Um edifício chamado Brasil

PELE DE VIDRO

Quando foi construído no centro de São Paulo, na década de 1960, o Edifício Wilton Paes de Almeida era uma promessa de Brasil moderno. Com 24 andares inteiramente revestidos de vidro trazido da Bélgica pela empresa proprietária, esbanjava inovação e refletia a ética da transparência que deveria nortear o mundo corporativo.

Durante a ditadura, porém, a empresa decaiu, e o prédio foi ocupado pela Polícia Federal, tornando-se um endereço de medo e repressão. Praticamente abandonado a partir de 2003, chegou a ser idealizado como um laboratório de arte e cultura por arquitetos brasileiros e franceses, sonho que não se realizou. Em 2014, foi ocupado pelo Movimento de Luta Social por Moradia, situação que perdurou até o desfecho trágico em 2018.

O “Pele de Vidro”, como era chamado, volta à evidência nesse documentário extraordinário de Denise Zmekhol. Ela é filha do arquiteto Roger Zmekhol (1928-1976), responsável pelo projeto pioneiro que viria a ser tombado como patrimônio histórico de São Paulo. Crescida nos EUA e formada em Berkeley, Denise veio a São Paulo enquanto o edifício estava ocupado por quase 400 pessoas e com sua fachada coberta de pixações. Documentar aquela realidade servia como forma de reconciliar-se com a memória do pai, com quem havia rompido ainda na infância.

Essa história pessoal se mescla admiravelmente com uma reflexão sobre a história recente do país e a crise de moradia nas metrópoles brasileiras. Entre as esperanças depositadas na arquitetura brasileira dos anos 1960 e a violência social das palavras de Bolsonaro sobre os sem-teto desenha-se um arco deplorável, cuja metáfora é o colapso do “Pele de Vidro”.

Em sua sóbria narração, Denise tentou harmonizar dois sentimentos conflitantes. De um lado, a tristeza de ver a obra-prima do pai em estado de profunda degradação. De outro, a satisfação de ver o edifício servindo de abrigo para cerca de 150 famílias. Ela tentou insistentemente entrar com sua câmera, mas foi barrada pelos líderes da ocupação. Por ironia, só conseguiu acesso a eles depois que o prédio não existia mais.

O roteiro é exemplar na combinação dos vários eixos do filme: a questão familiar, a obra arquitetônica de Roger, a história do edifício e seu papel nos diversos momentos, a discussão dos movimentos de moradia e a humanidade dos ocupantes do “Pele de Vidro”. O próprio insucesso da diretora em documentar o interior do prédio ocupado nos chega como um revés do ideal de transparência do projeto original.

Arquitetos, ativistas de moradia, uma ex-funcionária da empresa e o pixador que deixou sua marca nos vidros da fachada trazem uma riqueza de lembranças e impressões para adensar a incrível história contada em Pele de Vidro. Pesquisa, fotografia, grafismos, montagem e trilha musical somam qualidades excepcionais ao resultado desse documentário, que serve também como mais um alerta sobre os riscos das ocupações desordenadas, à margem dos movimentos mais consolidados e responsáveis.

>> Pele de Vidro está nos cinemas.     

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