Curtas doc no Oscar

Um tanto como reflexo das mortes na pandemia, outro tanto como motor de narrativas de superação e resiliência, o luto tem sido um dos temas obsessivos no cinema mundial. Três dos cinco filmes indicados ao Oscar de documentário lidam de alguma forma com esse assunto.

Quatro dos cinco lidam com temas fortes, que usualmente atraem a atenção mais pelo objeto do que pelo tratamento cinematográfico adotado. Nenhum deles me pareceu chegar perto de um grande filme em termos de construção e originalidade.

Mas vamos a eles:

Quartos Vazios

Quartos Vazios (All the Empty Rooms) é mais um exemplo da busca de abordagens originais para o tema do luto. O jornalista Steve Hartman e o fotógrafo Lou Bopp fizeram uma série de reportagens sobre quartos de crianças mortas em ataques a tiros em escolas dos EUA desde 2019.

O curta de Joshua Seftel é um metadocumentário, pois documenta o trabalho da dupla. Steve e Lou conversam com os pais, coletam imagens das crianças e registram os quartos deixados intactos desde o dia da tragédia. Há mesmo um quarto no qual as luzes nunca se apagaram. Em outro, são conservadas as roupas sujas do menino para que os pais ainda possam sentir seu cheiro depois de cinco anos.

Em média, 132 ataques a tiros (shootings) são desferidos por ano em escolas estadunidenses. Quartos Vazios não mostra nenhuma imagem ou referência direta aos crimes. A ideia é captar a permanência daquelas vidas nos cenários preservados dos quartos e nas lembranças dos pais. Um filme sóbrio e doloroso, para mim o melhor dos cinco indicados.

>> Quartos Vazios está na Netflix 

Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud

Este é um filme duro de ver. Não nos poupa de imagens dolorosas captadas por Brent Renaud em várias partes do mundo. Seja na guerra do Iraque, na fome pós-terremoto do Haiti, no Afeganistão, na Somália ou em favelas de Honduras, o fotojornalista estadunidense documentou pessoas feridas, recém-amputadas ou simplesmente no grau máximo da miséria. Da mesma forma, vemos o corpo do próprio Brent após ser morto durante um bombardeio russo na Ucrânia em 2022, cenário de sua derradeira missão.

Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud (Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud) é assinado pelo próprio Brent (postumamente) e seu irmão Craig Renaud, que foi seu parceiro em grande parte de suas viagens. Sugere-se que a condição de autista seria em parte responsável por sua dedicação ao trabalho nas áreas mais perigosas do mundo.

O filme é, portanto, um tributo aos serviços prestados por ele à informação e à verdade. O tributo se estende ao traslado do corpo desde a Ucrânia e à cerimônia religiosa que contou com o depoimento do grande documentarista Jon Alpert, mestre de Brent e um dos produtores executivos deste curta.

>> Armado com uma Câmera: Vida e Morte de Brent Renaud está nas plataformas HBO Max e Prime Video.

Children No More: Were and Are Gone

Eles são poucos, mas existem. Desde março de 2025, um punhado de ativistas israelenses se reúnem semanalmente  em algum ponto de Tel Aviv (inclusive em frente à sede do Likud, partido de Netanyahu) numa vigília silenciosa contra a morte de crianças em Gaza. Eles e elas simplesmente carregam fotos de vítimas infantis, com os nomes, as idades e a frase “era e não é mais”. Assim expõem o que claramente nomeiam como um genocídio. Eventualmente, levam também fotos de crianças iranianas e israelenses, visando criar empatia pelo que o governo extremista considera o inimigo.

Tentam, na medida do possível, unir seu protesto aos que se manifestam pela volta dos reféns tomados pelos Hamas. A ideia é ressaltar o custo humano das guerras, que roubam tantos futuros de parte a parte. Mas não é fácil conciliar os dois lados. São agredidos verbalmente por cidadãos intolerantes que os têm como traidores da pátria. Numa dessas ocasiões, o clima se aproxima perigosamente da violência.

O filme de Hilla Medalia ouve uma das organizadoras sobre o método empregado na pesquisa e as intenções dos protestos. Nas ruas, testemunha a tensão criada pela vigília numa cidade onde a voz de Gaza quase não ressoa.

>> Children no More: Were and Are Gone não está disponível no Brasil          

O Diabo Não Tem Descanso

Apesar das recentes leis regressivas que reverteram a legalidade do aborto nos EUA, o estado da Geórgia tolera a prática, limitada, porém, até o sexto mês de gravidez. O Diabo Não Tem Descanso (The Devil is Busy), das diretoras Geeta Gandbhir (A Vizinha Perfeita) e Christalyn Hampton mostra o trabalho de um clínica de saúde feminina de Atlanta, pomposamente intitulada Feminist Center for Reproductive Liberation.

O curta é conduzido pelos depoimentos de funcionárias e médicas, mas principalmente de Tracii, a chefe de segurança que zela pela proteção do staff e das pacientes. Do lado de fora, manifestantes com megafones protestam continuamente, invocando Deus e a Bíblia contra a interrupção da gravidez.

O filme é muito cuidadoso com as espinhas do assunto, evitando revelar a identidade das pacientes, assim como entrar nos pormenores das intervenções. O que sobressai é a postura firme e emocional de Tracii, mulher de fé religiosa que reconhece o mau uso dos evangelhos para cercear o direito das mulheres de gerirem seu corpo.

>> O Diabo Não Tem Descanso está nas plataformas HBO Max e Prime Video.

Perfectly a Strangeness

O mais insólito e experimental do lote, Perfectly a Strangeness coloca em contato/contraste duas ideias muito distintas de mundo. Três burricos vagueiam por uma paisagem desértica até alcançarem um observatório astronômico nas montanhas do Chile. A distância incomensurável entre os melancólicos animais e a conotação tecnológica do observatório pretende criar uma afirmação metafísica sobre o universo.

Não vejo, porém, um aproveitamento produtivo da sugestão. Quando muito, penso num Robert Bresson de Au Hasard Balthazar ou num Jerzy Skolimowski de EO menos qualquer sentido de dramaturgia. Sem a presença humana, o curta da canadense Alison McAlpine quer ser sobretudo sensorial e imersivo. A mim, pareceu apenas vago e vazio.

>> Perfectly a Strangeness não está disponível no Brasil. 

O blog já publicou as resenhas dos cinco indicados ao Oscar de longa documentário. Confira:

Embaixo da Luz de Neon
Mr. Nobody Against Putin
Cutting Through Rocks
Alabama: Presos do Sistema
A Vizinha Perfeita

Deixe uma resposta