Amélie, um bebê que se regenera

A PEQUENA AMÉLIE

As primeiras cenas de A Pequena Amélie (Amélie et la Metaphysique des Tubes) prometem muito. Ouvimos a bebê Amélie dar a sua versão do Gênese em que ela própria se coloca como Deus. Parece o início de um belo complexo de superioridade. Desconectada com o mundo incompreensível dos homens, ela ainda vai se sentir irmã de um aspirador de pó e, apesar de nascida na Bélgica, uma perfeita japonesa, uma vez que a família está morando no Japão no ano de 1969.

Mas eis que tudo começa a mudar quando um chocolate branco belga produz um milagre e a casa recebe uma nova empregada, Nishio-san. Amélie sofre uma transformação que, para o senso comum, é positiva, mas para o filme é lamentável. A menina que detestava ser vista como bebê torna-se uma fofura. A ideia de um mundo irremediavelmente triste ganha cores e laços de ternura. A amizade de Amélie com Nishio-san, cuja família foi dizimada na II Guerra, e o luto pela perda da avó querida lançam o filme numa mesmice sentimental bem distante da verve irônica do primeiro ato.

Nada contra os bons sentimentos, desde que seja com bons argumentos. O roteiro das diretoras Maïlys Vallade e Liane-Cho Han Jin Kuang patina numa sucessão de acontecimentos desligados dramaticamente entre si, como os relativos à vilã do filme, uma mulher japonesa traumatizada pela guerra. A ligação de Amélie com o Japão é algo apenas citado, mas não vivenciado pela personagem. Tudo se sucede um tanto mecanicamente, quando não em tom meloso.

O desenho é tradicional, um tanto duro, mas provavelmente inspirado na estética das gravuras tradicionais e dos animes japoneses. Indicado ao Oscar de longa de animação, não creio que tenha chances. A menos que Amélie realmente seja Deus.

>> A Pequena Amélie está nos cinemas.    

Trailer dublado:

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