Duas mães, dois palhaços, dois fotógrafos

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Pílulas sobre MÃE SÓ HÁ UMA, CHOCOLATE e IMPROVÁVEL ENCONTRO

Inspirado, mas não baseado, no Caso Pedrinho, o roteiro de MÃE SÓ HÁ UMA não trata somente de uma mudança de identidade paterna, mas de uma alteração profunda de modo de vida. Pierre é um menino em deriva sexual, muito voltado para o próprio corpo, testando-se nas baladas e nas frestas da vida escolar. Subitamente, ele não apenas tem que reconhecer uma nova mãe e um inédito pai, mas principalmente é obrigado a participar de uma família de classe média paulistana careta. O novo irmão Joca encarna as demandas heteronormativas que ele também deveria partilhar doravante, com seu cortejo de esportes, roupas discretas, armários bem arrumados e fotos de família feliz.

A apatia reativa de Pierre cria em torno dele um vácuo dramático que serve para realçar o que Anna Muylaert quer de fato descrever: os outros. O que está em foco, na verdade, é a inépcia das pessoas em compreender o diferente e lidar com o trauma de um reencontro indesejado. A recalcitrância dos novos pais – para quem a androginia de Pierre/Felipe seria a concretização de um fracasso –, assim como a incompetência da assistente social e o perfil caricato do pai biológico da menina levam essa intenção do roteiro às bordas do estereótipo. Se não derrapam fatalmente, é pela qualidade da direção e das atuações, entre as quais destaco uma menos óbvia e exemplarmente sutil, a do menino Daniel Botelho no papel de Joca.

Na sessão em que vi o filme, passou o trailer de “Aquarius”. Fiquei pensando na iminente tentação de comparar esse novo filme de Kleber Mendonça Filho com o extraordinário “O Som ao Redor”. O mesmo se dá com Anna Muylaert em relação a “Que Horas Ela Volta”. As comparações são impróprias e desnecessárias. MÃE SÓ HÁ UMA é um bom filme que ratifica os cuidados de Anna com o detalhe e com o conjunto de sua encenação, sempre harmoniosa. Seu diálogo fluente com a plateia é um trunfo de que poucos diretores brasileiros desfrutam atualmente.

P.S. Aos 29 anos, o Pedrinho real é tudo ao contrário do que o Pierre do filme quer ser: advogado, casado, pai de um menino de dois anos, funcionário de um renomado escritório de advocacia, levando a vida de um típico cidadão de classe média da capital do país. Pratica corrida de rua, joga futebol com os amigos, sonha com a estabilidade do serviço público e se vira para dar conta das obrigações de pai de família e de trabalhador. Fonte: clique aqui



À medida que começa cada bloco narrativo de CHOCOLATE, é impossível não saber o que vem pela frente: o encontro entre Footit e Chocolat, o êxito da dupla de palhaços, a ascensão de Chocolat a celebridade, o interesse por mulheres brancas, a derrocada nos vícios, a tomada de consciência do racismo e de sua condição de astro subalterno, a ambição de virar ator shakespeareano, o melodramático ato final. Eis um filme inteiramente codificado pelos bons sentimentos e o aroma da denúncia social.

No contraponto com Chocolat está o branco Footit, algoz somente no palco, e que nos bastidores é um perdedor na tradição dos personagens de Chaplin, avô do ator James Thierrée, com quem guarda uma semelhança aflitiva no físico e no talento pantomímico. “Luzes da Ribalta”, aliás, não é estranho a todo esse projeto. Omar Sy, por sua vez, vai se consolidando como o “bon noir” do cinema francês.

Os atores são o grande trunfo do filme de Roschdy Zem. De resto, a disposição para gerar entretenimento ininterrupto envolve o espectador numa constante atmosfera de espetáculo e dissimula o esquematismo com que a história é contada. Num dado momento, os Irmãos Lumière “aparecem” filmando a dupla no auge do sucesso e o resultado real é mostrado nos créditos finais. Parecem bem mais modestos que Sy e Thierré.



O curta IMPROVÁVEL ENCONTRO – FRENTE E VERSO, de Lauro Escorel, está sendo exibido aos sábados e domingos, sempre às 13h, no Instituto Moreira Salles, como parte da exposição “Modernidades Fotográficas”. Em 24 elegantes minutos, o filme estabelece as sincronicidades entre os fotógrafos Thomas Farkas e José Medeiros, construídas numa longa amizade e a despeito das diferenças de estilo que aparentemente os distanciavam. O formalista e metódico Farkas, e o jornalístico e irreverente Medeiros, afinal, se encontravam nas entrelinhas do ofício. É muito bonita a forma como Lauro conduz essa “descoberta” pessoal e artística. E, de quebra, o filme ainda conta um pouco da história dos fotoclubes dos anos 1950 e 60, bem como do fotojornalismo nas revistas da época. Vale a pena ver o filme e a exposição, sendo que esta reúne, além de Farkas e Medeiros, também trabalhos de Marcel Gautherot e Hans Gunter Flieg.

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