YES
Yes chama atenção, antes de tudo, por ser o primeiro filme israelense realizado depois e referente aos ataques do Hamas e a invasão de Gaza. Pelo menos, o primeiro a ter boa circulação no mercado internacional (esteve na Quinzena dos Cineastas de Cannes). Tem cenas filmadas nas ruas de Tel Aviv e capta um pouco do clima de comoção que tomou o país em outubro de 2023.
O foco do diretor e roteirista Nadav Lapid, porém, está na alta burguesia que levava adiante sua “boa vida” (esse é o título da primeira parte do filme) à revelia dos acontecimentos. É ali onde atuam o músico Y (Ariel Bronz) e sua mulher, a bailarina Yasmin (Efrat Dor), animando festas e prestando serviços sexuais. De vez em quando, recebem no celular informações sobre a matança de palestinos em Gaza.
Y tem um lema típíco do conformista: “submissão é felicidade”. Dizer “sim” para ele é sempre o melhor caminho. Seu nome é simplesmente a primeira letra de Yes. E mais uma vez ele é instado a dizer sim quando o convidam a colocar música em um novo hino para estimular “os bravos soldados da T’sahar” a exterminarem o inimigo. A letra do hino associa demagogicamente o Hamas à suástica.
A história real desse hino está por trás do argumento de Nadav Lapid. Em 2023, os versos de um antigo hino israelense foram adulterados para celebrar a vingança contra Gaza. O vídeo infame de um coral infantil foi publicado pelo grupo The Civil Front e reproduzido em Yes com os olhos das crianças tapados para evitar a identificação.
Yes ensaia uma crítica às canções patrióticas, ao poder econômico que sustenta o belicismo israelense e à convicção de que Israel é uma boa terra, de boa gente. O protagonista é um homem com algum senso de moral, mas que deixa seu interesse financeiro falar mais alto. É especialmente sintomática de seu caráter a cena em que ele sobe a “Colina do Amor” e faz sua catarse privada diante da paisagem de Gaza sendo bombardeada ao longe (foto acima). O lugar tornou-se ponto de turismo mórbido para sionistas sem escrúpulos.
Yasmin, por sua vez, é quem verbaliza uma rejeição mais clara à situação, motivo de conflito no casal. Ela chega a dizer que “nenhum lugar é pior do que o lar”, numa alusão ao seu propósito de deixar Israel com o filho.
Nadav Lapid, israelense radicado na França e autor do badalado Sinônimos, é um cineasta com muito apetite autoral, mas de intenções sempre um tanto vagas na caracterização de seus personagens centrais. A primeira parte de Yes, encharcada de Love me Tender, lembra uma mescla das esquisitices de Yorgos Lanthimos com as sátiras políticas do romeno Radu Jude. Não satisfeito com a furiosa performance física de Ariel Bronz e Efrat Dor, dançando ou se esbofeteando, o diretor ainda faz sua câmera se agitar alucinadamente como se tivesse vida própria e participasse do frenesi. A sequência em que Leah (Naama Preis, esposa de Lapid), ex-namorada de Y, relata os horrores que presenciou no 7 de outubro é aditivada pela trepidação do carro. A mecânica dos veículos e dos equipamentos são os efeitos especiais de Lapid.
Digressões próximas do surrealismo incluem um nacionalista cujo rosto se transforma numa tela de vídeo e uma chuva de pedras que cai sobre Y como um pesadelo de autopunição. Tudo isso vem embalado num pacote que inclui transgressões bobas e dispersões narrativas que alongam o filme para além do necessário. Yes tem fome de cinema e não lhe faltam bons momentos, mas que ninguém espere uma condenação efetiva e sonante de Netanyahu e seu genocídio.
>> Yes está nos cinemas.





Pingback: O conformista de Tel Aviv – Agora é notícia