Clara contra as escuridões

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O filme brasileiro do ano abriu ontem o Festival de Gramado e chega daqui a pouco aos cinemas bafejado pela polêmica: o protesto da equipe em Cannes contra o golpe político no Brasil; a censura para menores de 18 anos com cheiro de retaliação do Ministério da Justiça; a retirada de concorrentes e membros da comissão de escolha do representante brasileiro na disputa do Oscar. Aquarius ganha, assim, uma pátina política insuspeitada para quem esperava apenas a história de uma mulher que se recusa a vender seu apartamento para uma incorporadora imobiliária.

A estreia do filme pouco depois do provável impeachment agrega ainda a possibilidade de uma leitura política que – acredito – tampouco foi imaginada por seu realizador. Afinal, o que se conta é a história da resistência de uma mulher às pressões e manobras espúrias de uma elite econômica para retirá-la da casa que ocupa por legítimo direito.

Sem menosprezar esse viés interpretativo, prefiro, no entanto, enxergar o filme como um complexo e fascinante retrato de mulher. Se O Som ao Redor, centrado principalmente na relação entre o “coronel” urbano e o chefe da segurança, era um filme predominantemente masculino e, de certa forma, uma obra coral de múltiplas interveniências, Aquarius é um filme de eixo feminino bem definido, uma vez que todas as relações se estabelecem com Clara (Sonia Braga), e só através dela o filme se constrói.

Clara é o fulcro das ações e também o ponto central de um eixo feminino maior que se estende da Tia Lúcia (Thaia Perez) no passado até a filha Ana Paula (Maeve Jinkings). O longo prólogo em 1980 insinua que Clara herdou da tia a fibra curtida nas duas décadas anteriores, marcadas por conquistas feministas. A figura da filha, por sua vez, indica uma ruptura em favor de ideais mais maleáveis, ligados ao bem-estar familiar e ao pragmatismo de uma contemporaneidade sem raízes. Ana Paula não mais mantém vínculos com o lugar da mãe e da tia-avó, representado em metonímia pela cômoda que a câmera enquadra de maneira recorrente.

Clara pode ser vista, ao mesmo tempo, como uma resistente e como uma conservadora. Sua ligação com o apartamento, os vinis inseparáveis e a amizade com o salva-vidas são índices de um apego a hábitos e tradições. Não deixa de ser um sinal dos tempos o fato de que esse comportamento desponte hoje como arma de luta contra o progressismo dilapidador e as ofensivas hostis do capital corporativo. Clara não empunha bandeiras, mas apenas coloca-se como uma reserva moral contra tais avanços.

Kleber Mendonça Filho cuidou para que Clara não parecesse apenas uma ativista individual. A personagem se expande para tocar em toda uma gama de questões do feminino, que abrange a maturidade, o amor, o sexo, as amizades e as domesticidades. Clara é, antes de tudo, um corpo em contato com o mundo. O cabelo codifica uma série de atitudes, seja no “joãozinho” da juventude pós-quimioterapia, seja no frequente manusear da juba diante das emoções e surpresas de depois. Não é difícil imaginar o quanto da própria Sonia Braga há em Clara, a partir da exposição, no corpo, das marcas do seu tempo, como canta Taiguara.

Entre sonhos e breves devaneios, Clara lida principalmente com a matéria bruta do cotidiano, aí incluída a busca de prazer. O flerte no baile e a irrupção do desejo depois que ela testemunha um certo acontecimento no edifício são exemplos de uma condição feminina exposta a decepções e contradições. Tudo o que acontece no prédio ameaçado, no qual ela se finca como última e única moradora, repercute em seu estado emocional. Esse tipo de repercussão do entorno nas individualidades já havia gerado alguns dos melhores momentos de O Som ao Redor, e o mesmo acontece em Aquarius.

Em torno da clara Clara espalham-se as escuridões da arrogância empresarial, do racismo, do império evangélico e das entranhas políticas de um Brasil urbano com alma de rural. Nesses aspectos, Aquarius faz coro ao que eu chamo de cineantropologia pernambucana. Remete à vertiginosa verticalização de Recife, à ambígua relação entre patrões e empregados e à virulência dos contatos sociais, em que mesmo disputas banais se dão num clima de ameaça e violência. Um dos talentos especiais de Kleber, desde seus curtas, é o de forjar calores de thriller em ambientes prosaicos e fazer do onírico matéria de suspense.

Aquarius transpira Recife abundantemente. Os bairros de Boa Viagem, Pina, Brasília Teimosa e as pontes sobre o Capibaribe despejam sua cor local juntamente com os falares e a direção de arte, numa contagiante sugestão da atmosfera da cidade. Nos interiores, o grande papel dramatúrgico é das portas, que protagonizam todos os momentos culminantes de intromissão, repulsa, resistência, voyeurismo, acolhimento e revelação.

A segurança da direção, responsável pelo conjunto harmonioso dos diversos níveis em que a história é contada (diálogos, músicas, impregnações visuais, linguagem corporal), não impede, contudo, que o filme por vezes pareça alongar demais algumas situações e rodar num mesmo ponto sem avanço. Entre as interferências de climas à primeira vista desconexos, mas que logo se explicam pela via do inconsciente, o episódio da suspeita de roubo pela antiga empregada me bateu mais como concessão a um tema “compulsório” do que uma necessidade real da narrativa.

Sonia Braga, em que pese sua entrega visceral ao papel e a carga de verdade que aporta, tem alguma dificuldade em matizar o personagem. Sua inflexão sempre pausada e sobranceira nos impede de conviver melhor com as nuances e complexidades da personagem. Ainda assim, a convicção que perpassa todo o filme suplanta eventuais vulnerabilidades e se impõe para fazer de Aquarius uma experiência imersiva e um libelo poderoso contra o vale-tudo da pseudo-modernização.

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