008. O rico país vizinho é destino frequente para imigrantes de nações mais pobres no seu entorno. É longa a tradição de moçambicanos trabalhando nas minas e na cidade de Joanesburgo. Os personagens desse filme de Camilo Souza, produzido pelo brasileiro Licínio Azevedo e sua Ébano Multimídia, retornaram após terem suas casas incendiadas, parentes mortos e famílias desmembradas. Seus relatos rebatem na consciência de um jovem que pensa em aventurar-se além-fronteira, num ciclo que as tragédias e fracassos parecem não interromper.
A mostra África Hoje vai até o dia 27, com sessões às 16h e 19h e ingressos a 2 e 1 real. Nos dias 27 (Rio) e 29 (SP), haverá um debate reunindo a curadora Luciana Hees, o cineasta Marco Abujamra e o professor Mahomed Bamba, natural da Costa do Marfim e radicado no Brasil. Para ver trailers dos filmes e conferir a programação, visite o blog da mostra.
Eles fazem a coisa certa
maio 12th, 2012 § Deixe um comentário
Romance de Formação pode parecer, à primeira vista, um documentário careta sobre jovens aplicados em fazer o melhor possível de seus destinos. Eles são universitários brasileiros que se dispuseram a viver distantes da terra natal e dos entes queridos em troca de um futuro bem-sucedido. Um êxito que, se chegar, será fruto não de esperteza, golpes de sorte ou paternalismo social, mas da árdua aquisição de conhecimento e expertise.
Justamente porque esse tipo de abordagem é tão rara no doc brasileiro, o filme de Julia De Simone ganha foros de novidade. Há, sem dúvida, uma ideologia de empreendedorismo e meritocracia por trás do filme, algo que não é alheio ao pensamento do produtor Guilherme Coelho. E que também se alinha ao que José Joffily colheu em Prova de Artista, seu doc recém-lançado em DVD. Romance de Formação mostra um pouco do dia-a-dia de quatro jovens exemplares e, com ênfase maior, uma reflexão deles sobre si mesmos. Na Alemanha, um pianista que revê sua entrevista no Jô Soares enquanto ainda era menino-prodígio; em Stanford (EUA), uma aluna de Literatura com sobrenome Saramago que lê suas anotações privadas; em Harvard, um estudante de Direito Internacional às voltas com sua webcam; no Rio, um rapaz mineiro que estuda Medicina para salvar o pai de um câncer no pulmão e, se possível, ajudar a África.
Julia De Simone procura engajar cada personagem num esboço de autonarrativa, assim fazendo com que o filme repercuta internamente a autonomia que eles buscam para si. Enquanto isso, a maneira de filmá-los aponta para um sentido de equilíbrio e autodeterminação. As imagens são limpas, as cenas são sempre muito bem iluminadas. A câmera está geralmente estabilizada em planos fixos com os personagens quase sempre no centro do quadro, o que passa uma ideia de gente com razoável controle de suas vidas e empenhada em fazer a coisa certa.
A sensação de conseguimento que perpassa o filme até a apoteótica sequência final não deixa dúvidas: é um elogio do crescimento individual pelo esforço, a aplicação e uma certa dose de renúncia. Em meio a tanta valorizaçãodo improviso e do descompromisso por aí, isso pode soar, em vez de careta, uma bela ousadia.
A engajada e o desbundado
maio 10th, 2012 § Deixe um comentário
Nos últimos anos, têm sido vários e bons os documentários que se debruçam sobre os anos de chumbo do Brasil no século passado: Vlado 30 Anos Depois, Condor, Hércules 56, Cidadão Boilesen, Diário de uma Busca. Em cada um deles, uma maneira diferente de olhar para trás. Em alguns, formas distintas de mobilizar as subjetividades em torno da História. Esse filão vem se enriquecer agora com o trabalho original, corajoso e afirmativo de Lucia Murat em Uma Longa Viagem.
Talvez pela primeira vez um filme contemple os dois lados da resistência ao déficit de liberdades dos anos 1960 e 70. A partir da dor da perda do irmão Miguel, Lúcia e Heitor se dispuseram a contar a história deles próprios no período. Lúcia participou da luta armada, foi presa, torturada e já havia tratado dessa experiência no seu segundo longa, Que Bom te Ver Viva (1989). Heitor foi enviado pela família, aos 18 anos, para Londres, onde descobriu a alternativa mais radical de liberação individual, que na época atendia por desbunde.
O filme reconstrói a trajetória dos dois, mas com ênfase na de Heitor, que não só conversa com a irmã diante da câmera como é representado pelo ator Caio Blat dentro de um dispositivo audiovisual bastante inspirador. Em vez de montar as cartas, documentos e materiais de arquivo no formato tradicional do documentário expositivo, Lúcia criou um aparato performático em que o ator recebe sobre o corpo e interage ludicamente com a projeção das imagens. Ou seja, o que usualmente seria linearidade e justaposição vira simultaneidade e sobreposição.
Nada disso é gratuito, na base do velho fetiche multimídia, mas uma opção orgânica de representar o psicodelismo da longa viagem de Heitor através de países e drogas cada vez mais radicais. A cenografia das vinhetas ficcionais também assume um caráter alusivo, complementando um corpo coeso de recriação e rememoração.
Se Heitor é um personagem fascinante em sua inteligência e no modo como traz no corpo e na voz os ecos de suas mil experiências, Caio Blat não fica atrás como o ator perfeito para lidar com o personagem, num curioso misto de identificação e distanciamento, leveza e gravidade.
Vendo o filme, às vezes tive a sensação de que Lucia “invadia” um pouco “o filme do irmão” com sua própria história. Os dois meses que ela passou na prisão no DOI-CODI parecem correr em paralelo a um longo trecho da vida de Heitor. Mas, pensando bem, esse é o contraponto buscado. Esse é o grau de complexidade que se estabelece na forma como Lucia traz à luz a história do irmão sem inferiorizá-la perante a sua própria história. A engajada e o desbundado aparecem, enfim, como duas faces de uma mesma moeda.
Bresson por Mocarzel
maio 8th, 2012 § 1 Comentário
Evaldo Mocarzel é apaixonado por Robert Bresson. Quem não sabia disso vai ter a medida aproximada nesse texto que ele escreveu para nosso blog e para o site Críticos.
A ideia inicial era resenhar o livro Bresson – ou o Ato Puro das Metamorfoses, de Jean Sémolué, lançado em 2011 no Brasil pela editora É Realizações. Mas a paixão levou Evaldo a muitas e férteis digressões. Na verdade, o que ele nos oferece é quase um resumo do livro, entremeado por suas próprias observações sobre o mestre francês, trechos das Notas sobre o Cinematógrafo, de Bresson, que o próprio Evaldo traduziu para o português, e até declarações do cineasta em documentários e programas de TV sobre ele.
Para Evaldo, “Bresson está mais ‘moderno’ que nunca, sobretudo a aparência documentária dos seus planos aplainados, condensados, sempre em estado de contenção, de espera e de reserva.”
O texto é longo, mas vale por uma iniciação completa à obra de Bresson.
Epifanias de Bresson
Lançado no Brasil no segundo semestre do ano passado pela É Realizações Editora, “Bresson – ou O Ato Puro das Metamorfoses”, do crítico e ensaísta Jean Sémolué, é um precioso estudo sobre a obra do cineasta Robert Bresson, apesar do título cifrado e até certo ponto escalafobético, contrastando um pouco com a simplicidade e o minimalismo do grande mestre francês.
Sémolué lembra que, para Bresson, toda vida é feita de acasos e de predestinações, “cada filme tem a sua hora”, ressaltando ainda que esse grande artista era um “amador” na sua acepção mais apaixonada, como escreveu Malraux em “L’ Homme Precaire deLa Litérature”.
Durante o Festival de Cannes em 1957, após a apresentação de “Um Condenado à Morte Escapou”, realizado no ano anterior, Bresson afirmou que “o cinema não é um espetáculo, é uma escritura”, e passou a se referir à arte cinematográfica como “cinematógrafo”, a invenção dos irmãos Lumière, à maneira de um grande amigo, também um mentor no início de sua carreira e que depois se tornou uma espécie de antípoda do cineasta francês: Jean Cocteau. Bresson foi muito amigo de Cocteau durante toda a vida e essa grande figura renascentista, que transitou por tantas linguagens, como a literatura, o cinema, o teatro e as artes visuais, chegou a assinar os diálogos do segundo longa-metragem de Bresson: “As Damas do Bois de Boulogne”, de 1943. No entanto, artisticamente, os dois foram se afastando paulatinamente: enquanto Cocteau gostava de bordar as suas obras com todo tipo de ornamento, Bresson enveredou por uma busca minimalista que poderia ser definida como “criação por subtração”, se despojando de todo tipo de excesso para tentar vislumbrar o “real” no inesperado e na essência epifânica da imanência de todas as coisas, sobretudo nos atos falhos dos não-atores, ou melhor, “modelos”, que passou a dirigir em seus sets de filmagem, como um pintor. Continue lendo
Pílulas na rede
maio 7th, 2012 § Deixe um comentário
Mais algumas notas irresponsáveis sobre filmes que tenho colocado nas redes sociais:
O argumento de PARAÍSOS ARTIFICIAIS não me interessou nem um pouco, assim como os personagens e suas questões. Eles me pareceram funcionais demais, sem muita vida para além do esqueleto da trama. Não me convenceram como pessoas, se é que me faço entender. Não gosto dos diálogos e de alguns estereótipos: o guru das drogas, a mensagem “play me”, o enguiço do ônibus naquele paraíso, etc. No entanto, respeito o filme por uma simples razão: toda a linguagem se presta a exprimir o seu sentido. Ou melhor, é na linguagem mesmo que o filme se realiza. Como luz, cor, ritmo, sensualidade. Vejo-o como um filme sobre superfícies – não é à toa que dois personagens afundam abaixo da tona e morrem. A superfície lustrosa e sensual da experiência: drogas, sexo, morte. E exprimir sensações de superfície é uma proeza relativamente rara no cinema brasileiro.
Os críticos no mundo inteiro têm feito um bocado de contorcionismo para sustentar os elogios a MINHA FELICIDADE e contornar as evidentes armadilhas narrativas e temporais do filme. Para mim, aquilo soou como um sucedâneo do “Não Matarás” do Kieslowski, temperado por um grande ressentimento de Sergei Loznitsa com sua Bielorrússia natal. Um beco sem saída metafórico povoado por bons e maus, sendo ambos capazes de matar. A melhor cena é quando o caminhoneiro se perde numa espécie de mercado, entre mil rostos filmados à revelia e randomicamente. O homem com destino certo para sua carga é engolido pelo caos, do qual não mais conseguirá sair. A desordem do mundo não tem remissão. Nada é capaz de se salvar. Tudo é escuridão e terra jogada por cima. Tá bem, Loznitsa, mas o que é que a gente faz com isso?
Há duas maneiras de entrar no DIÁRIO DE UM JORNALISTA BÊBADO. Se considerarmos que aquilo se refere a Hunter S. Thompson, será uma decepção. O canastrinho Johnny Depp não passa nada do “gonzo journalist”. É mero coadjuvante entre personagens caricatos numa Porto Rico de fancaria. A súbita tomada de consciência crítica aos 35 do segundo tempo não convence porque não teve preparação dramatúrgica. Mas se esquecermos Thompson, até que dá pra curtir como uma comédia maluca, com algumas falas muito espirituosas e algumas cenas cômicas que funcionam na base da maluquice mesmo. Aí até o “distanciamento” cafajeste de Johnny Depp faz sentido.
O Bandido está vivo!
maio 5th, 2012 § 2 Comentários
Luz nas Trevas é, se não a primeira a merecer esse nome, uma das mais consistentes aventuras intertextuais já empreendidas pelo cinema brasileiro. Não é uma continuação do clássico O Bandido da Luz Vermelha, até porque o personagem do filme de 1968 morria no final imitando um pouco o Michel Poiccard de Acossado, um pouco o Pierrot le Fou de Godard. Não é uma resposta, nem uma usurpação. Talvez não seja nem mesmo uma retomada do mesmo personagem, já que o bandido maduro que apodrece na cadeia, vivido por Ney Matogrosso, contesta “o filme que fizeram sobre mim”.
Essa falta de “explicação” só faz acentuar os prazeres de se assistir a Luz nas Trevas. Desde, é claro, que o espectador passe pelo primeiro tranco do roteiro, logo no início, quando a narrativa em primeira pessoa passa de Luz para seu filho, e a história deste assume o protagonismo. O que é retomado, na verdade, é algo do espírito anárquico e ludicamente questionador do filme de Rogério Sganzerla. Se O Bandido era já um filme intertextual, colagem tropicalista de signos policiais, políticos e culturais da época, o roteiro que o próprio Sganzerla deixou para Luz nas Trevas permite incorporar o filme de 68 em sua malha de referências.
Assim, frases, trechos de áudio e de cenas em preto e branco do Bandido invadem a fantasmagoria colorida de Luz. Ora estão ali como um eco, ora como parte mesmo da continuidade da história que agora se conta. Há tanto a reedição em cores de alguns planos do Bandido quanto a recuperação, em outro contexto, de cenas memoráveis, como a do personagem comendo uma espiga de milho e olhando pelo binóculo. A edição em livro do roteiro do Bandido dá margem a uma sequência de Luz, assim como Sérgio Mamberti, visto em 68 como uma bicha caricata, volta como político assemelhado ao vivido antes por Pagano Sobrinho.
Os tempos são outros, claro, e o filme escancara isso de todas as maneiras. Sai o AI-5, entra o AR-15. Saem o rádio, as lojas de rua e as guarânias, entram as TVs de plasma, os shoppings e o rap. O que antes era trepidação agora é deslizamento em superfícies lustrosas. Jorge, o filho de Luz, segue os passos do pai sem a mesma boçalidade que caracterizava o cafajeste dos anos 60. Agora ele só quer saber de “ouro ou euro”. Não passa de um neobabaca cuja maior virtude, além de namorar Djin Sganzerla, é nos deixar ver que a lanterna era de fato vermelha.
O bandido, por sua vez, não avacalha mais nada. Virou um presidiário amargo, um brasileiro revoltado que inspira certos clichês do discurso anticorrupção. As reiteradas alusões aos “políticos” e aos “ricos”, que nunca vão para a cadeia, são um dos poucos traços óbvios num filme cheio de frescor e de um legítimo compromisso com a diversão crítica. É surpreendente ver como o personagem de Ney Matogrosso acaba incorporando marcas de Helena Ignez (o misticismo que o leva a adotar o novo pseudônimo de Luz Divina) e se transformando aos poucos no próprio Ney Matogrosso. A sobreposição de suas vozes de ontem e de hoje na apoteose musical fecha o círculo da habilidosa operação empreendida pelo filme.
De alguma forma, Luz nas Trevas lembra A Força do Amor (Breathless), a versão pop de Acossado que Jim McBride realizou em 1983 com Richard Gere e Valerie Kaprisky. Faz o mesmo deslocamento de contexto, de época e de referenciais. A diferença é que, no filme dirigido por Helena Ignez e Ícaro C. Martins, a metalinguagem é expressão de um engajamento mais autêntico e orgânico, familiar mesmo, com o original. Tudo bem que a indisciplina, visceral no filme de 68, aqui é mais premeditada. Mas não acredito que a temeridade de voltar ao Bandido pudesse ser mais bem-sucedida.
A terceira margem do rio
maio 4th, 2012 § Deixe um comentário
A voz de uma mulher idosa cantando alto, uma imagem desfocada e cheia de grãos. Assim começa Girimunho, de forma a não enganar ninguém. Quem quiser, fique na sala. Quem não gostar, desista logo. O filme que vamos ver é assim como se fosse contado por aquelas vozes rugosas e lentas (“A calma é muito importante”), olhado por aquelas vistas cansadas, cantado daquele jeito rústico e doce.
Bastu e Maria do Boi, duas velhas amigas na mansidão de São Romão, interior de Minas, são o princípio e o fim do belo filme de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. A incrível capacidade delas, assim como dos poucos jovens que os cercam, de encarnar suas personagens sem deixar de ser elas mesmas, é o milagre em torno do qual Girimunho se constrói. Entre o documentário e a ficção, o filme sai em busca de uma terceira margem. A história que se conta é nutrida da história de quem conta.
Não é despropositado lembrar de Guimarães Rosa e sua Terceira Margem do Rio. É a morte que assoma à soleira das portas de São Romão desde a primeira cena, na cantiga do batuque de Maria do Boi. É a morte do marido que, em vez de ficar quieta, continua atazanando Bastu na calada da noite (“O tempo não para. Quem para somos nós”). Morte é partida. Ficar ou partir, eis o dilema de sempre, de todos. Branca e sua irmã Preta vivem isso com os próprios chinelos.
Mas, se abre uma fresta da porta para a morte, é para a vida que Girimunho escancara a passagem. Como no igualmente roseano Terra Deu, Terra Come, o premiado doc de Rodrigo Siqueira, temos aqui uma visão lúdica da morte. O que move Bastu, em seu pacto de não chorar, é a disposição para suprir a ausência do outro com o seu próprio desejo de viver (“A vida é amável”). A entrada da máquina de costura na oficina do falecido é a metáfora redonda. E o Rio São Francisco, afinal, é outro que não para.
Com suas elipses poéticas e um tangenciamento muito sutil do sobrenatural, o roteiro de Felipe Bragança rende talvez a melhor assimilação do modelo fabular do tailandês Apichatpong Weerasethakul, tão cultuado por jovens realizadores brasileiros. É uma escrita arejada, de alinhavo bem espaçado e aberta aos influxos dos lugares e da natureza no ato da filmagem. É uma maneira de filmar e editar (Marina Meliande) que sabe impor seus silêncios e seu ritmo, colhidos que são na observação de um mundo aparentemente estável.
Felizmente, Girimunho não é um mero elogio do estagnado e do “simples”. Pelo contrário, é uma celebração do redemoinho da vida, da mudança e da perspicácia (“Quem não ouve conselho ouve coitado”).
Um filme para ser bebido devagarinho e com gosto.
Paul by Al
maio 3rd, 2012 § Deixe um comentário
O jornalista Paulo Lima, editor da revista eletrônica Balaio de Notícias, viu o documentário The Love We Make, recém-lançado em DVD no Brasil, e conta pra gente suas impressões:
A essa altura, não são poucos os documentários que têm como tema a tragédia do 11 de setembro. Acaba de aterrisar por aqui mais um desses, The Love We Make, do batuta Albert Maysles. Só que esse doc tem um pé no celebrity world, já que mostra os bastidores da participação de Paul McCartney no concerto beneficente realizado logo após os atentados.
Para os beatlemaníacos, ou mccartneymaníacos, ou mayslesmaníacos, é um prato cheio. Primeiro, pela textura do doc: um p&b granulado de encher os olhos, que contribui para enfatizar o caráter histórico de um dos maiores acontecimentos do século 21. A opção pelo p&b (pensei nisso agora) também reflete, talvez, a intenção de Maysles de situar Paul no contexto histórico-musical que lhe é devido, como um dos eternos membros dos fab four.
Segundo, que é uma maravilha poder ver o beatle Paul flanando alegremente em Nova York, sendo assediado por gregos e troianos nas ruas da cidade, que não acreditam estar diante do homem em carne e osso, confirmando sua popularidade de beatle eterno.
Por acréscimo, temos a chance de ver um pouco dos bastidores do milionário mundo do rock and roll e suas estrelas. Paul esbanja bom humor e inteligência veloz. Podemos entender, a partir dessa pequena amostra de Al (que é como Paul se refere a Albert Maysles no documentário), porque brotou daquela mente boa parte das mais belas canções do quarteto de Liverpool.
Há quem possa dizer que o doc traz um Maysles de entressafra, mostrando um Paul envolvido num animado convescote pró-elevação da moral dos novaiorquinos. Que seja. E, se assim for, já é o bastante. Afinal, é Albert Maysles. E Sir Paul McCartney.
Aqui uma pitada do doc mostrando Sir Paul batendo perna nas ruas de NYC e sendo alvo do afago dos fãs de todas as idades e geografias:
Paulo Lima
Atualidades de Vladimir
maio 1st, 2012 § 1 Comentário
Dizem que biógrafo de gente viva é como um cônjuge feliz: acompanha o biografado pelo resto da vida. Mas no meu caso, das cinco biografias que escrevi ou ajudei a escrever, somente uma, a de Vladimir Carvalho, deixou um rastro mais ou menos permanente. Depois do livro, continuamos próximos e compartilhando os principais acontecimentos da vida um do outro. Por isso estou aqui dando conta de mais um momento auspicioso na carreira do “Vlad”.
Nesta quarta-feira ele recebe o título de Professor Emérito da Universidade de Brasília, onde lecionou documentário por 20 anos. Ao mesmo tempo, está lançando o DVD de Rock Brasília, editado pelo Canal Brasil. No próximo dia 10, vai “autografar” os discos na Livraria Travessa do Leblon. Em junho, o filme será exibido no festival de cinema brasileiro de Nova York, junto com o doc do irmão Walter sobre Raul Seixas.
Conterrâneos Velhos de Guerra, sua visão antiépica da construção de Brasília, enfim sairá em DVD brevemente pelo selo que sucedeu a Videofilmes. O também clássico O País de São Saruê, este disponível nas locadoras, foi objeto de uma revisita do diretor às locações no sertão paraibano, no final do ano passado. A viagem, 41 anos depois das filmagens, foi amplamente documentada numa série de matérias pelo jornal Correio da Paraíba (foto acima).
Mas tudo isso já é passado ou quase. O melhor é saber que Vladimir está enfiando a mão no barro para moldar o próximo trabalho. Como muitos que ele deixa decantando por anos, agora será a vez de fazer um documentário sobre o pintor Cícero Dias. A coleta de materiais já começou. Ele próprio filmou uma exposição do artista seis anos atrás em Paris, quando visitou seu ateliê e lá gravou depoimentos da viúva de Cícero, Raymonde, e da filha Silvia, afilhada de Picasso.
Algumas preciosidades alheias deverão constar do filme. Jacques Cheuiche já cedeu imagens inéditas gravadas com Cícero Dias, em cadeira de rodas, explicando a simbologia do Marco Zero, projeto de urbanização que ele concebeu para o centro de Recife (mais precisamente: a produtora Danielle Hoover cedeu imagens filmadas por Cheuiche). Também Walter Carvalho está passando para o irmão cenas que filmou em Paris com o pintor e João Moreira Salles, e que nunca foram usadas.
Em suas memórias trabalhadas por mim no livro Pedras na Lua e Pelejas no Planalto, Vladimir fala de como ressoa na sua lembrança o quadro Eu Vi o Mundo… Ele Começava no Recife: “Sempre que vejo o painel de Cícero Dias, recordo o Recife que vivi aos 10 anos de idade. Ou pelo menos a impressão colorida e feérica que a cidade me provocou”. Ou seja, é provável que teremos mais um documentário, como tantos de Vladimir, dotado de uma certa dimensão autobiográfica.
Os meninos de Pina
abril 28th, 2012 § Deixe um comentário
Liliam Hargreaves, a superdivulgadora do Grupo Estação, foi quem me deu o toque: enquanto os bailarinos de Pina/Wenders estão de corpos e almas completamente inebriados pela coreógrafa, os meninos e meninas de Sonhos em Movimento não têm muita ideia do que representa Pina Bausch. Um deles chega a dizer que nunca tinha ouvido falar dela antes de chegar ao Tanztheatre Wuppertal para ensaiar Kontakthof, obra de referência no repertório piniano.
O filme de Anne Linsel e Rainer Hoffmann acompanha o processo desse grupo de adolescentes amadores que topa o desafio de fazer o Kontakthof. No fundo, não deixa de ser aquela fórmula do documentário que segue uma seleção e a montagem de um espetáculo. Tem a garota desacreditada que acaba disputando o papel principal, tem os meninos falando de suas (in)experiências com o amor, as histórias de família que trazem para os personagens etc. Mas sem experimentalismos à la Moscou.
Descobrir e compreender o método de Pina funciona, para muitos desses garotos, como uma descoberta do mundo e do próprio corpo. Afinal, Kontakthof (que significa “ponto de encontro”) é justamente uma peça sobre as relações humanas ligadas ao corpo – vaidade, cortejo, assédio, dependência, contatos destrutivos.
Sonhos em Movimento é um ótimo complemento para o magistral Pina, já que mostra a árdua construção desse misto de dramaticidade e ludicidade, controle dos músculos e entrega radical. Pina Bausch aparece avaliando os alunos, reagindo às provas, etc. Ela era mesmo uma figura quase mítica, que despertava fascínio e medo nos jovens aspirantes, mas também era capaz de fazê-los perceber uma outra dimensão do corpo e das suas capacidades de usá-lo, para a arte e para a vida.
No filme de Wenders, esse mesmo grupo aparece rapidamente numa sequência de Kontakthof, alternado com outros grupos de idade adulta e de idosos. Àquela altura, provavelmente, a garotada já estava tão inebriada quanto qualquer veterano de Wuppertal.
Terras da desordem
abril 27th, 2012 § 1 Comentário
(Texto publicado originalmente em abril de 2011 – Festival É Tudo Verdade)
Sem-terras, posseiros, grileiros, fazendeiros e índios se ameaçam reciprocamente numa região de Mato Grosso. Suiá-Missú era terra xavante antes de ser comprada por um grande latifundiário. Depois foi vendida a distintos fazendeiros e ocupada por posseiros. Os índios, transferidos para uma Missão com a conivência de padres, voltaram na marra anos mais tarde (aqueles que sobreviveram às doenças) e hoje reivindicam o direito de nação. O clima é de guerra iminente.
Vale dos Esquecidos faz um mapeamento das razões e das armas de cada um. O fazendeiro americano John Carter, por exemplo, vê a região como uma fronteira de faroeste, e não hesita, mesmo diante da câmera, em atear fogo nas choças de posseiros que localiza em suas terras. O cacique xavante agita sua borduna e explica que sua cultura não reconhece esse negócio de diálogo. Políticos e posseiros admitem que seus títulos de posse são ilegais, mas duvidam que alguém os tire dali. Passadas de mão em mão há mais de 50 anos, essas terras da desordem são um microcosmo de várias outras pelo Brasil afora.
Maria Raduan conta com dois profissionais de peso em sua equipe: o tarimbado fotógrafo-aventureiro Sylvestre Campe, responsável pelas magníficas imagens, e a montadora Jordana Berg, que articula da melhor maneira possível os vários temas e focos em questão. Algumas pontas ficam soltas, como o problema das queimadas e a responsabilidade da igreja na história. Mas como painel horizontal de um conflito complexo, o doc cumpre seu papel com muita propriedade.
A salvação segundo B. Brant
abril 25th, 2012 § 4 Comentários
Será Eu Receberia as Piores Notícias de seus Lindos Lábios um filme religioso? Será um melodrama mexicano transplantado para a Amazônia do século 21? Seria ambas as coisas, mas filtradas pela secura da pena de Marçal Aquino e das lentes de Beto Brant e Renato Ciasca?
A partir daqui, este texto contém spoilers. Se você ainda não viu o filme, deixe para ler depois.
Lavínia, a personagem defendida com unhas e pélvis por Camila Pitanga, é uma pecadora com mais capacidade de regeneração que cauda de lagartixa. Dona de um passado traumático, ela é salva duas vezes durante o filme: primeiro, da sarjeta pela palavra do pastor sedutor e engajado; depois, da loucura pelo olhar apaixonado do fotógrafo individualista. O tema da redenção se estende de Lavínia (o corpo) aos eventos da comunidade onde se passa o filme (o espírito): o circo pagão de Xico Chagas se opõe ao circo místico-político do pastor Ernani.
Outros signos pararreligiosos, ou que relacionam o religioso com o profano, se espalham pelo filme. Cauby, o fotógrafo, cultua imagens de Lavínia expostas nas paredes de sua casa. A grande cena de exorcismo se assemelha, em seu paroxismo, às muitas de sexo, praticado sempre com muita sofreguidão e umidade corporal. A própria história é contada com uma estrutura de cruz: Lavínia é o eixo vertical, que atravessa toda a história, enquanto Ernani e Cauby cruzam sua vida com uma breve interseção, justamente (e literalmente) sobre ela. Se Lavínia é uma espécie de Madalena, a prostituta bíblica, quem é atingido pela primeira pedra é Cauby.
Talvez a gente possa encontrar ecos de religião em outros filmes de Beto Brant, um diretor comumente associado a um mundo de violência e corporalidade. Por exemplo, a expiação da culpa é central em Ação Entre Amigos e O Invasor. A salvação pelo anjo amoroso é uma possível chave de leitura para Cão sem Dono. E tem ainda o tratamento cômico do personagem Jó no seu primeiro curta, codirigido por Ralph Strelow.
Eu Receberia… é um melodrama de índole religiosa, embora os traços definidores desse gênero estejam camuflados por uma encenação que aponta sempre para o visceral e o sensual. Neste que considero o melhor resultado de sua parceria de direção com Ciasca, Brant recombina elementos de sua primeira fase, quando já trabalhava com roteiros de Aquino e produção de Ciasca – e de suas criações mais recentes. O argumento policial e a ação distanciada de centros urbanos, do início da carreira, vêm mesclados com o huis clos amoroso e uma relação íntima entre sexo e criação/fruição artística, predominantes em Crime Delicado, Cão sem Dono e O Amor Segundo B. Schianberg.
Dessa mélange vem uma força muito peculiar aos filmes do grupo. Uma força que, no novo filme, está melhor concentrada no triângulo central, enquanto se dispersa e afrouxa nas subtramas paralelas: o editor de jornal, que reedita o insuportável clichê da bicha erudita; o exotismo do velho palhaço e da cantora esotérica; e o discurso sobre a devastação da floresta amazônica. O espaço aberto, de maneira pouco suave, a esses ingredientes terciários rouba bastante da densidade do filme.
P.S. Camila!!!
Pílulas da preguiça
abril 23rd, 2012 Comentários desativados
Sou um crítico cada vez mais preguiçoso para acompanhar o mercado com a clássica resenha de filmes. Aqui no blog, meu prazer maior está agora em juntar dois ou mais filmes e ver o que é que dá; ou entrar num determinado filme por uma vereda vicinal e ver onde aquilo me leva. No mais das vezes, começo um texto sem ter a menor ideia de como vou acabar. Isso é bom. É irresponsável e aventureiro, mas é bom.
O lugar onde tenho manifestado sucintamente minha opinião sobre novos filmes é no Facebook. Comentários rápidos, despretensiosos, como uma resposta imediata ao que acabei de ver. Para deixar o registro aqui no blog, e para eventuais visitantes que não estão no ”face”, transcrevo abaixo essas pílulas sobre alguns filmes recentes:
A TV Brasil exibiu (melhor seria dizer esquartejou) uma versão reduzida de A CIDADE É UMA SÓ?. Não dá pra saber direito como será o filme de 73 minutos. Mas a impressão que tive não foi das melhores. A história das remoções da Ceilândia já foi contada melhor em diversos filmes (sobretudo CONTERRÂNEOS VELHOS DE GUERRA). Os dois personagens ficcionais me pareceram fundados num misto de demagogia, ingenuidade e condescendência. Achei tudo bastante desestruturado, repetitivo e politicamente pálido – o pior para um filme que se pretende crítico. Gosto da postura batalhadora e pouco pretensiosa do Adirley Queirós, mas tenho para mim que esse seu filme está sendo superestimado. De qualquer forma, vou esperar a versão completa.
Com Robert Guédiguian, a classe operária sempre vai para o paraíso. Em AS NEVES DO KILIMANJARO, a esquerda é quase beatificada. Um sindicalista “se demite”, é assaltado dentro de casa e se divide entre o sentimento de revanche e a solidariedade, ou melhor, a compaixão. No fundo, é um falso dilema, apresentado de maneira a não restar dúvida sobre os bons sentimentos dos protagonistas. Gúediguian mostra como poucos a vida de pessoas simples, sem glamour, mas dotadas de uma autenticidade quase palpável. É um excelente narrador, embora o roteiro aqui cometa algumas facilidades de folhetim. Não tem como não gostar daquela gente que trata tão bem as crianças e os velhinhos, que tem sonhos humildes e carinho até pelo desconhecido da esquina. Com isso, os conflitos se dissolvem no calor dos sentimentos e nos acordes reconfortantes da “Pavana para uma Criança Morta” de Ravel. Nesse filme, a obra de Guédiguian chega à fronteira da vida de santo. Mas… vá lá… é bonito.
A DANÇARINA E O LADRÃO é aquele esquema do Skármeta: personagens de mundos muito distintos que se encontram e se identificam, um pouco de “poesia”, um destino trágico. No filme, um ladrãozinho com alma de anjo (Ángel, claro) se apaixona por uma bailarina muda e pobre mas predestinada a vencer (Victoria, óbvio), coadjuvados por um Ricardo Darín no papel de… Ricardo Darín (aquele cara maduro, antiquado, de ética meio duvidosa mas de espírito muito nobre). O que Fernando Trueba tira daí é um coquetel de facilidades dramáticas que me enjoou bastante. Ecos da ditadura chilena diluídos em melodrama barato, estereótipos para representar a cultura oficial, um herói a cavalo em plena Santiago, una pastelada!
Gostei bastante de XINGU, mais do que esperava. Acho bacana ter um filme que “venda” para as massas, com dignidade, a história dos Villas Boas. Alcança grotões que os melhores documentários não alcançam. É um filme na tradição do cinema de aventura, muito competente tecnicamente, com uma fotografia extraordinária e uma trilha sonora apaixonante. Investe no mítico e se dá bem: os heróis, a naturezaexuberante, uma luz que transcende o naturalismo. No roteiro, o esforço de síntese é admirável, embora falhe na conclusão da história do irmão Leonardo e minimize o papel de Darcy Ribeiro numa única (e meio grotesca) cena. Os indigenistas podem dizer melhor se o filme tem razão em mostrar os Villas Boas como virtuais anunciadores da política hoje vigente de manter os índios isolados à margem do contato.
É claro que ri muito com HABEMUS PAPAM, deliciei-me com a caracterização de Piccoli e apreciei alguns desdobramentos da ótima situação inicial. Mas acho que a perambulação do Papa pela cidade não é tão bem aproveitada quanto a espera dos cardeais no Vaticano. E o desfecho “teatral” também me pareceu um anticlímax. Moretti QUASE fez uma grande comédia italiana.
Um épico do compartilhamento
abril 21st, 2012 Comentários desativados
No dia 24 de julho de 2010, eu vi uma sessão de curtas no Anima Mundi e recebi em casa a minha amiga Marília Martins, que acabava de voltar de uma temporada em Nova York. Muita coisa aconteceu pelo mundo naquele sábado. Um menino ganhou trocados nas ruas de Lima, um rapaz americano pegou o telefone e contou à avó que era gay, uma mulher chorou sozinha na cama em algum ponto da Europa, um fotógrafo saiu mostrando que Cabul não era só guerra, muita gente se feriu num acidente de multidão em Duisburg, um homem desmaiou enquanto filmava o parto do seu filho no Brasil… Flashes desse dia, um dia como outro qualquer, compõem o primeiro doc colaborativo a circular internacionalmente em salas de cinema.
O projeto A Vida em um Dia é a ponta mais visível de um novo iceberg na linguagem dos documentários: sai o filme de autor, entra o filme de curador. No Brasil não tem sido diferente. Eduardo Coutinho fez a “curadoria” de programas de TV em Um Dia na Vida. Já em Pacific, Marcelo Pedroso trabalhou exclusivamente com vídeos de turistas em cruzeiros a Fernando de Noronha. Diante da massa de produção individual e caseira que surge a cada dia na era digital, cabe a curadores buscar e organizar sentidos, com vistas a criar novas obras a partir do já criado. De certa forma, somos todos curadores quando precisamos administrar, selecionar, favoritar e arquivar o que nos atrai e interessa. Mas Kevin MacDonald (One Day in September, Touching the Void, O Último Rei da Escócia) foi proativo na sua ideia: através do Youtube, convocou a todos que quisessem filmar aquele 24 de julho em suas vidas e suas cidades, e postar o resultado no megasite. Resultaram 88.000 inscrições de 192 países, gerando 4.500 horas de vídeo. Com isso MacDonald montou os 93 minutos de Life in a Day.
De alguma forma, o longa evoca o modelo das sinfonias documentais que marcaram a década de 1920, mostrando em fragmentos o decorrer de um dia na vida de cidades como Berlim, Moscou, Paris e São Paulo. Em A Vida em um Dia, o início na madrugada e o percurso aproximado da jornada sugerem uma sinfonia mundial. Dentro desse circuito macro, MacDonald criou circuitos menores, unificados por temas (trabalho, romance, nascimentos, alimentação, violência e dor etc), certos padrões de movimento (caminhadas, atletismo) e perguntas específicas (o que você carrega no bolso ou na bolsa? O que você mais ama? O que você mais teme?).
Esse carrossel de cenas públicas e privadas – muitas corriqueiras, algumas legitimamente dramáticas, outras bastante divertidas – formam uma espécie de elogio do banal. Ou melhor, mostram que o banal pode assumir um valor poético ou singular quando oferecido ao olhar que não sabe o que esperar do próximo minuto. Além disso, há uma profunda singeleza nesse oferecimento de si e do seu entorno pelo simples prazer de compartilhar. A Vida em um Dia talvez seja o primeiro épico cinematográfico da idade do compartilhamento.
E você, é capaz de lembrar e compartilhar algo que fez em 24/7/2010?
O ‘Amarcord’ de Jurandyr Noronha
abril 19th, 2012 Comentários desativados
Existe uma cidade com esse nome no norte da Bahia, perto da fronteira com o Piauí. Mas não é essa a Remanso em que Jurandyr Noronha, aos 96 anos, fincou o esteio do seu romance Bravos Companheiros (EMC Edições), a ser lançado em noite de autógrafos na próxima quinta-feira, dia 26, a partir de 19h30, na Livraria da Travessa de Ipanema. A Remanso de Jurandyr é mais ou menos como a Rimini de Fellini em Amarcord: livre território de lembranças, província quase de sonho e povoada por personagens característicos. Dessa cidade fictícia ele parte para contar uma pequena história do Brasil entre 1921 e 1960.
Lá estão os comunistas Donato e Nicola distribuindo panfletos clandestinos do Partidão; o fotógrafo judeu Isaac driblando tabus para casar-se com a mulata Maria Rosa; o gráfico Spencer Valverde tirando da cartola a ideia de criar o primeiro jornal da cidade; o Padre Flávio tentando conciliar as divergências no seu rebanho; o alemão Helmut e sua família fazendo o possível para se assimilar à paisagem cultural brasileira. Questões que o país viveu intensamente na primeira metade do século 20.
Remanso vê aos poucos chegar a modernidade: além da Gazeta, um aeroporto fluvial, uma hidrelétrica, uma fábrica de laticínios, o rádio, a televisão, uma visita de Getúlio Vargas e outra do comunista Apolônio de Carvalho. E junto com isso, os grandes conflitos que abalaram o Brasil e o mundo. Jurandyr Noronha, além de decano do documentarismo brasileiro e pioneiro na militância pela preservação dos materiais cinematográficos, sempre foi um amante da história bélica. Bravos Companheiros faz uma súmula das efemérides militares do período, desde o episódio dos 18 do Forte (Copacabana, 1922) até a Revolução Cubana, passando pela Revolução de 30, o movimento paulista de 32, a Coluna Prestes, o levante integralista, a Guerra Civil Espanhola, a II Guerra Mundial e a Guerra do Vietnã. De caso a caso, Jurandyr detalha os armamentos e veículos utilizados, conta as baixas e comenta as performances de cada lado.
Da mesma forma, relata sucintamente uma seleção de eventos que inclui o lançamento do primeiro satélite artificial da Terra e do primeiro filme sonoro brasileiro, a coqueluche causada pela radionovela O Direito de Nascer, o surgimento inovador de Rio 40 Graus, a construção de Brasília, etc. Vez por outra, os dois campos se cruzam, como no episódio da atriz Lélia Abramo e do crítico Mário Pedrosa trocando tiros com os protofascistas de Plinio Salgado.
Os grandes acontecimentos rebatem inevitavelmente em Remanso, dividindo opiniões e engajando alguns habitantes. A estrutura do romance é um constante vai-vem entre o macro e o micro, o mundo e a província. Alguns personagens podem sugerir traços biográficos do autor, nascido e crescido em Juiz de Fora (MG). Ubiratan, que nasce na primeira página, pode personificar seu amor pelo cinema e a aviação. Os oficiais Cícero e Ewandro permitem a Jurandyr incorporar seus conhecimentos de quando frequentava a Escola Militar de Realengo. Mas tudo isso vem diluído numa fabulação politicamente equidistante, na qual Remanso condensa fatos e dilemas gerais do país na época.
A cronologia atende ao rigor de historiador de Jurandyr. Em sua pesquisa, ele exuma ocorrências pouco difundidas. Uma delas é a carga bélica, em plena Copacabana, contra o navio alemão Baden, que teimou em deixar o Rio durante um bloqueio da Revolução de 30. Outra é o afundamento de outro navio alemão pela força aérea inglesa durante a II Guerra, quando pereceram cerca de 6.000 prisioneiros judeus, comunistas, negros, homossexuais, ciganos, etc. Sobre esta tragédia, Jurandyr não hesita em comentar: “significou muitos dias sem trabalho para os campos de concentração de Ravensbruck e Dachau”.
Bravos Companheiros é, assim, um misto de história militar e fábula provinciana, um tipo de livro que não se faz mais hoje em dia. Justamente por isso, tem um sabor incomum, uma singularidade que os muitos descuidos de revisão não botam a perder. Clique aqui para ler um pequeno trecho do livro
Cinefilia online
abril 16th, 2012 Comentários desativados
Artigo escrito em 2010 para a revista Filme Cultura nº 53, de janeiro de 2011 (alguns números devem, portanto, estar defasados)
Você baixa seus e-mails pela manhã e recebe a mensagem de um amigo avisando que um filme raro dos anos 1970 acaba de ser disponibilizado num site de cinema online. Então você não resiste, pega um café e se refestela no sofá para assistir no seu notebook. Em seguida, visita o fórum do site para checar o que está sendo discutido sobre o filme. Navega depois para outros fóruns semelhantes, “conversa” com outros apreciadores do filme, sendo um de Manágua e um de Singapura. Deixa um comentário rápido no Facebook, recomenda o link do filme no Twitter e escreve um post para o seu blog. Por fim, visita o IMDb para verificar o que seus críticos favoritos escreveram sobre aquela obra-prima.
Mesmo sem entrar numa sala de cinema, sem conversar no barzinho, sem folhear qualquer publicação impressa nem gastar um tostão, você terá percorrido um circuito completo de autêntica cinefilia. O notebook, é claro, não se compara à tela grande, assim como a comunicação virtual não se equipara ao contato pessoal. Os nostálgicos dirão mesmo que o jornal eletrônico não tem as virtudes táteis e até olfativas da revista impressa. Já os contemporâneos argumentarão que nenhum cinema estaria exibindo “aquele” filme. E, afinal, de que outra forma você trocaria ideias com os tais cinéfilos de Manágua e Singapura?
Discussões à parte, o fato é que uma nova cinefilia se impõe para fazer face a uma nova forma de consumo do produto audiovisual. E por que não dizer, a um novo cinema. Um cinema descentrado, individualizado e não simultâneo, mas ampliado pela rede globalizada que já engendrou uma espécie de “novo coletivo”. Continue lendo
O salto estético de Evaldo Mocarzel
abril 13th, 2012 Comentários desativados
Dois docs de Evaldo Mocarzel entraram hoje em cartaz: o longa À Margem do Lixo em cinemas de seis estados; e o média Quebradeiras em 1109 cineclubes de todo o Brasil, que receberam kits da Raiz Distribuidora com os dois filmes em DVD. Se contarmos sua co-direção em Raul, o Início, o Meio e o Fim, serão três filmes dele em exibição simultânea pelo país. Evaldo é um dos documentaristas mais ativos nos últimos dez anos. Seus filmes chegam relativamente pouco aos cinemas e praticamente não chegam às locadoras, mas circulam muito na TV, em festivais, escolas, comunidades, etc.
Os dois títulos lançados agora, quatro anos depois de realizados, já mereceram prêmios: À Margem do Lixo ganhou melhor filme pelo júri popular, melhor fotografia e Prêmio Especial do Júri no Festival de Brasília de 2008. Quebradeiras recebeu o prêmio de melhor documentário no Festival de Toulouse, na França, e prêmios de direção, fotografia e som no Festival de Brasília de 2009. Mais importante ainda, esses filmes demonstram a passagem de Mocarzel da fase de informação bruta para um momento de maior busca estética. Passagem também da entrevista para a observação.
À Margem do Lixo é o terceiro tomo de sua tetralogia da margem. Ele filmou catadores de lixo de São Paulo, todos dotados de consciência de classe e organizados em movimento. Os catadores aparecem eventualmente narrando suas próprias imagens num estúdio (à la Jean Rouch), enunciando suas ideias políticas ou empenhados no seu agitado dia-a-dia. Este doc não tem a mesma força dos dois primeiros (À Margem da Imagem e À Margem do Concreto), talvez por serem frutos de uma fase de transição na carreira de Mocarzel. As cenas de trabalho na rua, gravadas principalmente pelo diretor de fotografia Gustavo Hadba, são ricas em angulações e detalhamento da ação dos catadores, evidenciando um forte desejo de experimentação por parte do diretor. O filme é pontuado por três sequências magistrais que mostram o processo de reciclagem de papel, plástico PET e alumínio. Evaldo inspirou-se em Dziga Vertov e na escola soviética para propor uma edição baseada em estrofes matemáticas de fotogramas. São pequenos ensaios de puro ritmo, cor e movimento, que me lembraram também o curta O Canto do Estireno, de Alain Resnais (1958).
Já Quebradeiras é um rompimento quase completo com o compromisso expositivo habitualmente associado ao doc etnográfico. Seu retrato das quebradeiras de coco de babaçu da região fronteiriça de Maranhão e Tocantins é puramente lírico, mítico e musical. As imagens de Gustavo Hadba estão entre as mais belas do documentário brasileiro recente. Enquadramentos primorosos, pontos-de-vista inesperados, uma atenta exploração da poética da luz, da natureza exuberante e das conexões entre o movimento do trabalho, das danças e do simples viver das mulheres.
O elemento feminino se manifesta na forma de iaras nuas, mães amamentadoras, camponesas cantadeiras, divas vaidosas. As quebradeiras veem as palmeiras de babaçu como mulheres. Evaldo segue a trilha desse panteísmo e extrai uma beleza incomum – e incomum não apenas para seus filmes comumente “sujos” de tanta realidade. Em Quebradeiras, pela primeira vez Evaldo dispensa completamente as entrevistas. Valoriza o silêncio, a observação de um cotidiano delicadamente encenado, a edição que às vezes transforma o trabalho em música. Toda a informação vem pela estética, seja das imagens virtuosísticas, seja dos cantos que modulam todo o filme.
Quebradeiras foi produzido com recursos do edital Etnodoc, que recentemente divulgou os resultados de sua segunda seleção. Veja o trailer:
Facebook contra Bonequinho
abril 11th, 2012 § 12 Comentários
Um novo capítulo nas relações entre crítica, exibição cinematográfica e redes sociais pode estar sendo escrito agora mesmo aqui no Rio. Estreou na última sexta-feira o filme chileno A Vida dos Peixes, de Matías Bize. A crítica Susana Schild atribuiu-lhe um Bonequinho dormindo em O Globo e um texto inspirado em que tirava sarro com as deficiências do longa. Inconformado com o que considerava uma apreciação injusta, Marcelo França Mendes, diretor do Grupo Estação, que distribui e exibe o filme, lançou uma “promoção” no Facebook, convidando seus 705 amigos a verem o filme de graça. Só pedia aos que gostassem que recomendassem a seus amigos. No dia seguinte, mesmo dizendo correr o risco de ser “internado” pelos seus sócios, ampliou a oferta, a pedidos. Os amigos dos amigos poderiam pagar meia entrada.
A tentativa de “salvar” um lançamento através da rede social parece cabível numa cidade dominada por um único jornal. É claro que existem filmes impermeáveis à opinião crítica, seja ela qual for. Mas a grande maioria, como A Vida dos Peixes, depende muito dessa valoração para ter uma carreira razoável. Em casos como esse, o Bonequinho de O Globo pode ser um ícone cruel. Mais do que estrelinhas, carinhas sorrindo ou chorando, dedos para cima ou para baixo (ou mesmo “ourinhos”, como neste blog), o boneco induz o leitor a supor uma determinada atitude diante do filme. Sair do cinema, dormir ou aplaudir são gestos peremptórios, que não admitem gradação. Em épocas como agora, quando estão em cartaz vários filmes com boneco aplaudindo de pé, o público acaba concentrando nesses sua preferência, e quase nada sobra para os demais.
Minha amiga Susana Schild cumpriu seu papel dignamente. Do que ela escreveu, nada pode ser frontalmente contestado. Mesmo assim, é preciso admitir que se pode estabelecer outra relação com o filme. Se o início parece de fato aborrecido e desinteressante, quem se dispuser a entrar no jogo de Matías Bize pode até se emocionar com a meia-hora final. Um dos aspectos em que discordo ligeiramente de Susana é quanto à inexpressividade do ator Santiago Cabrera. O rapaz não é mesmo nenhum Ryan Gosling, mas acho que sua apatia tem uma função: além de expressar um traço coerente do personagem, reforça o fato de ele ser um mero dispositivo de narrativa. O que Andrés mais (e melhor) faz é ouvir. Assim, atua como avatar do espectador para receber os dados da trama. Nesta, nem tudo faz muito sentido, como o tal trauma no seu passado. Mas os ecos da relação com Beatriz e o suspense em torno do encontro alimentaram meu interesse em boa parte do tempo.
A direção de Bize é eficaz, com excelente aproveitamento de espaços exíguos (como em Na Cama) e um ótimo trabalho com o elenco. Branca Lewin, em seu monólogo central, é capaz de siderar o espectador que a ele (a ela) se entregar.
Enfim, não saí aplaudindo nem tive sono enquanto via A Vida dos Peixes. A diversidade de opiniões é um bem precioso. Uma crítica assinada é a opinião de uma pessoa (credenciada, às vezes, mas ainda assim um indivíduo). Sei, por exemplo, que esse filme escapou por pouco de receber uma cotação ainda pior de outro crítico de O Globo. O que importa discutir não é esta ou aquela opinião, mas a hegemonia do Bonequinho, no nível em que se dá hoje. Isso, sim, é uma distorção do papel da crítica.
Quanto ao Facebook do Marcelo, foi um recurso elegante e inventivo. Gerou comentários engraçados, como o de Zé José (Eduardo Souza Lima): “Maravilha! De graça, até filme chileno”. Se der certo e a coisa pegar, quem sabe as próximas promoções vão incluir o pão de queijo.
A hora da verdade
abril 10th, 2012 § 1 Comentário
Esta quinta-feira, 12 de abril, será o Dia da Verdade no Brasil. O Supremo Tribunal Federal julgará a ação da OAB sobre o cumprimento da sentença da Corte Interamericana de Direitos Humanos no caso Araguaia. Na mesma ação, decidirá se os crimes de desaparecimentos políticos estão abrigados pela lei de anistia e ficarão impunes. A sociedade civil está mobilizada para pedir aos ministros do STF que não deixem passar a oportunidade histórica de fazer justiça aos mortos pelo regime militar.
Um filme uruguaio que passou em mostra paralela do recente É Tudo Verdade dá um claro exemplo de como isso pode ser feito pelas vias da pressão popular, desde que haja um governo disposto a fazer a coisa certa. No Uruguai, por 30 anos um grupo organizado de familiares de desaparecidos políticos lutou para saber o que foi feito de seus entes queridos. Só no período 2005-2010, quando o socialista Tabaré Vasquez esteve no poder, foi que se conseguiu escavar, literalmente, o passado, localizar e exumar restos mortais enterrados clandestinamente pelas forças de repressão nos anos 1970.
El Cultivo de la Flor Invisible é o título um tanto alegórico do longa-metragem de estreia do jovem mas experiente Juan Alvarez Neme. Ele registrou passeatas, manifestações e o trabalho de arqueólogos na procura de restos em fazendas particulares e numa lagoa nas redondezas de Montevidéu. Sobretudo ouviu as mães de alguns desaparecidos e suas razões para persistir na busca de informações e, quando nada, dos ossos de seus filhos. Ou mesmo recusar-se a isso. Elas desfiam suas lembranças dos filhos, do pouco que sabem sobre as condições em que foram detidos e da imensa dor de, de uma hora para outra, nunca mais ter recebido qualquer notícia deles. São memórias para uso diário, para citar o belo título do doc de Beth Formaggini que tratou de tema semelhante junto ao grupo Tortura Nunca Mais no Brasil.
O doc de Neme é principalmente um filme sobre a vitória da luta e da perseverança. Aquelas senhoras e senhores são vistos em momentos de relativa conquista. Numa cena emocionante, eles se reúnem para assistir na TV a um comunicado decisivo de Tabaré Vásquez no sentido de proceder à localização dos corpos. De alguma forma, é como se víssemos um passo adiante na concretização do que está no filme de Beth e no extraordinário Nostalgia da Luz, de Patricio Guzmán. O diretor/roteirista conta com a inestimável colaboração de mulheres dotadas para o relato verbal e capazes de formar um espectro heterogêneo de motivações e experiências pessoais. Ou seja, embora haja um sentimento de grupo, há também uma riqueza de diferenças na forma como elas se posicionam frente ao passado e ao presente.
Outro aspecto forte do doc, embora tocado apenas superficialmente, é a colaboração entre as ditaduras argentina e uruguaia na prisão e repatriamento de ativistas – o que já vimos mais detalhadamente no brasileiro Condor, de Roberto Mader. Há apenas poucos anos descobriu-se que voos clandestinos transportavam de volta presos políticos uruguaios capturados em Buenos Aires. Eles eram levados para morrer “em casa”.
É curioso que ainda não tenha havido um sucedâneo dessa colaboração entre os governos de esquerda recentes na América do Sul para por fim a esse silêncio. Iniciativas como a de Tabaré Vásquez no Uruguai, o fim da lei da anistia na Argentina e a Comissão da Verdade brasileira poderiam se fortalecer se houvesse simultaneidade e coordenação. Numa escala pequena e simbólica, uma exibição mais ampla de El Cultivo de la Flor Invisible por aqui seria oportuna e benfazeja. O filme vai estrear no Uruguai em muito breve.
O ontem e o hoje nos docs musicais
abril 6th, 2012 § 7 Comentários
Ano que vem, mês que foi / É a mesma dança, meu boi
Os documentários sobre música são o maior filão do cinema brasileiro contemporâneo. Se não em matéria de bilheteria, pelo menos no que diz respeito ao interesse dos cineastas. Quando vemos veteranos como Nelson Pereira dos Santos e Vladimir Carvalho, realizadores de sucesso como Walter Carvalho e Pedro Bial, um diretor experiente como Marcelo Machado e relativos principiantes como Renato Terra e Ana Rieper se lançarem nessa seara em quase simultaneidade, é porque alguma coisa de importante e sedutor está acontecendo.
Fico especulando sobre o que tanto atrai nos documentários sobre música. Bem, para começo de conversa, este é o campo mais romântico da cultura brasileira. Romântico não no sentido de gênero, mas como fornecedor de histórias exemplares e personalidades exuberantes que atendem a um certo desejo de consumo das plateias. Com raras exceções, não há nada que se compare na literatura, no cinema, nas artes plásticas ou mesmo no teatro brasileiro. Docs sobre música têm uma dramaturgia que parte da vida mais ou menos exposta de seus personagens. Contam com flashbacks garantidos por conta dos registros de shows, entrevistas, filmes etc. E, ainda por cima, encontram a trilha sonora praticamente pronta.
A maioria desses filmes faz ainda dois nexos nada desprezíveis: da música com a História e com o cinema. Uma Noite em 67, Tropicália e Rock Brasília explicitam a relação com a História na medida em que se assumem como evocações de momentos definidores da moderna cultura brasileira. Jorge Mautner – O Filho do Holocausto, Raul – O Início, o Fim e o Meio e A Música Segundo Tom Jobim, embora se refiram a um determinado artista, têm a capacidade de plasmar, de diferentes formas, um certo espírito de época. Ao assisti-los, o espectador tem a sensação de experimentar um tipo de retorno, que é ao mesmo tempo vivência virtual e ensaio de compreensão.
As relações da música com o cinema são não apenas incorporadas no uso de materiais de arquivo, como também nos filmes em que se aventuravam diversos ícones da música, especialmente nos anos 1960 e 70. Em Mautner, conhecemos cenas impagáveis de O Demiurgo, filmado pelos tropicalistas no exílio londrino. Em Raul, somos apresentados ao ainda mais maldito Contatos Imediatos do 4º Graal, ensaio satanista da tal Sociedade Alternativa, de que Raul Seixas foi o principal divulgador. Tropicália, em sua grande colagem (procedimento tropicalista por excelência), inclui trechos de diversos filmes diretamente relacionados com o movimento. A biografia dos tropicalistas e adjacentes, por sinal, está cheia de cineastas bissextos ou abortados.
Vários desses filmes estão formando uma espécie de único grande filme sobre a música dos anos 1960 e 70, tal é a quantidade de sobreposições de personagens, entrevistados (Nelson Motta e Caetano Veloso à frente) e materiais de arquivo. Mas é justamente a proporção dos “filmes de ontem” dentro do “filme de hoje” que acaba por definir algumas variações nesse modelo mais ou menos cristalizado de doc musical brasileiro.
Um extremo desse espectro é ocupado pelo filme de Nelson sobre Tom, onde o “filme de hoje” resume-se à mera organização dos “filmes de ontem”, e assim mesmo só clipes de música. Não há entrevistas, nem revisitas, nem rememorações. O “hoje” é completamente apagado em benefício das performances já gravadas. Uma Noite em 67 também privilegiava os registros do festival pela TV, usando os depoimentos atuais como um making of oral retroativo. Ou seja, o “hoje” estava completamente a serviço do “ontem”.
Da mesma forma, Tropicália reduz o “hoje” a uma ilustração do “ontem”, na medida em que desloca quase todas as falas para o áudio, subjugadas à pletora de arquivos. Numa espécie de clipão dos pontos mais luminosos do movimento, o filme de Marcelo Machado emula até mesmo a estética tropicalista: remete as imagens do passado a uma estética do passado quando aplica videografismos baseados nos traços e cores da época.
Nessa dialética entre ontem e hoje, Mautner e Raul parecem os mais equilibrados. Jorge Mautner – o Filho do Holocausto, de Pedro Bial e Heitor D’Alincourt, conta com a presença vivíssima do protagonista e atualiza sua veia performática em cenas e show gravados especialmente para o filme.
A História, para Mautner, é uma velha dama com quem ele não se cansa de dançar. O doc faz, portanto, o confronto permanente do que foi e do que ainda é.
O caso de Raul – O Início, o Fim e o Meio é ainda mais curioso, já que Raul Seixas não está mais aqui para criar um presente. Este emerge nas figuras de seus sucessivos parceiros e companheiras. Tentar encontrar no Paulo Coelho de hoje, por exemplo, o que teria ficado do Paulo Coelho de ontem é um dos exercícios mais desafiadores para quem vê o filme. As lembranças das mulheres, por sua vez, pontuam com clareza a montanha-russa do que foi a breve vida do Maluco Beleza. A perseverança com que Walter Carvalho, nas entrevistas, tenta fazer as pessoas cantarem as músicas de Raul é outro dispositivo de atualização poética da obra.
Embora contenha razoáveis porções de “filmes de ontem” para mostrar o protagonista, Raul tem seus (ótimos) momentos em que o “filme de hoje” se impõe com autonomia e graça. Basta citar o episódio da mosca na conversa com Paulo Coelho – reparem que ele “mata” Raul simbolicamente –, o ex-cunhado que dá entrevista armado de revólver e as reações de Kika Seixas aos comentários da filha Vivi. Em casos assim, o fortuito de hoje não só representa um plus de entretenimento, mas também joga novas camadas de sentido ao que já virou História.
Cacá e seus “faróis”
abril 3rd, 2012 Comentários desativados
Começa hoje (terça) na Caixa Cultural-RJ a vasta programação da mostra Cacá Diegues, Cineasta do Brasil (veja o site com catálogo para download). Com curadoria de Silvia Oroz (autora do livro Carlos Diegues – Os Filmes que Não Filmei) e Breno Lira Gomes, a retrospectiva abrange curtas do início da carreira e outros materiais que nem Cacá imaginava que ainda existissem, como ele afirmou na abertura para convidados ontem à noite. Isso inclui, por exemplo, os docs A Oitava Bienal (1965) e Oito Universitários (1967) e o clipe Kamasutra, com Erasmo Carlos.
Cacá, ao comemorar 50 anos de cinema, é o penúltimo dos grandes diretores de sua geração a ser contemplado com uma mostra da obra praticamente completa no Rio. Falta agora Paulo César Saraceni.
Para contribuir no mapeamento da formação cinematográfica de Cacá, publico aqui os seus filmes-faróis, divulgados por ocasião da Mostra Faróis do Cinema no ano passado. Com a palavra, o “cineasta do Brasil”:
“Para quem faz cinema porque ama os filmes que viu, um cinéfilo antes de ser um cineasta, é muito complicado escolher apenas cinco filmes como faróis de minha vida e de minha prática cinematográficas. Meu amor pelo cinema foi iluminado por tantos faróis de tantas cores e intensidades, sinalizando tantas diferentes direções que deram e ainda vão dando o rumo de meu caminho, é dificil dizer quais foram os mais importantes . Mas vou tentar fazer um exercício aleatório de escolha, como quem joga conversa fora com coisa muito séria. E, embora até hoje eu veja filmes que me impressionam e me influenciam muito, vou ficar com citações que não passam dos anos 1970, uma homenagem à minha formação inaugural. Eis aí meus escolhidos.
1. Shadows, de John Cassavettes
Essa é minha homenagem aos “pequenos filmes” que fizeram a glória e a originalidade do cinema americano, o mais diverso do mundo. Podia ser também “Gun Crazy”, de Joseph H.Lewis, o barroco protestante chegando ao thriller. Ou “Make Way for Tomorrow”, de Leo McCarey, essa obra-prima dos sentimentos, doce e cruel instrumento de conhecimento do outro. Como podia ser “O Falcão Maltês”, de John Huston, ou qualquer outro desses filmes que, por pequenos, puderam ser roubados dos estúdios pelo talento de seus autores. “Shadows” é também uma homenagem à reinvenção do cinema, naquele final dos anos 1950, uma lembrança de “À Bout de Souffle”, de Jean-Luc Godard, ou “Prima della Rivoluzione”, de Bernardo Bertolucci. Ou ainda de “O Anjo Nasceu”, de Julio Bressane.
2. Rio 40 Graus, de Nelson Pereira dos Santos
Só quando vi esse filme, aos 16 anos de idade, comecei a acreditar que poderia vir a ser um cineasta brasileiro. As chanchadas me divertiam, mas no limite das paródias desengonçadas e quase sempre mal feitas. A Vera Cruz era um desastre de pretensão e chatice, do qual podia-se livrar a cara apenas de Alberto Cavalcanti e de alguma coisa de “O Cangaceiro”, de Lima Barreto, e de “Absolutamente Certo”, de Anselmo Duarte. “Rio 40 Graus” pensava o país e pensava o cinema, inventando um para o outro, tudo o que minha geração sonhara ser um dia possível. Depois dele, duas iluminações na minha vida no mesmo cinema brasileiro: “Bahia de Todos os Santos”, de Trigueirinho Neto, um filme visionário e estranhamente moderno, e “Terra em Transe”, de Glauber Rocha, o melhor filme brasileiro de todos os tempos.
3. French Cancan, de Jean Renoir.
Podia ser também “La Grande Illusion”, “La Règle du Jeu”, “La Marseillaise” ou “Le Carrosse d’Or”, outras obras-primas do mesmo autor, um dos pais do cinema moderno realista, humanista e poético, ao lado de F.W.Murnau e Roberto Rossellini. Os 20 minutos finais de “French Cancan”, totalmente dançados sem os artifícios de um balé rigoroso, mas com a grandeza de um baile da vida, é uma das mais belas expressões do que pode o cinema – eu queria fazer todos os meus filmes desse jeito! O cinema de Renoir anunciou muita coisa do que viria depois, da Nouvelle Vague francesa a todos os americanos que o conheceram em Hollywood, durante a Grande Guerra. Renoir, ele mesmo, no papel do ainda jovem Octave, em seu filme “A Regra do Jogo”, diz em cena a frase mais esclarecedora de toda a sua filmografia: “O insuportável na vida é que todo mundo tem razão”.
4. La Strada, de Federico Fellini.
Sei que seria mais “intelectual” e talvez mais respeitável citar outros filmes de Fellini, como “A Doce Vida”, quem sabe “Amarcord” ou sobretudo “Oito e Meio”, o filme querido de todos os cineastas. Mas “A Estrada da Vida” é um dos filmes que mais vejo até hoje e que me faz chorar francamente a cada vez que o vejo. Caetano Veloso diz, a propósito desse filme, que Fellini consegue o raro feito de ser “ao mesmo tempo sentimental, popular e grande artista”, uma coisa que não acontece nunca. Ou quase nunca. Um filme circense, por suas piruetas plásticas, pelo sentimentalismo dos personagens e pela dramaturgia populista assumida com tanta profundidade e dignidade. Esse céu, de onde Zampanó espera que lhe chegue alguma coisa, é o mesmo que traz à cena o magnífico corvo de “Uccelacci e Uccellini”, de Pier Paolo Pasolini, e a neve de meu “Bye Bye Brasil”.
5. The Godfather (trilogia), de Francis Ford Coppolla.
Comecei a lista com os pequenos e encerro-a com os grandes filmes americanos, um daqueles que o tornaram o segundo cinema nacional em todo lugar do mundo. Há cineastas que a gente admira e outros que a gente ama. Por exemplo, admiro muito Martin Scorsese, mas amo mesmo é Coppolla, com todos os seus gigantescos defeitos, seus equívocos tsunâmicos. “O Poderoso Chefão” é a melhor aula de história americana que o cinema podia dar desde “Cidadão Kane”, de Orson Welles, e desde os filmes de King Vidor e Elia Kazan. Um poema épico sobre a formação dos Estados Unidos e seus costumes característicos (política, ética, família, amizade, religião, essas coisas), contado com uma grandeza barroca irresistível”.
Como desenho na areia
abril 1st, 2012 Comentários desativados
É Tudo Verdade – Cinéfilos, não esperem grandes revelações do doc Carrière 250 Metros. Afora um encontro muito simpático com Milos Forman e alguns recuerdos de Buñuel, não há muitas reminiscências cinematográficas nessa viagem-memória do roteirista de tantas obras-primas. Em compensação, temos insights das múltiplas ocupações de Jean-Claude Carrière: o homem de teatro que fez parceria indestrutível com Peter Brook, o coletor de histórias que se compara a um coletor de borboletas, o viajante apaixonado que se empanturra da cultura de cada lugar, o filósofo dado a fábulas e narrativas mitológicas.
O filme de Juan Carlos Rulfo, filho do escritor mexicano Juan Rulfo, foi escrito por Carrière e é narrado por ele em primeira pessoa – ora em francês, ora em espanhol ou em inglês. Carrega, assim, a marca de um escritor que se deixa levar pela imaginação. O filme flutua com ele entre cenas familiares (sua atual esposa é iraniana), encontros com velhos amigos, visitas a locais de importância afetiva, conversas de rua e considerações nascidas do acaso. Vai à França, Espanha, México, EUA e Índia. Em filigrana podemos perceber um esboço de autobiografia, mas nada muito definido. Como as repetidas tentativas de Carrière de desenhar um Ganesha na areia da praia lambida pelas ondas, esse doc também se quer como conversa provisória, informal. E deliciosa.
O filme ainda passa hoje, domingo, às 20h, no Oi Futuro Ipanema.





















