EMBAIXO DA LUZ DE NEON
“A felicidade é mais fácil de achar quando compreendemos que não temos a eternidade para encontrá-la” – a frase lapidar da poeta Andrea Gibson é uma de suas muitas belas e dolorosas reflexões enquanto lutava contra um câncer em sua casa no Colorado. Ali, ao lado da companheira, a também poeta Megan Falley, e de seus cachorrinhos fofos, Andrea vive as expectativas de uma doença incurável que devora seu corpo. E procura tirar disso uma nova forma de viver o que lhe resta.
Embaixo da Luz de Neon (Come See me in the Good Light) é um documentário que emociona por todas as vias. É angustiante no acompanhamento da enfermidade, diagnosticada em 2021. Cada novo exame pode trazer a morte para mais perto. Mas é também comovente pela terna relação entre Andrea e Megan, a preocupação de cada uma com a outra para além da vida, os momentos de alegria a cada resultado menos negativo, o compartilhamento do amor pela poesia, pela dança e pela comunidade LGBTQIA+ de que fazem parte.
O filme emociona, ainda, pela capacidade do casal de retirar da finitude o que pode haver ali de humor e positividade. Andrea dá conta das mudanças em sua vida desde que foi diagnosticada: a fome de viver em detrimento da depressão e dos pensamentos suicidas de antes, a atenuação no seu próprio conceito de gênero, o reencontro de uma certa paz depois de tanto tempo dedicado a viagens e shows de poesia falada.
No filme, ela relembra sua história de ex-jogadora de basquete, a descoberta do mundo queer e da poesia, o estrelato no slam. Agora, no recesso campestre, declama ao microfone seus poemas muito prosaicos que falam de sua história e de gênero, pregam a renovação da vida, indagam sobre a morte e pensam a própria poesia. Megan, por sua vez, recorda-se de como o amor de Andrea ajudou-a a aceitar o próprio corpo e dedica-se a escrever sua autobiografia, na qual a convivência de nove anos com a companheira terá um lugar de destaque.
Ryan White, o diretor, é uma presença quase imperceptível na forma como se aproxima da intimidade de Andrea e Meg, colhendo momentos de extrema comoção e de intensa felicidade. Eu fui às lágrimas em várias cenas, como quando elas se veem num aplicativo de envelhecimento para terem uma ideia de como jamais se poderiam ver na realidade. “Como é possível amar enquanto se sofre?”, pergunta-se uma delas.
Esse filme ao mesmo tempo dilacerante e inspirador dribla todos os clichês da pornografia da dor em busca de uma captação mais ampla dos sentimentos contrastantes que acompanham uma situação-limite como aquela. Com isso, nos leva para muito perto dessas duas mulheres sensíveis, inteligentes e amorosas. Ao final, nada informa sobre o que se passou com Andrea Gibson depois que as filmagens se interromperam. Quem quiser saber, vá à internet.
Por fim, uma nota sobre o título brasileiro, que não faz o menor sentido. O original se refere a uma luminária que elas têm acima da cama, mas funciona como uma metáfora para o desejo de jogar uma boa luz sobre o que se apresenta como escuridão.
>> Embaixo da Luz de Neon está na plataforma AppleTV.




