Gays em SP e cretinos na Bósnia

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O documentário SÃO PAULO EM HI-FI, de Lufe Steffen, em cartaz no Odeon, é um dossiê sobre a cena LGBT paulista dos anos 1970 aos 90. A história é contada por artistas transformistas, frequentadores de points gays e lésbicos, jornalistas e a empresária Elisa Mascaro, uma espécie de mãezona da turma. Em pauta, os locais de pegação, as boates e bares com seus dark rooms, a crônica da época nas páginas do jornal Lampião; e também os medos, as agressões homofóbicas, a repressão policial e a grande desilusão que foi a chegada da Aids. A “performance” dos entrevistados em suas falas garante o divertimento, especialmente se atentamos para a decoração armada como fundo de algumas entrevistas.

Esse álbum de memórias enfrenta, porém, duas grandes limitações. Uma formal, pois as únicas pausas nos depoimentos são feitas com fotos e cenas repetitivas de VHS de shows nas boates Medieval e Corintho, duas mecas das bichas, “sapas” e tavestis do período (uso aqui os termos de época) – cenas que mostram o fascínio dos performers pelas coreografias de Bob Fosse e da Broadway. A outra limitação é temática mesmo, uma vez que a abordagem não vai além do hedonismo e da nostalgia de um certo glamour. Um eventual sentido político e de comportamento social está fora do horizonte do filme e, aparentemente, da maioria de seus personagens.



Sobre UM DIA PERFEITO vamos direto ao ponto: é um filme cretino. Com o pretexto de descrever um dia na vida de uma equipe de ajuda humanitária na Guerra da Bósnia (1995), põe em cena uma pequena ONU de adultos infantilizados trocando piadas de gênero e rusgas amorosas. Usar o cenário da guerra, com seus cadáveres, famílias destroçadas e campos minados, como suporte para discutir a cor da calcinha da moça russa bonita ou fazer humor negro é praticamente uma afronta. “M.A.S.H.” fazia isso como demolição crítica do militarismo. Aqui não há mais que a rotina de marmanjos falando diálogos supostamente engraçadinhos, mas apenas pálidos e tediosos.

A missão da equipe naquele dia consiste em encontrar uma corda para retirar um corpo de um poço e proteger um garoto que ainda não sabe que perdeu os pais. Embora pareçam mais interessados na discussão de seus assuntinhos pessoais, eles enfrentam também o medo das explosões, a burocracia militar e as contradições dos costumes balcânicos. Em dados momentos, não se sabe quem está ajudando e quem está sendo ajudado. Isso até que poderia render um argumento interessante, mas a inércia narrativa e a busca do entretenimento barato põem tudo a perder. Benicio del Toro cansa qualquer admirador(a) com uma imutável expressão de gostosão cool, enquanto Tim Robbins consegue ser menos divertido do que um poste de jaqueta. É triste ver um diretor capaz como Fernando León de Aranoa (do excelente “Segunda-feira ao Sol” e do bom “Princesas”) cair nessa receita para o gosto “internacional”, leia-se americano.

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