Ônibus 963

O ÔNIBUS PERDIDO no streaming e uma nota sobre UNITE FOR BISSAU

Como fez em Voo United 93, Paul Greengrass explora o teor hiperdramático de um acontecimento real, no caso o incêndio florestal que devastou uma região da Califórnia em 2018, destruindo milhares de casas e matando 85 pessoas. O Ônibus Perdido (The Lost Bus) apela ao pathos de crianças em perigo, uma catástrofe de grandes proporções e um herói capaz de trocar o individual pelo coletivo.

O filme se baseia com certa liberdade em livro de Lizzie Johnson para recontar a bravura real de Kevin McKay (Matthew McConaughey), motorista do ônibus escolar que perdeu o contato com a base e conseguiu atravessar bravamente o cerco do fogo para salvar 22 crianças e uma professora (America Ferrera).

Kevin tem seu perfil humano erigido desde o início pelo relacionamento difícil com o filho e os cuidados com a mãe (vividos pelo filho e a mãe do próprio ator). Para sublinhar ainda mais a coitadice de Kevin, seu cachorrinho terá que ser sacrificado. É mais do que óbvio que ele fará tudo para salvar a turminha do ônibus.

Com sua interpretação, McConaughey confere alguma espessura a esse personagem-clichê do herói discreto e dolorido. Mas o que importa de verdade é a perícia de Greengrass e sua imensa equipe em nos fazer viver os acontecimentos de dentro, no olho do desastre. As tomadas do ponto de vista do fogo, que avança vertiginosamente com o vento, são de prender a respiração. Somos engolidos por uma câmera que oscila permanentemente, simulando o olhar de alguém que respira ofegante, a montagem ágil que vasculha os pormenores da ação e os efeitos especiais de larga escala que reproduzem o cerco infernal do fogo. Com a ajuda, é bem verdade, de tomadas do incêndio real.

Os rostos tensos ou horrorizados dos escolares pontuam a saga do ônibus 963. Mas é de estranhar que 22 crianças juntas naquelas circunstâncias passem a maior parte do tempo em silêncio, único reparo que faço à brilhante construção sonora do filme.

>> O Ônibus Perdido concorre ao Oscar e ao Bafta de efeitos visuais, e está na plataforma Apple TV. 

MULHERES E MÚSICA DE BISSAU

A cineasta e ativista Iara Lee disponibilizou no Youtube o mais recente documentário de sua produtora Cultures of Resistance. O média-metragem Unite for Bissau (Nô Kumpu Guiné) celebra o legado de Amílcar Cabral no que diz respeito ao lugar da mulher na Guiné-Bissau independente. A mutilação genital feminina é uma prática que ainda precisa ser combatida, mas as mulheres vêm ganhando espaço numa sociedade aferrada a velhas tradições. O filme mostra empreendedoras no agronegócio ecologicamente responsável e uma organização feminina que desafia o patriarcado.

Apesar da montagem caótica e mais pop do que o recomendável, temos ali um álbum de impressões sobre o país regido pelo ritmo. Em grande parte, Unite for Bissau é um musical que passa seu recado não só por palavras e imagens documentais, mas principalmente pelo canto e a dança.

Acesse as legendas em português na configuração do vídeo:
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