ENTRELINHAS
Apesar de um tanto didático e sem grandes acréscimos ao que já se viu em termos de dramaturgia da ditadura civil-militar, Entrelinhas impressiona pela sua convicção, sobriedade e ótima fatura cinematográfica. O que também o distingue é se passar no Paraná, estado nem sempre lembrado quando se pensa em vítimas do regime militar. O filme se baseia na história real de duas estudantes curitibanas que sofreram nas mãos dos algozes do DOPS em 1970.
A universitária Elizabeth Franco Fortes já estava presa sob acusação de integrar a VAR-Palmares quando sua irmã mais nova, Ana Beatriz, de 18 anos, foi detida e interrogada a respeito da colaboração da UNE numa certa remessa de armas para militantes de esquerda em Foz do Iguaçu. Durante dez dias Ana foi torturada e presenciou torturas alheias sem que tivesse nada de importante para confessar.
Entrelinhas não é um filme fácil de se assistir, justamente porque é muito bem feito. À violência dos interrogadores se soma o dilema ético de Ana quando precisa inventar informações para salvar a si mesma ou outra pessoa. O roteiro é hábil na exposição dos mecanismos sinistros da repressão e na consciência da menina em situações-limite. Embora a atuação de Leandro Daniel na pele de um torturador seja aterrorizante, não temos aqui as caricaturas com que muitas vezes se retratam os ogros da ditadura. A frieza e a metodologia são ainda mais assustadoras e eficazes. “Estamos fazendo o nosso trabalho”, eis o bordão que justificava a barbárie.
Todos os personagens estão bem modulados, incluindo os pais das moças na busca desesperada pela filha desaparecida e um jovem fotógrafo que colabora com o DOPS e sustenta uma determinada expectativa do público ao longo de todo o filme. O elenco, encabeçado por Gabriela Freire como Ana, não deixa a credibilidade cair em nenhum momento.
A produção é caprichada, com boa direção de arte e o uso de veículos (sempre muito novinhos, infelizmente) e avião de época. Uma das cenas mais tensas e angustiantes se passa num sobrevoo das Cataratas do Iguaçu. Assim o diretor Guto Pasko exibe a parcela de contribuição do Paraná para os horrores dos anos de chumbo. São fatos que reverberam hoje no ultradireitismo da República de Curitiba.
>> Entrelinhas está nos cinemas.


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