Pílulas 32

Quem vai a O LUGAR ONDE TUDO TERMINA paga um ingresso e ganha três filmes. Consecutivos. No primeiro, obra-prima, o ar cool de Ryan Gosling vira ventania na motocicleta, num misto de Elia Kazan e Gus Van Sant. O segundo é um thriller sobre consciência pesada que também mantém o público na ponta da poltrona. O terceiro, arremate dramático para os dois primeiros, permite que os clichês e um certo mecanicismo superem a originalidade da história. Ainda assim, é um filmaço em quase todos os aspectos: fotografia, montagem, desenho sonoro, trilha musical, interpretações. O espectro da história, num período de 15 anos, comporta aqueles elementos clássicos das grandes sagas americanas: a tragédia familiar, o drama de consciência, a denúncia do oportunismo, a confiança nos caprichos do destino. Com a vantagem de não ceder jamais ao melodrama. Para mim, um dos melhores lançamentos do ano.

Uma coisa pode se dizer em favor de OS AMANTES PASSAGEIROS: Almodóvar dificilmente fará um filme pior. Ele deixa de lado a “classe” dos seus últimos melodramas, mas tampouco reata com a ousadia amoral de suas primeiras comédias. Fica num meio-de-campo anódino, criando piadinhas de última categoria em torno de comissários de bordo afeminados e passageiros de executiva cheios de culpa no cartório ede amor pra dar. Se era para ser crítica social, saiu não mais que uma chanchada de terceira, com ênfase na falação e na felação. Da animação pífia dos créditos iniciais à animação pífia dos créditos finais, o filme é barato de produção e de imaginação. A melhor sequência, que não à toa é a única sem conexão com a aeronave, se anula por um desenvolvimento bisonho, que beira o moralismo. Só não saí no meio porque o voo era tão ruim que não tinha para-quedas.

Não quero dizer que o fenômeno das comédias populares do cinema brasileiro atual está abaixo – nem acima – da crítica. Digamos que está ao lado, em paralelo, como essas coisas que nunca se encontram. Não tenho visto muitas. Hoje experimentei MINHA MÃE É UMA PEÇA. Achei um horror. Não tenho “intimidade” nenhuma com Paulo Gustavo nem com a mãe dele, nem sequer com sua peça de sucesso. Queria ver um filme e me divertir, se possível. Mas como se divertir com um cara fantasiado de mãe esporrenta, berrando sem parar? Como se divertir com estereótipos ligados à obesidade, à condição gay, à empregada irreverente, à amante perua e à tia solteirona animadinha? Como se divertir com piadas que dependem o tempo todo não do que é dito, mas da forma caricata como as coisas são ditas (gritadas, melhor dizendo), e nunca dependem da imagem porque o nível de criação cinematográfica é praticamente nulo? Niterói não deu sorte nesse filme que a escolheu como cenário, embora o edifício principal seja um conhecidíssimo aqui mesmo do Flamengo. Na sessão em que eu estava, ouvi alguns risos esparsos, mas nada que justifique o sucesso de bilheteria que esses filmes têm feito. Isso só se explica por um mecanismo de inércia que leva o público a procurar o que já conhece e se contenta em encontrar. É quando a indústria mostra sua pobreza.

2 comentários sobre “Pílulas 32

  1. Finalmente concordamos: “O Lugar onde tudo termina” é um filmaço e Almodóvar desceu ao fundo do poço. Não verei essa mãe que deve ser uma peça ou outras coisas começadas com “p” (e porcaria deve ser a coisa mais gentil de se dizer).

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