A presença do personagem ausente

BIO – CONSTRUINDO UMA VIDA e O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE CHUVA E VENTO aplicam dispositivos incomuns para falar de um personagem real e um imaginário por meio de sua ausência

Uma vida em terceira pessoa

O personagem central de BIO – CONSTRUINDO UMA VIDA não tem nome, nem rosto. A não ser por um raro flash na última sequência, tampouco aparece na tela. “Ele” é o personagem em terceira pessoa, cuja vida é narrada por parentes, amigos e pessoas que com ele se relacionaram ao longo da vida. Uma vida bem longa, 111 anos, que começa em 1959 e vai até 2070. Uma característica o distingue dos simples mortais: ele não consegue mentir. Quando tenta, passa mal, grita, desmaia.

Carlos Gerbase saiu-se com o mais original de seus filmes. Narrado unicamente por depoimentos, à moda dos falsos documentários, consegue insuflar interesse pela trajetória da tal criatura. De um início pautado pelo drama de época (sua concepção foi um acidente causado pela “tabelinha” nos anos 1950), BIO evolui para um esboço de ficção científica, já que o biografado cedo trocou o Direito pela Biologia e enveredou pela astronomia.

Não falta um humor sutil nas peripécias contadas com habilidade por um elenco que inclui Marco Ricca, Werner Schünemann, Maria Fernanda Cândido, Tainá Müller, Rosanne Mullholand, Branca Messina, Maitê Proença e mais 32 atores e atrizes. Numa opção interessante, cada pessoa aparece falando para a câmera na sua própria época, como se a pesquisa para o “documentário”, empreendida por uma neta, tivesse sido realizada ao longo de toda a existência do seu avô. Em cada pequena participação, os dados biográficos vão se combinando, as impressões vão se adensando, e terminamos com um retrato quase tangível do homem que dedicou a vida a acumular famílias e observar macacos.

No subtexto, um paralelo entre a vida dos homens e a dos primatas. Se uma das coisas que definem a natureza humana é a capacidade de mentir, o nosso personagem estava à margem da espécie. Talvez estivesse mais próximo dos bugios que ele conhecia tão bem.

Por outro lado, os efeitos do acaso são sempre sublinhados como motores de mudança na vida dele. Tem valor filosófico o fato de ele abandonar a lógica do Direito para abraçar as indeterminações da Sociobiologia, a ciência que vê traços comuns entre a conduta dos homens e dos animais.

A sequência final, simultânea à morte do biografado, é um epílogo primoroso, em que todos os testemunhos se dirigem à câmera numa celebração da memória ao som do “In Trutina”, de Carl Orff. A vida pode ser longa, mas é sempre frágil. E dela só resta o que se conta, entre risos e lágrimas.



Impressões marajoaras

Não há qualquer registro direto, visual ou sonoro, de Dalcídio Jurandir em O CHALÉ É UMA ILHA BATIDA DE VENTO E CHUVA. No entanto, o sentimento e as palavras do escritor marajoara presidem o documentário de ponta a ponta. A exemplo do que já fez em Bruta Aventura em Versos, quando evocou Ana Cristina César através de jovens criadores de hoje, a diretora Letícia Simões filmou o Marajó atual para fazer ressoar o Marajó dos tempos de mocidade de Dalcídio.

Em 1939, recém-saído da prisão do Estado Novo, ele trabalhava como inspetor escolar no seu arquipélago natal. Em cartas e relatórios, lidos por Letícia com voz um tanto naïf e monocórdica, ele mitigava a saudade da mulher e do filho, além de descrever as escolas, a fauna e a flora do Marajó. Esse tecido sonoro, conjugado com as sutis criações do grupo mineiro O Grivo, se sobrepõe ao visual magnetizante da natureza marajoara na calma profunda de suas águas grandes.

A vida de hoje nas ilhas fala de violência, pobreza e sonhos miúdos. Há os barcos gaiolas coalhados de redes de dormir, os búfalos enfezados, os rios abundantes, os caboclos de “dentes magníficos”. Talvez não seja tão diferente assim do que Dalcídio Jurandir chamou, em 1939, de “humanidade estropiada e febrenta da Amazônia”.

No paralelo possível entre as frases poéticas e melancólicas do escritor e as imagens colhidas ora com grande beleza, ora com desacerto pela cineasta, esse documentário impressionista nos embala numa aprazível viagem.

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