Na nuvem das suposições

A MENSAGEIRA

Antes de mais nada, quero registrar que A Mensageira (El Mensaje) ganhou o Prêmio do Júri, o segundo mais importante, do Festival do Berlim. Ou seja, tem admiradores de peso. É um road movie supostamente enigmático sobre uma menina supostamente dotada da capacidade de ouvir o pensamento de animais. Um casal oportunista a leva numa van pelo interior da Argentina, vendendo seus supostos dotes mediúnicos a quem quiser se comunicar com um pet morto, doente ou desaparecido.

Supostamente.

Tudo é suposto no filme de Iván Fund. Tudo é nebuloso, interrompido a meio caminho, dissimulado por uma montagem dispersiva, que mais “desconversa” do que “costura”. O trio parece desgarrado do mundo e entre si. A única conexão palpável se dá durante a visita da menina Anika (Anika Boot) a sua mãe (Betania Cappato, mãe real de Anika) numa colônia de saúde mental.

Anika perde seus dentes de leite, mas não a inocência. Usada pelos tutores para ganhar dinheiro, ela ora parece apreciar a aventura, ora parece morta de tédio. A atuação espontânea da menina é um dado importante do naturalismo radical adotado pela direção. Afinal, A Mensageira se assemelha a um documentário de observação bastante ralo, daqueles que monitoram um evento mas não conseguem captar seu sentido.

Os tempos mortos, as longas tomadas de slow film e a trilha musical reiterativa compõem um estilo muito particular. Aos admiradores não importa muito que as coisas estejam sempre cobertas por uma nuvem de incerteza. A nuvem do “supostamente”. A mim, o filme pareceu apenas vago e aborrecido.

>> A Mensageira está nos cinemas.

Deixe uma resposta