A saga dos “vermelhos”

É Tudo Verdade: A HISTÓRIA DA GUERRA CIVIL, de Dziga Vertov

Leon Trotsky

Assistir a essa raridade hoje, enquanto a Rússia tenta dominar militarmente a Ucrânia, é uma experiência pouco comum. Em 1921, Dziga Vertov reuniu fragmentos filmados por sua equipe durante os três anos anteriores, quando o Exército Vermelho combateu os “brancos” (a oposição interna) para consolidar o legado da revolução de 1917. O filme silencioso teria sido exibido apenas uma vez, em 1921, e retirado de circulação. Era dado como perdido até que o historiador de cinema Nikolai Izvolov conseguiu reunir o material e reconstruir a obra segundo documentos históricos. No ano passado, um século exato depois de concluído, A História da Guerra Civil (Istoriya grazhdanskoy voyny) voltou às telas no Festival de Documentários de Amsterdã.

Lá estão a Crimeia, Kiev e a região do Donbass em cenas curtas captadas por Vertov, em meio a diversas outras localidades da imensa União Soviética, além da Tchecoslováquia. Por toda essa área aconteceram combates, sabotagens e destruição durante a guerra civil. A coletânea de imagens se inicia com fábricas e instalações destruídas pelos contrarrevolucionários a fim de danificar o poderio bolchevique. Segue-se, então, este intertítulo: Responderemos ao terror branco com o terror vermelho da Revolução!”.

A partir daí assistimos à mobilização das tropas soviéticas contra “anarquistas”, cossacos contrarrevolucionários e insurretos em várias partes do país. Os intertítulos anunciam tomadas de cidades e de prisioneiros, libertação de presos bolcheviques, tribunais militares, coleta de cadáveres nas ruas, funerais de combatentes e algumas cenas de batalha filmadas à distância. Ao caos que vivia a recém-nascida URSS o filme responde com uma certa noção de ordem e controle da situação. Há destaque para veículos e equipamentos bélicos, bem como para os líderes dos dois lados, filmados em poses para a câmera. Leon Trotsky, comandante supremo do Exército Vermelho, aparece discursando para uma unidade (foto acima), enquanto o único trecho que mostrava Stalin desapareceu (estranhamente?) dos arquivos pesquisados por Izvolov.

Os primeiros tanques de guerra, de fabricação britânica, faziam sua estreia na Rússia, apelidados de “monstros”. O abismo tecnológico e estratégico entre 1921 e 2022 fica evidente a todo momento, assim como os outros abismos criados pelo curso da história.

A vitória final dos “vermelhos” recebe um comentário épico voltado não exatamente para a glória bélica, mas para a reconstrução da indústria e da agricultura devastadas nos anos de guerra.

Esse filme de compilação não tem a criatividade de linguagem dos cinejornais Kino Pravda, muito menos do hiperclássico vertoviano O Homem com a Câmera, de 1929. Embora filme a bordo de trem e barco, e use um mapa animado em dado momento, Vertov usava basicamente panorâmicas descritivas e, ao que tudo indica, montagem meramente sucessiva. Mas sua visão cinematográfica já transparece, por exemplo, numa sequência perto do fim, que mostra detalhes de destruição com movimentos de câmera reveladores.

A trilha musical feita especialmente para essa reaparição do filme, de autoria do duo estadunidense The Anvil Orchestra (Terry Donahue e Roger Clark Miller) impõe uma sonoridade marcial que talvez não largue o ouvido do espectador depois da palavra конец (Fim).

Exibições:
03/04 – 11h: online no É Tudo Verdade Play – disponível por 24 horas ou até 1500 visionamentos
03/04 – 14h: Instituto Moreira Salles (RJ)
03/04 – 15h30: Instituto Moreira Salles (SP)

06/04/2022 – 15h às 16h – Debate A guerra civil por Vertov
Durante a entrevista, Nikolai Izvolov fala a Luis Felipe Labaki sobre a reconstituição do filme de Dziga Vertov.
No Itaú Cultural Play e no É Tudo Verdade Play.

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