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O site Metacritic mostra uma façanha do filme O JANTAR: enquanto o crítico da Variety deu nota 90 (em 100), o resenhista do The Guardian cravou nota 20, marca de fracasso retumbante. Dependendo de como cada crítico olhou o filme, ambos podem ter razão.

Se enxergarmos “através” da realização de Oren Moverman e focarmos no best seller original do holandês Herman Koch, vamos encontrar uma potente metonímia da alta burguesia confrontada com suas culpas e irrealizações. Os irmãos Stan (Richard Gere) e Paul (Steve Coogan), junto com suas respectivas mulheres, Katelyn (Rebecca Hall) e Claire (Laura Linney), encontram-se num restaurante acintosamente chique para discutir um grave assunto de família. Seus filhos adolescentes cometeram um crime e eles precisam decidir como agir.

Antes que o tema principal chegue a ser abordado, ironicamente entre finíssimos hors d’euvres, pratos, sobremesas, fromages e apéritifs, o debate familiar se abre para um intrincado conflito entre os dois irmãos. Paul é um professor amargo e misantropo, ressentido com a família e com o resto do mundo, enquanto Stan é um político bem-sucedido, candidato a governador, e cujo senso de justiça e proteção soa como ofensa aos comuns dos mortais. A situação envolve adoção, racismo, fascismo juvenil e doenças mentais, todos esses temas articulados em ótimos diálogos e intensa energia teatral. Tennessee Williams e Edward Albee talvez não hesitassem em assinar uma peça com esses ingredientes. Sobretudo porque as coisas se encaminham para uma revelação da verdadeira natureza que alguns personagens ocultavam sob a capa do bom-mocismo e da consciência social.

Já o crítico do The Guardian preferiu focar no tratamento cinematográfico, que às vezes é mesmo desastroso. Uma série de interrupções e flashbacks fatia o jantar para dar conta do crime dos rapazes, das diatribes entre os dois irmãos e de seus respectivos casamentos. A narrativa abre tantos flancos, desvios e subtemas que acaba tirando muito da força do tema principal, que é a política da família X a família como política. A obsessão de Paul pelo estudo da derrota nas guerras é um dos tópicos que se prestam mais a confundir que a esclarecer. A fotografia é decididamente feia, especialmente nos flashbacks cheios de filtros cafonas.

Ainda assim, graças à qualidade geral do texto, à competência do elenco principal, às boas cenas do restaurante e ao tanto que faz pensar a respeito dos dilemas entre a ética social e as conveniências privadas, O JANTAR está longe de ser um filme dispensável.

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