Herói da resistência cinematequeira

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Católico e comunista, filho de magnata e ativista de esquerda, manauara e cidadão do mundo, cinéfilo de lobby de cinema, agitador cultural pachorrento… As antíteses se acumulam no perfil de Cosme Alves Neto (1937-1996), o lendário Henri Langlois brasileiro. Parecia impossível que um filme pudesse dar conta de tão rico personagem. Parecia até agora, quando é lançado o documentário Tudo por Amor ao Cinema, de Aurélio Michiles.

Performances conceituais, depoimentos e um tesouro em materiais de arquivo recontam a história de Cosme, de sua infância em Manaus e sua formação cercado de padres até a última entrevista, concedida a Antonio Abujamra quatro dias antes de morrer. Lá estão suas facetas de conservador de filmes, programador, promotor de intercâmbio entre cinematecas, viabilizador de projetos e driblador da censura. Para muita gente será ainda surpresa conhecer detalhes de sua biografia, como a juventude piedosa nas igrejas ou a “expropriação” de recursos das empresas do pai para manter um cineclube no Rio. Ou ainda a militância política que o levou a ser preso duas vezes e torturado barbaramente.

O filme de Michiles elegeu dois fluxos narrativos principais: a contação de causos e a ilustração com cenas de filmes. Afinal, trata-se de uma história de cinema. Nisso se destaca a pesquisa de materiais documentais e fragmentos de filmes de ficção que ajudam a costurar relatos verídicos, trabalho levado a cabo por Michiles e o pesquisador Remier Lion Rocha. À exceção de um esdrúxulo plano do Copacabana Palace quando alguém se refere ao Hotel Serrador e uma temerosa tomada de Mangaratiba em Limite para ilustrar a praia do Flamengo, não vi nada que não estivesse poeticamente justificado nos materiais de arquivo. A conexão entre pesquisa de imagem e montagem tem aqui alguns exemplos que merecem ser estudados em aulas de cinema. Um deles é o depoimento de Geraldo Moraes a respeito da primeira prisão de Cosme, quando algo sensacional ocorreu com sua caderneta de endereços. A fala de Geraldo é entrecortada por flashes de Pickpocket e outros filmes, gerando não só a imersão do espectador como um mix de suspense e humor que faz toda a diferença.

O humor, aliás, é permanente, inclusive na maneira como as pessoas se recordam de Cosme. Isso reflete a personalidade do biografado e a imagem que dele ficou entre os que o conheceram. Talvez resida aí a maior virtude do filme: estar de acordo com o espírito do seu personagem. Mas isso não seria bastante se a estrutura montada não fosse tão feliz. Os temas evoluem com naturalidade, mesclando documentação e comentário de modo orgânico e inspirado. O tratamento sonoro é criativo na medida adequada e a trilha musical ajuda a criar camadas de significação. A interveniência de Cosme na criação do FestRio é um dos poucos momentos importantes de sua carreira que não entraram na edição final.

De resto, o desafio está vencido com galhardia. O “faraó” do cinema, o “soberano chinês” (comparação visual feita por Eduardo Coutinho), o charuteiro de guayabera, o nosso herói da resistência cinematequeira já tem seu retrato em movimento.

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