Estranhas formas de vida

MAL VIVER e VIVER MAL, de João Canijo

Muitos consideravam João Canijo o melhor cineasta português em atividade antes que a morte o levasse em 29 de janeiro último. Vi poucos filmes dele, mas a obra-prima Sangue do Meu Sangue, de 2011, me deixou chapado. Fui conferir agora os seus dois últimos longas, o díptico Mal Viver e Viver Mal. Mais uma vez, fiquei magnetizado pela densidade trágica de seus retratos de família e o rigor formal de sua mise-en-scène.

Os dois filmes, realizados ao mesmo tempo e no mesmo local – o Hotel Parque do Rio, no balneário de Ofir -, são o contraponto um do outro. Enquanto Mal Viver se concentra nas mulheres que administram o hotel decadente, Viver Mal ajusta o foco para três famílias de hóspedes. No primeiro filme, estes são apenas entrevistos ou entreouvidos, ao passo que o esquema se inverte no segundo.

Em comum, o drama de mães que não conseguem ou não sabem amar suas filhas. Em Mal Viver, vencedor do Prêmio do Júri de Berlim, temos três mulheres que repassam a falta de amor materno de geração para geração. Piedade (Anabela Moreira), tida como bipolar, repudia a chegada da filha, Salomé (Madalena Almeida), que vivia com o pai recém-falecido. Suas atenções se dirigem mais à inseparável cadelinha Alma. Mas Piedade é também desprezada pela mãe, Sara (Rita Blanco), a matriarca impiedosa que reivindica o poder na propriedade e pretende vender o hotel.

Em torno desse trio orbitam Raquel (Cleia Almeida), outra filha de Sara, e a empregada Ângela (Vera Barreto), com quem Raquel mantém laços maiores que os de uma simples confidente. Note-se a conotação judaico-cristã de todos esses nomes, o que coloca o hotel como local de purgação de pecados multigeracionais.

Canijo maneja uma ciranda de queixas, ressentimentos e ofensas cruéis entre Sara, Piedade e Salomé, lembrando às vezes o Bergman de Sonata de Outono. O mal-estar é tanto mais inquietante quanto explicitado em meio aos afazeres das mulheres na manutenção do hotel e no atendimento aos poucos hóspedes. A preparação de pratos refinados contrasta com o fel destilado nas conversas e o rancor nos olhares.

Os traços de estilo muito particulares do diretor nos fazem imergir no incômodo daquelas relações. Os planos longos e muitas vezes estáticos são sempre carregados de tensão emocional e expectativa. As dependências do hotel modernista são esquadrinhadas em composições milimetricamente desenhadas para transmitir as apreensões, carências e fragilidades das personagens. Nós, espectadores, somos estimulados em nossa curiosidade visual e auditiva seja para perceber o que se passa fora do quadro ou nos reflexos de vidraças, seja para absorver o essencial de conversas paralelas que se sobrepõem sobre assuntos muito diferentes.

A sofisticação da proposta de Canijo fica ainda mais evidente em Viver Mal. Sem arredar o pé do hotel, nem do mesmo período temporal, esse segundo filme se divide em três episódios sucessivos mas que acontecem simultaneamente. Os personagens são os hóspedes que vimos nos cantos das cenas de Mal Viver. Cada episódio se inspira em uma peça do chamado Teatro Íntimo de August Strindberg, não por acaso o dramaturgo de cabeceira de Ingmar Bergman.

Em Brincar com Fogo, um fotógrafo (Nuno Lopes) e uma influencer (Filipa Areosa) se digladiam por ciúme antes que todo o motivo se revele pura ilusão de uma das partes. Esse é o único episódio em que a figura da mãe está presente apenas virtualmente nos telefonemas que o fotógrafo atende continuamente, para desespero da namorada.

O Pelicano trata da desintegração de um núcleo familiar após a morte do pai. Mãe (Leonor Silveira), filha (Lia Carvalho) e genro (Rafael Carvalho) se hospedam para um acerto de contas que traz à memória as tramas de Nelson Rodrigues. A grande surpresa está na relação entre mãe e genro a propósito da expectativa de uma herança deixada pelo morto.

Amor de Mãe tematiza a possessividade materna levada ao nível da arrogância e da chantagem. A mãe (Beatriz Batarda) não suporta ver a filha (Leonor Vasconcelos) apaixonada pela namorada (Carolina Amaral). Nada contra a relação lésbica, mas contra a perda de poder e influência sobre a filha, uma candidata a atriz desprovida de personalidade.

Juntando os dois filmes, temos quatro histórias de desamor que ecoam umas nas outras sem jamais se tocarem. É um primor de construção dramatúrgica, em que os ecos de cada uma ressoam nas outras pelas margens, em ações e falas que reaparecem vistas por outro ângulo. Há mesmo alguns diálogos iguais que ressurgem na boca de pessoas diferentes.

Em Mal Viver fica ainda mais claro o subtexto gastronômico que corre em paralelo aos diálogos cortantes trocados entre os personagens. A descrição de pratos e vinhos à mesa ressalta o verniz burguês ao mesmo tempo que sublinha a acidez das relações. É interessante lembrar que Strindberg com frequência se referia à culinária com sentidos simbólicos e à mesa de jantar como lugar de tensões e conflitos.

Os dois filmes, excepcionais também pelo trabalho intenso do elenco, renderam uma minissérie em quatro episódios na TV portuguesa com o título de Hotel do Rio.

>> Mal Viver e Viver Mal estão na plataforma Filmicca.

2 comentários sobre “Estranhas formas de vida

  1. Carlos Alberto, sua resenha a esses dois ótimos filmes do Canijo acrescentam mais prazer à experiência de assisti-los. Grata!

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