CUTTING THROUGH ROCKS, indicado ao Oscar de longa documentário
Vencedor do Grande Prêmio do Júri na competição World Cinema do Festival de Sundance e indicado ao Oscar de documentário de longa metragem, esse filme iraniano do casal Sara Khaki e Mohammadreza Eyni faz o retrato de um mulher “diferente” para os padrões de sua remota aldeia (Bazin) no noroeste do Irã, povoada pela etnia azeri-turk. Em vários momentos do filme, a vemos afirmar a meninas e jovens que não é diferente, mas, ao contrário, com determinação e luta por seus direitos, elas também podem ser iguais a ela.
A carismática e voluntariosa Sara Shahverdi é parteira, está divorciada há dez anos, veste-se com roupas masculinas e resolve enfrentar um tabu local: é a primeira mulher a se candidatar para o conselho municipal da região. Eleita, empenha-se em tirar construções do papel e defender o futuro das garotas da aldeia. Combate a prática dos casamentos precoces, que tiram meninas de 11 ou 12 anos da escola para servir a homens mais velhos. Era de se esperar que contasse com a oposição dos machos da aldeia, a começar por um de seus irmãos, também candidato.
Sara, porém, está disposta a romper rochas, como sugere o título do filme. Ela se envolve em diversas querelas familiares e chega a acolher em sua casa um menina que tenta escapar do segundo casamento imposto pelos pais. Sua audácia se manifesta graficamente no hábito de circular em sua motocicleta e, mais que isso, estimular as garotas a fazerem o mesmo.
A represália social chega sob a forma de uma chantagem do patriarcado: ou ela abandona o ativismo ou terá que se submeter a uma cirurgia de mudança de sexo. Assim o filme toca numa questão esdrúxula da norma oficial iraniana. Mulheres que queiram “agir como homens” (ou ter parceiras mulheres) devem trocar de sexo na mesa de operação.
Nessa e em outras questões, Cutting Through Rocks fica aquém do que um documentário mais incisivo poderia avançar. Algumas brigas compradas por Sara parecem resolvidas magicamente, sem o devido acompanhamento do processo. A personagem é forte, mas suas ações nem sempre deixam o resultado visível como fruto do seu esforço. É um problema de construção dramatúrgica que reduz o impacto potencial do filme. Creio que a indicação ao Oscar chegou mais por mérito do tema, a identidade de gênero, e do ambiente, um Irã profundo que parece à margem de toda geopolítica.
>> Cutting Through Rocks ainda não tem data de estreia no Brasil.




