A VIDA SECRETA DE MEUS TRÊS HOMENS
Uma coisa não se pode negar sobre a baiana Letícia Simões: o apetite por encontrar formas alternativas de tratar sua memória familiar. À parte seus filmes sobre Dalcídio Jurandir e Ana Cristina César, em que presente e passado se cruzavam num mesmo dispositivo, ela já abordou sua mãe e sua avó em interações às vezes rudes no documentário Casa. Em A Vida Secreta de Meus Três Homens, Letícia procura avançar um tanto mais na maneira de evocar o avô, o pai e o padrinho, todos já falecidos.
Como ponto de partida, uma mesa de criação coletiva com a diretora e os atores é tomada como “mesa branca” para a invocação dos espíritos dos três homens. O recurso não repercute de fato, parecendo mais uma anedota do que um meio de acessar lembranças e sentimentos. Os “fantasmas” seriam, então, as fotos de arquivo inseridas aqui e ali em meio aos relatos.
O ator/atriz Guga Patriota verbaliza as supostas memórias do avô Arnaud, que após um episódio de vingança familiar juntou-se ao cangaço e participou do bando de Lampião. Percebe-se logo que a ideia não é encarnar o personagem, mas somente a sua narrativa. Tanto é que Patriota incorpora sua identidade queer ao mesmo tempo que descreve a história do cangaceiro em primeira pessoa.
Para trazer à cena o pai Fernando, Letícia utiliza dois procedimentos distintos: ela mesma conta como descobriu que ele fora um informante do SNI e coloca a atriz Nash Laila para viver o seu papel contracenando com o ator Giordano Castro. O diálogo entre Nash e Giordano se instala como um psicodrama, em cujo ápice emocional a atriz embaralha os limites entre si mesma e a personagem.
Num crescendo de eficácia da linguagem criada por Letícia, o terceiro momento ganha muita força pela atuação de Murilo Sampaio no papel do padrinho. Sebastião era um quilombola, homossexual negro e fotógrafo cujo trabalho alimentou os arquivos da família de Letícia. Murilo preenche à perfeição o lugar do “cavalo”, que no candomblé serve de “montaria” para a incorporação de uma entidade ou mesmo um espírito. Com grande convicção cênica, ele conta como Sebastião perdeu o grande amor de sua vida e o gesto extremo a que isso o levou.
Os resultados dessa aventura de autoficção de Letícia Simões são, afinal, irregulares e insuficientes para compor o painel pretendido sobre a formação do Brasil contemporâneo. Não há dúvida de que o cangaço, a ditadura e a homofobia integram o tecido violento e perverso da nossa sociedade, mas a diretora ficou um passo aquém de encontrar um formato coeso e a contundência necessária para passar o seu recado.
>> A Vida Secreta de Meus Três Homens está no Ponto Cine (RJ) e em salas de outras cidades.




