Vigília fílmica

São muitas as formas de aproximação do cinema brasileiro contemporâneo ao teatro, como tenho explorado com alguma frequência aqui no blog e discutimos na revista Filme Cultura nº 56. Uma das mais interessantes que vi ultimamente é a de Testemunha 4, filme que ganhou o prêmio de direção da Semana dos Realizadores de 2011 e entra nesta sexta em cartaz no Rio de Janeiro.

Não há aqui a intenção de flagrar o processo de criação de um espetáculo, nem de recriar a cena teatral pelos atributos do cinema. Há, isto sim, a intensa concentração em torno do trabalho de uma atriz durante uma apresentação bastante especial.

Em setembro de 2009, Eduardo Wotzik encenou a peça O Interrogatório, de Peter Weiss, quatro vezes consecutivas na Casa de Cultura Laura Alvim. Como a peça dura seis horas, a “vigília cênica” se estendeu por 24 horas ininterruptas. Durante esse período, os cerca de 40 atores não deveriam dormir nem sair do personagem, mesmo se estivessem fora de cena. Entre eles, a atriz Carla Ribas vivia uma das testemunhas no Julgamento de Frankfurt (1963-65), que condenou oficiais nazistas por seus atos em Auschwitz.

Extenuante e desafiante, o trabalho foi filmado por Marcelo Grabowski, filho de Carla. Ele optou por filmar a maratona com as lentes afixadas em sua mãe. Carla é escrutinada pela câmera não somente nas cenas mais dramáticas da peça, mas também nos momentos de repouso, durante as pequenas refeições, nos bastidores do teatro etc. O filme se revela então uma testemunha do trabalho contínuo da atriz, de sua permanente “ocupação” pela personagem. A câmera era um “olhar” que se alastrava por onde ninguém mais olhava, potencializando o sentido do termo “testemunha” até um limite quase insuportável.

Gosto de comparar Testemunha 4 com um cruzamento possível entre A Paixão de Joana D’Arc, de Dreyer, que se baseava nos closes dolorosos de uma personagem no contexto de um julgamento, e o documentário Zidane – Um Retrato do Século XXI, de Douglas Gordon e Philippe Parreno, que acompanhava cada movimento ou inação de Zidane (e só ele) durante os 90 minutos de uma partida de futebol. Trata-se da sondagem radical de uma performance sob os eflúvios da criação e do cansaço.

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