É Tudo Verdade: Paris é uma Festa

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O título e as primeiras imagens do documentário destilam ironia a respeito de uma Paris idílica e esfuziante, a Cidade-Luz. Mas não demora muito para que essa ideia se desfaça diante dos flagrantes de miseráveis dormindo pelas calçadas, ruas cheias de soldados armados, colchões e tendas coalhando espaços públicos. Estamos no período de novembro de 2015 a abril de 2016, quando os parisienses choravam as vítimas dos atentados terroristas, jovens saíam às ruas em defesa dos refugiados e trabalhadores se insurgiam contra a reforma trabalhista de François Hollande. À semelhança de 1968, Paris estava nas barricadas.

Sylvain George, cineasta, escritor e poeta, faz cinema militante experimental de alta combustão. Para esse retrato de Paris, filmado quase inteiramente à noite e em preto e branco de baixa definição, ele registrou diversos aspectos do que tensionava a cidade. Um acampamento de refugiados é desmontado pela polícia, manifestantes se confrontam com policiais em batalhas renhidas, das quais Sylvain filma também os restos deixados no asfalto. Sua câmera entrava no olho do furacão dos embates de rua com a agilidade e coragem típicas do midiativismo.

Mas o traço distintivo do seu cinema aparece nas experimentações à margem das ações coletivas. Sylvain tem um personagem individualizado, um imigrante da República da Guiné provido de talento particular para narrar sua aventura pessoal e fazer percussão vocal de hip hop. Jean Rouch teria construído uma ficção antropológica com ele. Sylvain limita-se a criar momentos de intimidade e uma bela sequência de abstração com suas mãos.

Com o intuito de forjar um discurso alegórico sobre a situação política, o filme usa as estátuas de Paris, uma cabeça de peixe, um campo de girassóis e espasmos de estroboscopia cujos significados permaneceram bastante obscuros para mim.

Sylvain dedicou o filme a Andrea Tonacci, a quem conheceu em 2015 no Festival Fronteira, em Goiânia, e sobre quem escreveu um artigo intitulado “Andrea Tonacci, o cinema da desordem e do infinito” (leia aqui, em francês). Uma afinidade no terreno comum da política e da invenção.