Um castelo de curtas

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Notas sobre os filmes brasileiros do 26º Festival Internacional de Curtas de SP

Uma câmera silenciosa explora as dependências de um condomínio de luxo em São Paulo como se enfocasse uma fortaleza medieval. A começar pelo “fosso” (as muralhas que o cercam do resto da cidade), seguido do “salão” (um shopping center que ocupa os pisos inferiores) e da “torre” (os prédios residenciais com suas piscinas, aposentos requintados e varandas espetaculares). As imagens de O Castelo, vencedor do Prêmio Itamaraty no 26° Festival Internacional de Curtas de SP,  não mostram nenhum morador ou consumidor do Condominio Cidade Jardim, mas tão-somente faxineiros, seguranças, babás e outros empregados. Até aí temos apenas a exposição de uma camada privilegiada da sociedade e sua virtual ausência no cenário. Os sinais de ostentação estão lá, mas não vemos quem deles usufrui. Em si, essa conduta do filme já evidencia o abismo social brasileiro sem proferir uma palavra sequer nem produzir contrastes mais óbvios.

Mas então o filme de Helena Ungaretti, Guilherme Giufrida, Alexandre Wahrhaftig e Miguel Ramos oferece sua virada fundamental. O último módulo, intitulado “O levante”, repassa algumas tomadas já vistas, recorta-as e traz outras novas em que as ações de rotina dos empregados ganham um sentido inquietante, conspiratório. Essa piscadela de ironia, que envenena as imagens “inocentes” captadas pela câmera, coloca o filme numa estranha fronteira entre a manipulação lúdica da linguagem cinematográfica e a proposição política.

O júri composto por Shane Smith, do Festival de Toronto, Mário Micaelo, do Festival de Curtas de Vila do Conde (Portugal), e por mim emitiu a seguinte justificativa para a premiação:

“Por expor desigualdades da sociedade brasileira mediante o uso revelador das imagens e sem qualquer retórica, além de insinuar a sublevação silenciosa que pode ameaçar a solidez das fortalezas”.

Outro documentário criativo e sem palavras, Filme Som, mereceu uma menção especial do júri “por sua apropriação de ícones da metrópole para iluminar, em brilhante sinestesia cinematográfica, o trabalho de um artista dos sons”. De maneira extremamente dinâmica, às vezes vertiginosa, os diretores Cesar Gananian e Alexandre Moura constroem paralelos entre a manipulação de instrumentos criados por Roberto Michelino e a movimentação urbana de São Paulo. Documentário, performance sonora e ensaio rítmico se mesclam com grande habilidade. Como resultado, eis um filme em que literalmente ouvimos as imagens e vemos os sons.

As escolhas do júri foram limitadas pelo regulamento específico do Prêmio Itamaraty, equivalente a 20 mil reais. Só concorrem filmes de até 15 minutos e que tenham emitido o seu Certificado de Produto Brasileiro. Isso deixou de fora diversos títulos de alta qualidade, o que não significa necessariamente que deles saísse um vencedor.

A opção de curadoria do festival aposta no risco e na busca – o que, naturalmente, gera uma grande irregularidade no panorama apresentado. Em muitos casos, à energia da realização não correspondia um argumento interessante. Em outros, ocorria o contrário: uma boa ideia era desperdiçada por um desenvolvimento insatisfatório ou um tratamento claudicante. Problemas de ritmo, foco dramatúrgico e storyline denunciam os limites do mero voluntarismo e a inexperiência tomada como virtude.

No entanto, foram muitos os filmes que eu particularmente apreciei. Listo abaixo alguns deles.

Another Empty Space, de David de Oliveira Pinheiro. Sugestiva experiência narrativa a partir da imaginação sobre a conversa não ouvida de um casal.

As Minas do Rap, de Juliana Vicente. Rápido e delicioso retrato de rappers brasileiras, feito com muito estilo. Sugere o rascunho de um belo longa.

Até a China, de Marão. Cartum hilário sobre a viagem do animador à China, com a verve irreverente de Marão assumindo a incorreção política etnográfica. Troféu CTAv

Boa Morte, de Débora de Oliveira. Fotofilme que veicula a visão íntima da diretora mineira a respeito de sua cidade natal e a presença da morte.

Chaplin SP, de Matias Vellutini. Simpática animação com stencils de Chaplin em muros da cidade.

Conversa, de Luciano Arturo Glavina. Com diálogo de Mario Benedetti, um casal argentino vive um inteligente e charmoso ritual de sedução numa mesa de bar.

Cumieira, de Diego Benevides. Operários da construção civil filmados de maneira original, com um epílogo de grande poder sugestivo que contraria a lógica capitalista.

De Profundis, de Isabela Cribari. Os traumas da realocação de uma cidade por conta de uma barragem inspiram uma bela meditação sobre a depressão e o desaparecimento.

Entre Céus, de Alice Jardim. Bonito ensaio sobre a visão dos viajantes holandeses do século XVI, com sobreposição de imagens das pinturas sobre as paisagens atuais.

Evo, de Renata Ferraz e Rubiane Maia. Estranha e onírica ficção sobre o encontro de duas mulheres. Borges, antes da cegueira, talvez assinasse esse filme.

Fluxos, de Diego Akel. Tema clássico da animação com massinha, a transformação incessante ganha aqui um exercício caprichado com música de Bach.

João Batista, de Rodrigo Rezende Meireles. Apesar de um pouco longo, esse perfil não verbal de um operário e performer de rua tem força e simpatia. Prêmio Canal Brasil.

Karioka, de Takumã Kuikuro. A viagem de uma familia indígena do Xingu ao Rio de Janeiro é narrada com a subjetividade particular dos protagonistas.

Miss & Grubs, de Jonas de Faria Brandão e Camila Kamimura. Animação requintada, especialmente no quesito direção de arte, com storyline forte sobre os aspectos obscuros da amizade.

Mobios, de Carlos Eduardo Nogueira. Mais um trabalho exuberante desse animador, desenhos fascinantes e vertiginosos, que só pecam pelo excesso e a aparência de portfólio. Troféu ABCA.

Muros, de Camele Queiroz e Fabricio Ramos. Embora um tanto longo e dispersivo, o paralelo entre uma favela de Salvador e campos de refugiados palestinos faz um elogio do olhar fotográfico.

No Devagar Depressa dos Tempos, de Eliza Capai. Flagrantes de Guaribas, cidade-piloto do Bolsa Família, um microcosmo das mudanças do Brasil profundo. Um filme para esfregar na cara dos coxinhas.

O Melhor Som do Mundo, de Pedro Paulo de Andrade. Curta de temática infantil extremamente bem escrito, dirigido e interpretado, e que estimula a criatividade das crianças.

O Teto Sobre Nós, de Bruno Carboni. A influência de Pedro Costa é determinante nessa história ficcional rodada no ambiente de um prédio ocupado em Porto Alegre.

Outubro Acabou, de Miguel Seabra Lopes e Karen Akerman. O casal de diretores encena a iniciação de seu filho no cinema com muita graça e perspicácia.

Pequena Aldeia, de Priscilla Pomerantzeff e Luciana Nanci. Interessante observação da Praça Roosevelt, com bom uso da captação sonora.

Quintal, de André Novais Oliveira. Comédia absurda em que o diretor volta a escalar seus pais em papéis surpreendentes. Ficção científica, filme pornô, academia de ginástica e um político corrupto.

Retrato de Carmen D., de Isabel Joffily. Arriscada, mas intrigante imersão em duas personalidades especiais. Um legítimo Grey Gardens brasileiro. Prêmio Canal Curta! e Porta Curtas.

Ruby, de Luciano Scherer, Guilherme Soster e Jorge Loureiro. Perfil de um jovem pintor uruguaio. Um persongem insólito filmado de maneira poética e inesquecível.

Sem Titulo #1: Dance of Leitfossil, de Carlos Adriano. Mais uma pérola de reapropriação cinematográfica do realizador. Fred Astaire e Ginger Rogers desembarcam gloriosamente no fado.

Um Dia, de Ângelo Defanti. O deputado Marcelo Freixo tem um dia de trabalho acompanhado por uma câmera e microfones bem atentos.

Um Homem Satisfeito, de Bruno Cucio e Cris Lyra. Um bom ator e um notável senso de espacilidade urbana compensam uma certa ingenuidade dessa ficção.

Uma Família Ilustre, de Beth Formaggini. Em documento impressionante, diante de fotos de suas vítimas, um executor e incinerador de corpos na ditadura confessa seus crimes.

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