Rappeneau e Tornatore, longe do seu melhor

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Um dilema tipicamente europeu está no centro de BELAS FAMÍLIAS: os vestígios de nobreza das “belles familles”, representados pela mansão dos Varennes no Vale do Loire, se chocam com o advento dos novos ricos, especuladores imobiliários engajados em interesses econômicos e políticos. Quando o filho mais velho dos Varennes (Mathieu Amalric) chega de seu emprego na China para visitar a mãe e a velha mansão colocada à venda, acaba abrindo o baú de segredos da família. Conhece detalhes da segunda vida do pai, já falecido, e uma beldade (a modelo e atriz Marine Vatch) que por pouco não é sua meio-irmã. Daí em diante, as linhas do destino da casa e dos afetos dos personagens vão se cruzar inapelavelmente.

Jean-Paul Rappeneau (“Cyrano de Bergerac”) é um diretor de poucos filmes que sempre tentam combinar autoralidade e comercialismo. Para escrever BELAS FAMÍLIAS, consta que ele se baseou em episódios de sua história familiar e chamou os filhos Julien para colaborar no roteiro e Martin para fazer a trilha musical. Ainda assim, o que prevalece é a fórmula de consumo rápido, onde tudo favorece os bons propósitos e as soluções amáveis. Os pontos de inflexão da narrativa parecem seguir o progressivo e controlado desnudar da perfeitinha Marine Vatch, muito embora a personagem não revele qualquer carisma especial. O estilo acelerado – todos correm e falam velozmente o tempo todo – não disfarça a morosidade burocrática da história, mesmo na esfera dos sentimentos. A superação do ciúme e das mágoas do passado é um signo da suposta elegância europeia, que resiste junto com as velhas mansões em meio à assepsia das novas casas pré-fabricadas.



Não é o tipo de gracinha que eu costume fazer, mas não resisto a dizer que LEMBRANÇAS DE UM AMOR ETERNO deveria se chamar “Lambanças de um Amor Eterno”. Giuseppe Tornatore continua tentando em vão repetir a fórmula de “Cinema Paradiso”, composta de uma relação afetiva cortada a meio tempo, a recuperação de uma memória através do resgate de fragmentos de filmes, uma adorável cidadezinha italiana, etc. Só que aqui a mediocridade domina completamente a história da paixão de um professor de Astrofísica por uma aluna, interrompida pela morte dele, mas prolongada por uma série de mensagens, cartas e encomendas deixadas para depois de sua morte. Assim é que nos deparamos com os diálogos metafóricos mais bregas do ano (“Você é uma galáxia cheia de estrelas desconhecidas”, por exemplo) e com banalidades de roteiro que lembram fotonovelas antigas.

O potencial romântico do amor post-mortem se esvai numa sucessão infinita de bilhetes e videomensagens desenxabidas, que nem o charme de Jeremy Irons consegue aquecer. Olga Kurylenko se desmancha em lágrimas a cada dez minutos, sem que a plateia a acompanhe na choradeira. Não falta o psicologismo barato para explicar por que a moça trabalha como dublê de cenas de ação. Para piorar um pouco as coisas, chega-se bem próximo de um contato espiritual através de sinais da natureza. Se a morte do amante fosse um segredo revelado tardiamente, em vez de no início do filme, talvez tivéssemos um thriller interessante, nos moldes de “O Sexto Sentido”. Mas não é o caso. Num raro insight autorreflexivo, um personagem compara aquela história a “um romance de ficção científica de segunda”. Foi elogioso. Eu diria de quinta.