Poucos profissionais do cinema tiveram atuação tão ampla como Silvio Da-Rin. Documentarista talentoso e técnico de som esmerado, ele foi também um pensador sofisticado sobre a história e a teoria do documentário, além de um gestor habilidoso e leal à causa pública. Em cada uma dessas esferas, deixou um exemplo de talento e ética.
Nos tempos em que o Brasil vivia a escuridão da ditadura, Silvio acendia sua lanterna no movimento estudantil e na Ação Popular em defesa de um socialismo humanista, razão pela qual foi preso político. Ao mesmo tempo, militava em prol do cinema brasileiro como presidente da Federação de Cineclubes do Rio de Janeiro e, mais tarde, da Associação Brasileira de Documentaristas e da Associação Brasileira de Cineastas. No início da década de 1970, foi redator e editor nos jornais Última Hora, Correio da Manhã e O Jornal.
O trabalho na gestão do setor se estenderia, no primeiro governo Lula, com o convite de Gilberto Gil para assumir a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura. Nesse cargo, desenvolveu importantes projetos de fomento e incentivo à produção audiovisual para cinema, TV e outras plataformas digitais, alguns deles em parceria com a TV Brasil. Em 2010, assumiu a Gerência-Executiva de Articulação Internacional, Aquisições e Licenciamentos da Empresa Brasileira de Comunicação (EBC).
Na revista Filme Cultura nº 50, que voltava a ser editada em 2010 depois de 22 anos, por iniciativa de Silvio e Gustavo Dahl, ele escrevia: “Nesses últimos quarenta anos, pouco mudou a questão central – o cinema brasileiro permanece marginal em seu próprio circuito exibidor. Mas é inegável que na configuração atual há uma ‘variedade e riqueza’ maior em nossa cinematografia.”
Nos sets de filmagem, o trabalho de Silvio como técnico de som foi disputado a gritos por diretores como Sergio Rezende, Sandra Werneck, Lucia Murat, Domingos Oliveira, José Joffily e Daniel Filho. Assinou o som direto de mais de 150 filmes. Formado em som nos EUA, Silvio detinha um conhecimento profundo desse métier, como se vê no seu artigo Cinema Direto, Som Direto, publicado na revista Filme Cultura (neste link, rolando até a página 31).
Como realizador, Silvio dedicou-se ao documentário, modalidade de cinema que ele dominava como poucos no Brasil. Sua dissertação de mestrado tornou-se referência incontornável para quem estuda ou faz documentários antes mesmo de ser publicada em livro com o título Espelho Partido – Tradição e Transformação do Documentário (aqui, minha resenha do livro).
Quando participou ativamente dos debates do seminário Na Real Virtual, durante a pandemia, ele trouxe essa reflexão sobre o binômio estudo-realização: “Academia, set de filmagem e ilha de edição estão cada vez mais entrelaçados, pelo menos desde 1968, quando Nelson Pereira criou na UFF um curso de cinema, ao mesmo tempo em que Paulo Emilio criava outro na USP. O emprego de categorias teóricas pode ajudar a fazer e também a pensar nossos filmes. Mas seu uso excessivo pode nos engessar e, nesse caso, atrapalhar.”
Com um olho na história e na teoria, e outro na atualidade brasileira, Silvio deixou filmes fundamentais para uma compreensão mais profunda do país. Já em seu primeiro curta, Fênix (1980), ele revisitava os anos de chumbo pelas palavras de ícones da cultura e da política. Pelo filme desfilavam imagens e sons do Tropicalismo, do Cinema Novo, dos Festivais da Canção, do movimento estudantil e da vanguarda artística do período (vejam o filme aqui).
Fênix foi produzido pela Corcina – Cooperativa dos Realizadores Cinematográficos Autônomos, da qual Silvio foi um dos fundadores em 1978. Como produtora e distribuidora, beneficiando-se da recém-criada Lei do Curta, a Corcina foi um marco na afirmação do curta-metragem no Brasil.
O Príncipe do Fogo (1985) traçava o perfil perturbador de um serial killer, Febrônio Índio do Brasil, em seu 40º ano de internação psiquiátrica, pouco antes de morrer. Esse curta, de tom irônico, é um pioneiro ao provocar discussão sobre a abordagem das doenças mentais no Brasil (o filme, aqui).
O média-metragem A Igreja da Libertação (1985) traz depoimentos de Dom Paulo Evaristo Arns, Frei Leonardo Boff, Dom Mauro Morelli, Betinho e Luiz Inácio Lula da Silva, entre outros, a respeito da atuação do clero progressista junto aos movimentos populares. Na ficha técnica, nomes que despontavam para o estrelato como David Tygel (música), Walter Carvalho (fotografia) e Aída Marques (montagem). Na narração, a voz característica de Ferreira Gullar.
As questões envolvendo nações latino-americanas que saíam ou tentavam sair de períodos ditatoriais – com ênfase no Chile – são cobertas pelo vídeo Nossa América (1989). Trata também da ascensão de líderes socialistas e de esquerda em favor de reformas sociais que desagradaram as elites e mobilizaram reações do imperialismo estadunidense.
Antes de realizar seu primeiro longa-metragem, Silvio dirigiu diversos vídeos sobre assuntos como o movimento de escolas-famílias agrícolas (Uma Escola para o Campo e Uma Escola para a Vida); retrospectivas das décadas de 1960 e 1980; e a importância do voto nas eleições gerais de 1994 – este uma curiosa simulação de programa de auditório.
Hércules 56 (2007) foi sua estreia na metragem longa com um documentário altamente revelador sobre o sequestro do embaixador dos EUA, Charles Burke Elbrick, em 1969. Franklin Martins e José Dirceu eram alguns dos que refletiram para a câmera de Silvio sobre os pontos de vista de quem organizou e de quem foi beneficiado pela operação. Um documentário histórico que pode ser visto não como uma aula, mas como um misto indissociável de ação, emoção e reflexão (minha resenha, aqui e o filme no streaming, aqui).
Esse filme abriu uma espécie de trilogia de títulos com números. Em seguida veio Paralelo 10 (2011), em que Silvio subiu o rio Envira com o sertanista e indigenista José Carlos Meirelles, criador de uma Frente de Proteção Etnoambiental naquela região do Acre. Paralelo 10 combina diversas tradições do documentarismo brasileiro: o filme de viagem pela Amazônia, na trilha de pioneiros como Silvino Santos e Luiz Thomaz Reis; o filme de personagem, no caso Meirelles, suas ideias e dilemas; e o filme etnográfico, que reflete sobre o estatuto dos indígenas brasileiros (aqui, uma entrevista que fiz com Silvio sobre esse projeto e aqui, o filme).
Missão 115 foi o terceiro da “trilogia”. Levantava detalhes e denúncias importantes sobre a preparação, as tentativas de acobertamento e as consequências políticas do atentado do Riocentro. O evento ressurge como núcleo de uma constelação de ocorrências no capítulo do terrorismo de estado (minha resenha, aqui e o filme, aqui).
Como escrevi a respeito de Missão 115, independente de suas próprias convicções, nos seus filmes Silvio não traz a História como coisa dada. Ao invés disso, busca uma dialética de opiniões com nuances distintas, às vezes até divergentes, como a mostrar que o passado é sempre uma projeção de memórias, interpretações e acomodações mentais.
Seu último filme foi Mamirauá (2018), documentário sobre a vida em 12 comunidades e duas Terras Indígenas do Amazonas, localizadas na mais antiga Reserva de Desenvolvimento Sustentável. O cotidiano dos ribeirinhos é documentado sob grande variedade de aspectos, envolvendo pesca, agricultura, culinária e formas de organização comunitária.
Silvio Da-Rin era uma pessoa carinhosa e calorosa. O rigor com que ele pensava, escrevia e filmava era um porto seguro de confiança. Seu aperto de mão comunicava afeto, respeito e verdade. Mas ele será lembrado principalmente por seu trabalho bem feito, seu compromisso com um cinema íntegro e com a justiça social.

Um abraço Carlinhos. Vai ser bom poder ver todo esse material do Silvio Da-Rin.