Crônica dos anos de fogo

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Hoje (quinta, 8/12) faço o lançamento paulista do meu livro “Cinema de Fato – Anotações sobre Documentário”. É parte da programação da Mostra de Documentários Território Expandido. Às 19h, na Unibes Cultural (Rua Oscar Freire, 2500).

Logo em seguida, às 20h, haverá uma sessão do documentário Os Colonos (The Settlers), de Shimon Dotan (2016). Depois do filme, eu vou conduzir um bate-papo sobre seus temas e estratégias narrativas. Abaixo, um texto que preparei especialmente para o catálogo da mostra:

Fazer documentários sobre o conflito árabe-israelense é mais ou menos como caminhar em campo minado, especialmente quando se pretende penetrar no âmago das questões em vez de fazer libelos bem-intencionados. Shimon Dotan, um romeno que migrou para Israel em 1959 e serviu na elite da Marinha israelense, é um desses cineastas que querem encarar as feras de frente. The Settlers examina historicamente a questão das colônias estabelecidas nos territórios ocupados e conclui não com verdades ou desfechos definitivos, mas com novas indagações lançadas para o futuro.

Desde a primeira cena, querelas semânticas volta e meia dominam as entrevistas e a narração, esta na voz do próprio diretor. “Você é um colono? O que é um colono?”, pergunta Dotan a alguns entrevistados. Afinal, as áreas palestinas onde os colonos se estabeleceram são territórios ocupados ou territórios “liberados”? As ocupações representam o expansionismo israelense ou a recuperação de terras predestinadas ao povo judaico? A segregação entre árabes e colonos é um apartheid ou uma estratégia de proteção mútua? As palavras têm importância capital nessa guerra de posições entre a direita e a esquerda de Israel. Uma importância que, para os defensores das colônias, deriva da Bíblia, fonte de toda palavra. The Settlers, por sinal, é dividido em módulos cujos títulos são frases bíblicas.

O filme faz a crônica dos atos e discursos dos colonos desde que o Rabino Kook exortou seus seguidores a desobedecerem a partição da ONU em 1967 e ocuparem áreas destinadas aos palestinos. A desobediência civil passou, então, a ser a força motriz desse processo. Os primeiros se estabeleceram ao arrepio das leis do país. Dali em diante, uma farsa se estabeleceu: o governo fingia que proibia a instalação de novas colônias, mas admitia por baixo dos panos. Fazia de conta que pressionava, mas no fundo tolerava e aprovava a insubordinação. As exceções mais célebres a essa pantomima foram o congelamento de novas colônias por Yitzhak Rabin – o que lhe acarretaria o atentado fatal – e a demolição por Ariel Sharon daquelas instaladas na Faixa de Gaza.

Shimon Dotan fez um trabalho de fôlego ao ouvir líderes da implantação de grandes colônias, rabinos que cultivam a profecia fundadora, um organizador de atentados, comandantes militares e colonos comuns que expressam suas convicções com os pés cravados na terra. The Settlers é aquele tipo de documentário que parece estar em todos os lugares, dos sobrevoos de drones aos closes em rostos nos quais não sabemos se prevalece a fé ou o cinismo. Da forma como seleciona e edita o material, Dotan não precisa fazer discursos de demolição da ideologia fundamentalista que sustenta o projeto das colônias. As vozes mais radicais encarregam-se de se desautorizar, seja pelo extremismo, seja pela falta de razões geopolíticas por trás de seus argumentos. “O povo judaico tem a missão de trazer a luz da espiritualidade para o mundo”, diz um rabino em dado momento.

Assim é que o filme se constrói intelectualmente, e não emocionalmente. Entramos no território dos mecanismos mentais, das justificativas prosaicas ou absurdas para uma realidade conflituosa. Os principais motes de debate são expostos com clareza em toda a sua complexidade. Exemplo disso é a discussão entre os ditames do judaísmo e a democracia, que tantas vezes têm se chocado, fazendo das colônias o maior empecilho ao processo de paz no Oriente Médio. Outro insight fundamental é a frequência com que os ortodoxos expõem sua fé num devir judaico, segundo o qual tudo hoje é temporário: a falta de soberania israelense na Cisjordânia, a contestação palestina pela posse das terras e até mesmo o sistema democrático.

A evolução (ou permanência) das ideias em torno da ocupação é contada no documentário através de um extraordinário material de arquivo, que cobre a Guerra dos Seis Dias, a fundação de diversas colônias – entre as quais a mais dramática, de Hebron – e os principais conflitos da região. Em contraponto a essa competente historiografia audiovisual temos a atualidade das colônias, transformadas em fronteiras de oportunidade e impunidade para não somente ortodoxos, como outros tipos de aventureiros. Hoje são 400.000 pessoas vivendo em 225 colônias. The Settlers nos torna mais íntimos de suas vidas, suas obsessões e contradições.