O ódio ao PT

Se eu fosse um misto de cientista político e analista social, nada me convidaria mais a uma pesquisa hoje do que o ódio patológico que alguns setores da sociedade brasileira desenvolveram contra o Partido dos Trabalhadores. O julgamento do “mensalão” se prestou a uma catarse ampla, geral e irrestrita desses inimigos figadais do PT. Figadais sim, porque muitos adversários do PT não desejam apenas que o partido perca eleições e poder. Querem que a “corja petista” apodreça na cadeia, seja exterminada até o último descendente e o terreno salgado para que nunca mais floresça tal espécie de planta. Têm “sangue nos olhos”, como disse a colunista Barbara Gancia em artigo recente na Folha de S. Paulo.

Fico pensando nos tipos de ódio ao PT que vejo em declarações de políticos, amigos e gente de diversas áreas de atuação. Identifico alguns deles:

Ódio de raiz – os elitistas que nunca aceitaram o partido que mais legitimamente brotou das lutas populares e encarnou um projeto de emancipação econômica e social dos trabalhadores. Esses são adversários ideológicos desde o início, sempre muito claros e explícitos.

Ódio de rival – os esquerdistas, sobretudo comunistas, que acusam o PT de “roubar” suas bandeiras e trocar ideais socialistas por formas mais pragmáticas de alterar as bases do capitalismo brasileiro. Esses tampouco se escondem, embora não tenham alternativa a oferecer além da mera oposição.

Ódio de classe – os que até admitem a existência do PT, mas como partido de oposição. Não engoliram o “sapo barbudo” transformado em ídolo político e se envergonhavam de ter um homem simples na cadeira de Presidente. Esses temem as políticas sociais e culturais que possam “sujar” seu cenário e popularizar demais o acesso aos bens de consumo.

Ódio de traído – os ex-petistas ou ex-lulistas que se dizem “traídos” pelos casos de malversação de fundos no âmbito do partido. Esses achavam que o PT era uma igreja e descobriram que era apenas um partido político, também sujeito às fraquezas e erros de avaliação no exercício do poder. Há aqui também os que esperavam a utopia e a revolução, mas não encontraram mais do que os limites da realidade e da democracia. Não perdoaram, e muitos se dizem “ressentidos” com a decepção.

Ódio de oportunidade – os que usam as acusações contra o PT e a “decepção” dos outros para explicar a sua própria rejeição. Esses costumam dizer que “sempre votaram no Lula”, mas jamais votariam de novo em alguém do PT – um suposto personalismo que ponho em dúvida. Acho que eles nunca votaram no Lula.

Ódio de agenda – os que chegaram há pouco na idade da política ou têm olhos num futuro idealizado e acham que “não tem nada a ver tudo isso que está aí”. O PT para eles é coisa velha e viciada, nada mais que outra face do capitalismo predatório. Acham que é preciso avançar em agendas particulares como meio-ambiente, ocupação de territórios civis, política participativa etc, coisas de que o PT não daria conta. Entre todos, são os mais bem intencionados. E talvez os mais ingênuos.

Existem muitas outras alternativas e desdobramentos dessas opções acima. Não faço mais do que roçar a pele de um fenômeno que caracteriza talvez a grande disputa política do Brasil atual. Outros poderão refletir sobre o sentimento oposto, ou seja, a paixão pelo PT que move a militância, sustenta os simpatizantes e faz com que o partido continue forte e afirmativo, apesar de tanto ódio.

21 comentários sobre “O ódio ao PT

  1. Eu tenho ódio do PT por um milhão de motivos e não consegui me enquadrar em nenhum esteriótipo descrito acima. Ao brasileiro menos incauto basta ser alfabetizado e saber interpretar o que é o FORO de São Paulo, Gramsci, Decreto Bolivariano Nr 8243, MST, FARC, HAMAS, ou ainda ver as declarações de Marilena Chaui, aplaudida pelo “sapo barbudo”, declarando abertamente, ai sim, ódio à classe média. Mas existem inúmeros outros motivos que são longos demais para postar em poucas linhas…

    • Eu tenho ódio do PT por um milhão de motivos e não consegui me enquadrar em nenhum esteriótipo descrito acima. Ao brasileiro menos incauto basta ser alfabetizado e saber interpretar o que é o FORO de São Paulo, Gramsci, Decreto Bolivariano Nr 8243, MST, FARC, HAMAS, ou ainda ver as declarações de Marilena Chaui, aplaudida pelo “sapo barbudo”, declarando abertamente, ai sim, ódio à classe média. Mas existem inúmeros outros motivos que são longos demais para postar em poucas linhas…

  2. Quem errou que pague. não é o P.T. e sim homens do P.T. impressionante o P.T. passou do radicaismo ao moderado. Acho que o “barbudo” (hj sem) que mudou as ideias do P.T. Confesso tinha medo d P.t. não votei nele qdo disputou contra o Collor. Me arrependo muito “deu oque de” não vou dizer que o Collor só fez “merda” fez coisas boas também. Pisou na bola com o confisco ai arrebentou seu governo, isso para não falar do P.C. e outros. Lula elevou o conceito do Brasil lá fora e aqui dentro. Fui viajar para Europa e senti o bom nome do Brasil e como falam bem de nós e principalmente do Lula e até mesmo da Dilma. Pais do emprego do dinheiro forte, todos querem vir para o Brasil, principalmente os jovens, formados, que não tem oportunidade, emprego. Brasil respeitado lá fora, menos aqui dentro, por força politica dos quere voltar ao poder de qualquer jeito, apelando pra tudo e com todo o poder politico que teem, mobilizando o povo como se fosse “maionete”. Não sou petista, mas não sou contra a politica atual. voto em Dilma novamente. Mil vezes lula que FHC. e tenho dito.

  3. Pingback: No balanço do blog « …rastros de carmattos

  4. Cara, vc é tão conformista, tão conservador no sentido da própria cultura politica brasileira, continua justificando, vai, os erros, mancadas e acordos espurios e pós da tal da governabilidade. Os grandes logros obtidos não pelo PT e sim pelo lulismo, se “desmancham no ar” com essas tuas justificativas. Impressionante como vivemos repetindo aquilo que deixou de ser tragédia e virou comédia…

    • Rapaz, incrivel como os petista são capazes de distorcer tudo, pro bem e pro mal. Agora punir patifaria significa ódiar o PT. Na verdade não é o PT que está sendo punido; punido estão sendo todos aqueles que se aproveitaram e expropriaram o PT, em nome da causa, da falta de moral, da ética, seja lá do que for; más pelo jeito vocés não aprenderam nada e vão continuar colocando nos outros os erros que são apenas de vocês.

      • João, esse texto não se refere apenas ao momento atual, mas a uma síndrome que vem desde 2002. Logo, não se trata de erros nem punições, mas de um fenômeno sócio-político. Respeito inteiramente o seu direito de discordar.

  5. Concordo plenamente com seu texto. Esse “ódio ao PT” é o que estamos ouvindo de muita gente. Chocados, já não sabemos se devemos reagir ou não a cada uma dessas opiniões insultuosas, ilógicas e absurdas. A campanha da grande mídia reforça, mas não é a causa: ela diz aquilo que essas pessoas querem ouvir.
    Sobre as políticas e ações do governo nos últimos dez anos, e as reações das classes médias tradicionais e das classes populares, recomendo vivamente a leitura do livro “Os Sentidos do Lulismo”, de André Singer (ed. Cia. das Letras, 2012).

  6. Carlinhos,

    Apesar da campanha sistemática que a nossa “grande” mídia vem fazendo contra o PT, e sobretudo Lula, nos últimos 10 anos, o partido e o ex-presidente são identificados pelos mais pobres como agentes de melhoria da vida da maioria do povo brasileiro. Cada eleição torna o fato mais evidente.

    E o que também fica evidente é a série de preconceitos tão bem destacados por você. Triste é encontrarmos entre amigos e conhecidos a expressão desses preconceitos.

    Vivo isso na Universidade, em reuniões sociais, em família. Tanto na Paraíba quanto em S. Paulo, aonde estou no momento.

    Duro é, quase diariamente, tentar desconstruir o discurso de Veja, Folha, Globo e Estadão. Os leitores de tais veículos acreditam piamente no discurso destes.

    Existem muitos srs. Francisco por aí!

    Assim como muitos adeptos dos textos de Jabor, Merval e caterva.

    É preciso estar atento e forte!

    Grande abraço,

    Fernando Trevas

  7. Caro Carlito: tenho concordância com sua análise e, como disse Joel Zito, poderíamos mapear outros ódios ainda. Tenho visto nos últimos dias nas redes sociais e nas páginas da mídia corporativa (as páginas com opinião de leitores são de amargar) um ataque desmedido às cotas e identifico nessas opiniões parte dos motivos de ódio ao PT. Já se instalou um debate insano sobre as cotas no serviço público, que serão anunciadas em novembro pela Dilma. Como a reação que houve às cotas nas universidades, no serviço público podemos esperar manifestações de ódio explícito e tentativa de obstrução, tendo a mídia como principal instrumento para fomentar o preconceito e a desinformação.
    Lena Azevedo

  8. Carlinhos, já eu penso que o mérito político da questão está sempre sendo esquivado em todas as defesas que vemos da situação em que se encontram os principais quadros da hegemonia dentro do PT (que é mais do que eles, evidentemente). A opção por uma governamentalidade associada às alianças com os setores conservadores do parlamento sempre foi um risco, sempre teve um preço a se pagar. E pagou, mensalmente, como ainda agora paga. Se houvesse optado por uma outra linha de governamentalidade, como alguns outros líderes populistas apostaram na América Latina – a exemplo de Chavez e de Evo -, conclamando a população, os grupos organizados para a arena política, a partir de pressão, de ação direta, enfim, se tivesse acreditado mais na sociedade que tanto apoiava (e apoia) os governos petistas, vc veria que “os limites da realidade e da democracia” são outros, e não aqueles que estão dizendo que são. Desde a primeira crise, quando se tentou fazer a reforma do judiciário, a opção foi apertar as mãos do PMDB. Se àquela altura (e ainda hoje) houvesse uma conclamação popular, uma valorização das organizações da sociedade civil para a disputa de um projeto político, pode ter certeza que esse governo estaria hoje em outros lençóis. O que se vê, infelizmente, é a (nem assim tão) paradoxal aliança com os piores setores do conservadorismo brasileiro. Pode ter certeza que esse vai ser o menor dos preços que o PT vai pagar. Grande abraço!

    • Luis, meu irmão, acho complicadíssimo comparar o caso do Brasil com os da Venezuela e Bolívia. As dinâmicas são muito diferentes, as reivindicações populares idem. Tenho para mim que a conclamação popular para um governo de esquerda no Brasil daria com os burros n’água. Esta percepção explica bastante os caminhos tomados pelo Lula e o PT.

      • Se vc estiver correto, independente das comparações, e não termos mesmo que aprofundar a nossa democracia, com a criação de mais e mais espaços de participação (e de deliberação direta), é sinal que estamos mais ferrados ainda. Ficamos sujeitados a esse processo do toma lá dá cá e mais e mais mensalões existirão (ou coisas piores). E por isso mesmo vemos, não só a mídia corporativa, as forças conservadoras, mas também o teofascismo avançando na conta dessa lógica. Aguardemos. Abraço.

  9. Carlinhos: Considero brilhante sua avaliação e muito sagaz a “estratificação” dos odientos. Getúlio criou o trabalhismo brasileiro, consolidou as leis sociais e Jango, seu mais fiel herdeiro, foi deposto, cassado e assassinado no exílio pelos representantes da casa grande, que não podiam admitir os trabalhadores no poder. O Brasil segue vivendo o mesmo dilema. A diferença é que a oposição atual não tem lideranças efetivas, sequer tem partido – o PSDB, que disputou com Lula e Brizola a representação brasileira da social democracia, tornou-se o partido DA direita. O DEM está desmoronando. Como acabar com a popularidade daqueles que combatem a miséria, promovem desenvolvimento com distribuição de renda? Fazendo da grande mídia nativa seu arriete e voltando ao udenismo de sempre, “caçando marajás” e prendendo “mensaleiros”, os bode expiatórios do Brasil contemporâneo. Mas ,nada disso resulta. Haddad será governador de SP e Dilma cumprirá seu segundo mandato, por força do compromisso com o povo brasileiro, competência e honestidade. E Lula continua desfrutando de um apopularidade superor a 80%. Os cães seguem latindo, mas a caravana não para.

  10. Você afirma que o PT é “apenas um partido, também sujeito às fraquezas no exercício do poder”. Pediria a você que deixasse de lado o passionalismo e refletisse no que era o PT quando estava na oposição. Através de seus representantes no Congresso, ele assumia a posição de paladino, de guardião da ética e da moralidade, investindo pesado (e com razão) contra os que saqueavam os cofres públicos. Essa posição nos fez acreditar (até a pessoas já calejadas,como eu) que o PT, ao empalmar o poder, seria diferente dos outros partidos. Não foi o que aconteceu. O seu líder fez alianças com gente da espécie de Jáder, a quem, inclusive, chegou a beijar a mão, Sarney, tido por ele como um ladrão maior do que Ademar de Barros e Maluf. Maluf, sim, de quem ele foi pedir o apoio para a candidatura do ex-“ministro” da Educação, para conseguir, n o maximo, 2 minutinhos no execrável horário eleitoral. Admirava o seu partido, mesmo com o quase histerismo de alguns de seus membros nos seus pronunciamentos no Congresso; votei no líder até ele ser eleito pela primeira vez. Depois que ele se revelou um político semelhante àqueles que atacava, com a culminância de perpretar esse escandaloso caso do mensalão, que nos deixa, os brasileiros de bem, com a cara no chão de tanta vergona, não poderia mais manter o conceito que tinha dele e da sua agremiação política. Mas não lhe tenho ódio (ele , sim, é uma pessoa que cultiva o ódio, o rancor, manifestados com a agressividade, o descontrole emocional e a má educação que sempre o caracterizaram). A enorme decepção que ele e o PT me causaram teve o efeito de não confiar mais em nenhum político e dar graças aos céus por ter atingido os 70 anos, e, de acordo com o que me permite a lei, não ser obrigado a me deslocar de casa para dar meu voto. Ao invés de ficar em casa vendo um bom filme, lendo um bom livro, ou, até, vendo um jogo de futebol. Apesar do atual nível do nosso esporte preferido. Saudações.

    • Prezado Sr. Francisco, seu comentário apenas confirma coisas que digo no post. Lamento que o senhor tenha depositado no PT todas as suas expectativas de uma política idealizada. Só não posso concordar que o PT “saqueie os cofres públicos” da mesma forma que membros de outros partidos, com o intuito de enriquecimento pessoal e pura predação de recursos.

  11. Carlito, tem mais ódios para serem mapeados. Assino embaixo e junto deste post. E aviso, fui do grupo fundador do PT em Minas, no início dos anos oitenta, mas desde 1988 eu decidi ser um artista e intelectual independente. Não sou filiado e nem participo de reunião de nenhum partido. Quero ter a minha liberdade de criticar e de apoiar. Sou, na realidade, companheiro de viagem de todos que se engajam na luta anti-racista, por justiça social e na causa ambiental. Somente os ignorantes, sem visão, os rancorosos, os mal-intencionados e os que tem ódio de classe e raiz, não enxergam o passo que o país deu com o PT no poder federal e em muitas cidades que governou. O passo que o país deu com a liderança do Lula. Mas sou totalmente a favor da apuração rigorosa de toda e qualquer malversação de fundo público. E sou totalmente contra o foco que a imprensa dá, obviamente de estigmatização do PT. Um dia desses quando o partido do Roberto Jeferson e outros foram condenados pelo STF, a manchete principal de O GLOBO foi “Aliados do PT são condenados”. O Roberto Jeferson quase se tornou em herói.
    Por fim, somente fundos públicos de campanha eleitoral, e a total proibição do fundo vindo de empresas e de pessoas ricas ou pobres, poderá moralizar e acabar com os mensalões que sempre existiram e continuam existindo em todos os partidos.
    abraço
    joel zito araújo

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