SIRĀT
Mad Max foi à rave e acabou num campo minado. Esta seria minha sinopse de Sirāt, caso alguém me perguntasse. O badalado filme do francês Oliver Laxe, Prêmio do Júri em Cannes e indicado ao Oscar de filme internacional, é uma jornada irracional pela falta de sentido que assola parte do mundo.
Muito do primeiro ato do filme é ocupado pelo frenesi dos frequentadores de uma rave no deserto marroquino. Jovens descolados se misturam a párias que, presumivelmente, já perderam os vínculos sociais. Entre eles circulam Luís (Sergi López) e seu filho Esteban (Bruno Núñez Arjona) à procura da filha/irmã que partiu para o embalo dessas festas e desapareceu havia cinco meses. Sem pistas e ao saber que outra rave teria lugar mais adiante, perto da fronteira com a Mauritânia, eles resolvem se juntar a cinco aficionados numa perigosa travessia no deserto.
A falta de contexto psicológico ou mesmo de informações básicas sobre os personagens atira o filme numa espécie de deserto narrativo, onde só contam os instintos primais. Ouvem-se notícias de uma guerra mundial, mas o eventual apocalipse pouco importa a não ser seguir adiante na poeira e nas beiras de precipícios. Sirāt parece herdeiro dos reality shows de sobrevivência. Os veículos pesados e o estranho senso de comunidade entre os freaks – sendo dois amputados – lembra a gratuidade das aventuras Mad Max, ainda que a violência seja do acaso, e não do desejo de confronto.
À medida que a pequena caravana avança e as tragédias se sucedem, mais fica evidente a auto-alienação que rege os personagens e que o próprio filme absorve como dramaturgia. Em dado momento, um aparelho de TV mostra os fiéis circulando em torno da Caaba de Meca. Vejo ali um duplo sentido. De um lado, o paralelo entre a celebração muçulmana e as raves como práticas de transe; de outro, a alusão ao conceito islâmico de sirāt, a linha tênue que separa o inferno do paraíso e os pecadores dos bem-aventurados.
Os irmãos Almodóvar contribuíram na produção de Sirāt, o que deve ter ajudado a criar todo o hype em torno do filme. Buñuel, esse sim, talvez desse um sentido mais cruel e crítico a essa história de gente insensata numa viagem ao fundo do nada.
>> Sirāt está nos cinemas.




