Vulcão, miss e canções folk

Notas sobre os filmes HANAMI, A MISS e A HISTÓRIA DO SOM

À sombra de um vulcão

A extraordinária paisagem vulcânica da Ilha do Fogo, em Cabo Verde, é a principal atração de Hanami, coprodução caboverdiana com Portugal e Suíça. Entre as montanhas de lava e as praias de areia negra vive a pequena Nana (Dailma Mendes na infância e Sanaya Andrade na adolescência), criada por um grupo de mulheres depois que seu pai pescador desapareceu no mar e sua mãe deixou a ilha com uma doença misteriosa.

A emigração para a Europa e os EUA é um dado proeminente da população de Cabo Verde, país cuja renda em boa parte provém das remessas de parentes do exterior. Nana cresce muito para dentro de si enquanto seus conhecidos eventualmente emigram e retornam como as ondas do Atlântico.

A diretora Denise Fernandes (portuguesa de pais caboverdianos e criada na Suíça) construiu esse seu longa de estreia no ritmo lento – às vezes lento demais – da vida na ilha. Os diálogos em crioulo e a ambientação muito característica surtem um efeito imersivo que não deixa de ter sua beleza. A luz bruxuleante de velas e lamparinas nos interiores também evidencia o talento da diretora de fotografia Alana Mejía González.

Não creio, porém, que o roteiro de Hanami esteja à altura de sua qualidade de imagem e som. Temos ali a história de formação de uma menina que expressa quase nada a respeito de si, além do desejo de permanecer na ilha. Quando ela tem febre, é levada a buscar uma curandeira e colher ervas no sopé de um vulcão. O clima supostamente mágico desse trecho do filme é de repente quebrado pela intrusão estapafúrdia de um pseudo-astronauta japonês (chamado Kenjiro Mizoguchi…), que introduz referências à Hanami, a festa de contemplação das cerejeiras típica do Japão.

Difícil saber o que Denise e seu corroteirista Telmo Churro queriam dizer com as alusões ao Japão, ao latim e aos fogos de artifício. No plano mais objetivo, a relação entre Nana e sua mãe, marcada por espelhamentos reais e metafóricos, se dilui na rala expressividade das atrizes não profissionais. Resta a experiência de absorver o visual e as sonoridades de Cabo Verde, bem distantes das cerejeiras.

Miss barraquice

O argumento poderia render uma razoável comédia de gêneros se fosse levado às telas com menos ênfase nos estereótipos e na “barraquice” supostamente popular. Como está, A Miss parece uma velha sitcom de TV, filmada sem muita imaginação e com elementos que desafiam um mínimo de plausibilidade. O garoto Alan se passar por mulher durante duas fases do concurso de miss e até diante da própria mãe na plateia é algo que requer MUITA licença de credibilidade. A relação do trio central com o “tio” cabeleireiro que se finge de gay (outra coisa inexplicada) é caricata e enjoativa.

Tratar de modo afetuoso e acrítico o modelo dos velhos concursos de miss não é nada louvável. Mas não deixam de ser simpáticas as homenagens nominais às ex-Misses Universo Martha Vasconcelos e Ieda Maria Vargas, e sobretudo a presença de Ellen de Lima, intérprete da veneranda Canção das Misses, cantando e fazendo o papel de uma jurada, junto à ex-Paquita Andrea Veiga e à miss trans Ava Simões.


Paixão de uma nota só

A corrida para o filme mais tedioso da temporada já foi aberta com A História do Som (The History of Sound) . Ultimamente tenho evitado escrever sobre filmes que desprezo, mas não resisto a comentar essa história sem pé nem cabeça, levada às telas provavelmente para faturar a presença de dois astros da moda, Paul Mescal e Josh O’Connor, vivendo um caso homoafetivo. Eles se conhecem por causa de uma das muitas canções folk chatíssimas que o filme nos obriga a ouvir. Vá lá que, para os estadunidenses, pode ser interessante resgatar aqueles lamentos fanhosos do início do século passado, mas…

Pois bem, eles partem juntos gravando canções populares pelo norte do país e dormindo juntinhos. Não têm muito o que dizer um ao outro além dos olhares de peixe apaixonado. Os diálogos aborrecidos se estendem da fazenda de um deles no Kentucky aos bosques do Maine, e continuam depois da separação até o epílogo melancólico em 1980. As reflexões sobre a suposta forma e a cor do som, anunciadas no início, não levam a nada numa dramaturgia frouxa e antiquada. E o pior: o grande amor dos dois rapazes nem de longe toca as cordas da emoção.

>> Hanami está no Reserva Cultural Niterói. A Miss e A História do Som estão em cinemas de várias cidades.

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