Fábula queer no deserto chileno

O OLHAR MISTERIOSO DO FLAMINGO

Se ainda restam fabulações a criar sobre o surgimento da Aids, O Olhar Misterioso do Flamingo (La Mirada Misteriosa del Flamenco) é um exemplo de originalidade tardia. O jovem diretor chileno Diego Céspedes é um cultor do tema do contato tóxico. Seus dois primeiros curtas tratam de uma comunidade que se esconde do sol e de um profeta que supostamente eletrocuta quem nele toca. Nesse primeiro longa, uma localidade isolada no deserto chileno, em 1982, vive sob o temor de que o contato visual com homossexuais transmita uma misteriosa peste.

Nesse cenário quase surrealista, um cabaré gerido por um grupo de travestis com apelidos de animal atende aos garimpeiros do lugar. A mais festejada de todas é Flamingo (ou Flamenco), interpretada com charme por Matías Catalán. Ela adotou como filha a menina Lidia (Tamara Cortés), abandonada na cantina quando bebê. O grupo protege Lidia do clima de violência misógina e transfóbica que impera na região e se manifesta até mesmo nas brincadeiras e nos carinhos. A transfobia é superada pelo desejo de sexo, quando os homens obrigam as travestis a cobrirem os olhos para evitar “la mirada” fatal.

A violência eclode também nas vendettas arquitetadas ou imaginadas pelas travestis e mesmo pela garota. A vingança suprema é o olhar contaminador, símbolo do medo que circulava nos primórdios da epidemia de HIV. Mas um dos melhores momentos desse tipo, protagonizado pela pequena Lidia, rende uma simpática homenagem a Sergio Leone e outros spaghetti-westerns.

O filme oscila entre a brutalidade e a ternura com um retrato carinhoso e divertido da turminha queer, que tem na Mama Jiboia (Paula Dinamarca) sua matriarca. Uma pândega cerimônia de casamento perto do final é a cereja desse bolo. Os estereótipos, talvez inevitáveis nesse tipo de abordagem, são temperados por uma legítima amorosidade da direção por seus personagens.

O centro da ação é mesmo Lidia, que vive seu período de formação nesse ninho de moral peculiar. O encontro de pinturas de pessoas com grandes falos numa caverna sugere a percepção de uma sexualidade exacerbada. Qual será a sua opção entre esse pequeno planeta, no qual é superprotegida, e uma vida “normal” fora dali é a grande indagação que se apresenta.

As atuações são cativantes. O filme é excêntrico e intrigante como narrativa, apesar de algumas quebras de ritmo. A trilha musical de Florencia Di Concilio é uma joia de beleza e sutileza. Tudo isso junto valeu a Diego Céspedes o prêmio da mostra Um Certo Olhar no Festival de Cannes de 2025.

>> O Olhar Misterioso do Flamingo está nos cinemas.

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