O CASO DOS ESTRANGEIROS
Nem todo mundo está apto a suportar a sobrecarga de dramaticidade colocada em O Caso dos Estrangeiros (I Was a Stranger). Desde que uma bomba atinge uma sala de jantar durante o aniversário da médica Amira (Yasmine Al Massri) em Aleppo, durante a Guerra da Síria, vamos sofrer os desdobramentos de sua fuga com a filha rumo a um acampamento de refugiados na Turquia e uma travessia marítima desesperada em direção à Grécia. Não há pausa de refresco para ninguém, muito menos para o público.
O diretor e roteirista estadunidense Brandt Andersen quer sufocar o espectador com uma sucessão de cenas violentas e personagens impiedosos. Uns caem pelo caminho, outros seguem adiante com toneladas na consciência. Um soldado do exército de Assad, um impiedoso traficante de pessoas, um pai desesperado e um capitão da Guarda Costeira grega assumem o protagonismo a cada etapa da fuga de Amira, tendo sempre uma criança como pivô dramático suplementar.
O estilo “documental” do filme e a boa atuação do elenco garantem uma base de qualidade inegável, mas é de se perguntar a que serve tamanha exploração da agonia dos refugiados. A visão de uma Trump Tower na cena inicial em Chicago poderia ser um indício de crítica à política trumpista para com os imigrantes, muito embora o filme tenha sido realizado antes de 2024. Nada disso se concretiza num projeto interessado somente na exposição da carnificina física e espiritual do nosso tempo.
A epígrafe de Shakespeare, relativa à desumanidade dos reis para com os “estrangeiros”, só faz realçar o que esse filme woke tem de apropriação indébita da desgraça alheia.
>> O Caso dos Estrangeiros está nos cinemas.




