ZÉ
Depois de O Mensageiro e Entrelinhas, Zé é o terceiro filme sobre o período da ditadura a ser lançado em apenas três semanas. Essa coincidência soa como um comentário a respeito dos riscos por que passamos dois anos atrás. De certa forma, Zé complementa os outros dois ao tematizar, sobretudo, os dilemas dos jovens que optavam pela clandestinidade para seguir na luta.
O mineiro José Carlos Novais da Mata Machado (1946-1973), estudante de direito e ativista da Ação Popular assassinado pelo DOI-Codi, foi um deles. O escritor cearense Samarone Lima colocou sua história em livro, que serviu de base para o longa de Rafael Conde.
Quando o filme começa, Zé (Caio Horowicz) acaba de sair de oito meses de cadeia e opta por ficar clandestino. Primeiro em Belo Horizonte, depois no Nordeste, onde atua na conscientização de lavradores e gente humilde. Vai em companhia de Madalena/Beth (Eduarda Fernandes), militante aguerrida que deseja criar seus filhos “para a Revolução”. Aí está um dos impasses trabalhados no filme. Na hora do aperto, quando o cerco da repressão se fecha, seria o caso de colocar as crianças sob a guarda dos avós burgueses ou mantê-las consigo na refrega?
Com enfoque intimista, Rafael Conde explora os temores e as estratégias do dia a dia na clandestinidade, já tão bem retratados no documentário experimental Clandestinos, de Patrícia Moran, ou na ficção Cabra-Cega, de Toni Venturi. Chega a hora em que desponta a tentação de arrumar um emprego convencional para o sustento da família ou de escapar para o exílio. Ou mesmo de questionar a escolha pela vida em esconderijos. Como saber em quem confiar, ainda que seja um irmão (Rafael Protzner) aparentemente disposto a ajudar?
Sem criar hierarquias, julgamentos, nem confrontações diretas, o filme coteja frequentemente a atuação dos militantes clandestinos com as discussões de uma esquerda puramente intelectual, com as preocupações dos pais esclarecidos de Zé e até com as rodinhas hippies que faziam outra forma de contestação, o desbunde.
Zé percorre essas questões com uma linguagem bastante direta, recorrendo às vezes a monólogos que dramatizam certos momentos. São cartas de Zé aos pais, aula ou discurso de seu pai professor (Gustavo Werneck) e mesmo pretensos diálogos compostos de solilóquios alternados. Uma dessas conversas reúne Zé e a militante Grauninha (Samantha Jones) numa densa e comovente troca de confidências idealistas. As interpretações nessa cena são cativantes.
>> Zé está nos cinemas.

