Melodrama nos palcos do kabuki

KOKUHO – O PREÇO DA PERFEIÇÃO 

Filmes guiados por uma teleologia são limitados por natureza. A garota que vai perseguir seu sonho, o homem que vai disputar um título, os estudantes que vão apresentar um espetáculo de fim de ano… Em Kokuho – O Preço da Perfeição (Kokuho), sabemos de antemão que um dos protagonistas vai galgar o posto de maior astro do teatro kabuki. Resta saber qual dos dois.

O filme que representou o Japão na disputa do Oscar de filme internacional e acabou sendo indicado para maquiagem e penteados é um grande sucesso de público no seu país. Lida com uma cara tradição artística nacional aplicada a um melodrama de matriz faustiana. Um grande mestre do kabuki treina seu filho para os palcos, mas fica fascinado por outro rapaz, filho de um chefe da Yakuza que é morto logo na primeira sequência. Ele o adota para instruir junto com o filho legítimo, que se vê postergado nas atenções do pai.

Mas as coisas não são tão simples quanto parecem. Afinal, Kokuho adota um modelo dramatúrgico parecido com o do kabuki, em que a psicologia não conta muito. Assim como um ator se converte em outra pessoa com a simples e rápida mudança de roupa, também os personagens mudam de temperamento e de estado afetivo de uma sequência para outra.

A saga de Kikuo e Shunsuke percorre cinco décadas, de 1964 a 2014 e requer atenção do espectador para acompanhar as oscilações. Eles se especializam em papéis femininos (onnagata), tradição que vem do século XVII, quando as mulheres foram banidas do kabuki. Cria-se uma dicotomia entre a herança de sangue de Shunsuke, filho do superastro, e a dedicação obsessiva de Kikuo, o aprendiz que veio de fora. Kikuo afirma ter feito um pacto com o diabo em busca do máximo sucesso, que equivale a se transformar num Kokuhô (tesouro nacional). Será cancelado como ladrão de título, enquanto Shunsuke precisará superar seu complexo de inferioridade. Alternam-se os tempos de rivalidade e de companheirismo à beira de uma relação homoafetiva.

O filme é longo e tem subplots familiares que não se esclarecem bem. Ainda assim, somos levados pela excelência da realização e a curiosidade a respeito dos ritos e do esquema extremamente codificado do kabuki. Não faltam cenas teatrais em belíssimos palcos, com atores traquejados na performance das danças e cantos. Cada peça apresentada recebe um pequeno resumo explicativo, o que vale como uma introdução à dramaturgia do gênero. Pena que a montagem às vezes apressada corte o fluxo de algumas encenações e nos roube um pouco do prazer dos movimentos.

>> Kokuho – O Preço da Perfeição está nos cinemas. 

Deixe uma resposta