Concórdia e o Vermelho

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Na fila à minha frente, no Teatro Sesc Ginástico, a senhorinha balançava a cabeça frequentemente, concordando com o que Antonio Fagundes, no papel do pintor Mark Rothko, dizia sobre o respeito necessário diante de uma obra de arte. Para facilitar, vamos chamá-la de Concórdia. Era tão entusiasmada sua adesão à fala cênica que às vezes ela não se contentava em apenas concordar com a cabeça, mas completava baixinho o que “Rothko” afirmava, ou mesmo tentava adiantar-se às palavras dele.

Na peça Vermelho, de John Logan, assistimos ao embate entre duas gerações e duas concepões sobre o lugar da arte no mundo. A ação se passa em 1958. Em seu ateliê nova-iorquino, Rothko, aos 53 anos, trava uma pequena batalha com seu jovem assistente, Ken (Bruno Fagundes). A primeira metade da peça é a afirmação, por Rothko, da pintura como coisa solene, que merece o tempo do pintor e do espectador. A arte, segundo ele, não é para ser bonita nem agradável, mas para tirar as pessoas do chão e fazê-las pensar. Justifica os murais que está fazendo para o restaurante Four Seasons com a intenção de “tirar o apetite” da alta burguesia que o frequentará. Da sua poltrona, Concórdia assente com a cabeça fervorosamente. Ela está com Rothko e não abre.

Mas eis que na segunda metade da peça a conversa se complica. Já há dois anos trabalhando com Rothko, Ken se rebela contra sua autoridade. Expõe a frustração do mestre com os novos tempos que empurram a arte para a vulgaridade pop. Afinal, diz Ken, nem todo mundo quer arte para arrebentar o peito. As pessoas querem viver, se divertir com as latas de sopa de Andy Warhol e os quadrinhos enormes de Roy Lichtenstein. Se Rothko um dia pisoteou os cubistas para cavar o seu lugar, agora é a vez dele ser pisoteado.

Para minha surpresa, lá estava Concórdia concordando a todo vapor com o jovem Ken. Sua cabeça, àquela altura, já dizia freneticamente “sim” ao que um e outro falavam. Ela estava possuída pelos dois lados daquela discussão. No fundo, Concórdia estava feliz por ouvir tanta coisa com a qual podia ou devia concordar.

Fiquei pensando que Vermelho é justamente esse tipo de espetáculo feito para que as pessoas concordem com tudo. No fundo, quase não é uma peça, mas um debate de ideias disfarçado de duelo teatral. Não há dramaturgia propriamente, mas uma contínua exposição de ideias, monólogos alternados a respeito de lugares comuns da discussão “Artística”. Concórdia deve ter saído exausta de tanto concordar, mas também sorridente com sua capacidade de seguir a discussão direitinho e achar que, no fundo, todos têm razão.

Vermelho fornece uma noitada apaziguadora no seu didatismo bem representado. Saindo dali, Concórdia certamente leu cada linha do programa da peça, que se compõe de verbetes enciclopédicos sobre expressionismo abstrato, cubismo, pop art, Michelangelo, Caravaggio, Rembrandt, Turner, Matisse e Nietzsche. Uma espécie de glosário das referências mencionadas no palco. Complemento perfeito para uma feel good play empenhada em ensinar alguma coisa pela pedagogia do teatro.