A vida depois do golpe

É Tudo Verdade: DIÁRIOS DE MIANMAR

A primeira cena de Diários de Mianmar já correu o mundo antes do filme. No dia 1º de fevereiro de 2021, uma mulher fazia dança aeróbica inocentemente num palquinho de rua enquanto atrás dela uma caravana de SUVs se aproximava do Parlamento em Naipidau, a capital de Mianmar. Era o início do golpe de estado que mergulharia a antiga Birmânia em mais uma onda de terror militarizado. A história recente do país é uma sucessão de interrupções da democracia para longos anos de regime militar.

No ano passado, além de prender o presidente e as principais autoridades do governo eleito dois meses antes, os golpistas impuseram a lei marcial, bloquearam redes sociais e, diante dos primeiros protestos, mataram mais de 1500 pessoas e detiveram mais de 9.000. Um pequeno grupo de ativistas e cineastas registraram, como podiam, a vida depois do golpe. Diários de Mianmar (Myanmar Diaries) reúne uma variedade desses registros e os combina com vinhetas de ficção.

As imagens documentais são brutais, sobretudo pela tensão embutida nas filmagens de celulares através de janelas entreabertas. Espancamentos de rua, panelaços e protestos chegam crus à tela. Uma mulher admoesta, maternal mas desafiadoramente, os soldados enfileirados em caminhões da repressão. Filhos imploram que os militares não arranquem seus pais de casa para levá-los sabe-se lá para onde.

As separações de entes queridos são o eixo central do filme. Aí se inserem os trechos de ficção. Num deles, um rapaz deixa o emprego para aderir ao Movimento de Desobediência Civil. Em outro, uma moça viaja para Bangkok como se saísse do inferno. Uma mulher é morta nas manifestações e reaparece como uma sombra ao companheiro, que se despede de uma peça de roupa íntima dela antes de cometer suicídio. Há, ainda, mais uma indicação de suicídio pela perda da pessoa amada e o caso de uma moça que fica grávida e hesita em contar ao namorado, que está de partida em fuga para a selva – lá onde um grupo de pessoas é treinada para a guerrilha, em flagrante inferioridade às forças militares.

Filmado, editado e distribuído clandestinamente, Diários de Mianmar não tem créditos pessoais. É assinado pelo Myanmar Film Collective. Os personagens ficcionais não são identificados visualmente. Disso resulta um certo caráter impressionista, realçado por uma série de situações apenas insinuadas, sem contornos bem definidos. Sua importância vem principalmente do fato de ter sido feito em condições de risco absoluto. Portar um celular numa daquelas manifestações podia equivaler a uma sentença de morte.

O filme ganhou os prêmios de melhor documentário na mostra Panorama e da Anistia Internacional no Festival de Berlim deste ano. Uma curiosidade: o sinal de protesto com três dedos erguidos foi inspirado pela franquia hollywoodiana Jogos Vorazes. De onde menos se espera…  

Exibição:
02/04 – 13h – online: É Tudo Verdade Play – Limite de 1500 visionamentos

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