A pequena fábrica de matizes

Os documentários produzidos pela Matizar de Guilherme Coelho têm apresentado algumas características comuns: a presença de diretores jovens, o bom gosto formal, a eleição de dispositivos interessantes e a procura de temas que fogem às pautas mais frequentes da atualidade.

Assim foi, por exemplo, Romance de Formação, de Julia Simone, perfil sintético de três jovens universitários brasileiros estudando longe de seus locais de origem. Já escrevi aqui sobre esse doc, destacando a convergência entre a linguagem do filme e a disposição dos personagens para perseguir arduamente seus objetivos.

Recentemente vi mais dois filmes da Matizar, estes voltados para a recuperação de expressões artísticas do passado. Um deles é dirigido pelo próprio Guilherme Coelho e tem como personagem central um crítico de arte. Um Domingo com Frederico Morais começa em chave intimista, com o crítico na cozinha de sua casa preparando o café da manhã de um domingo qualquer, um pouco como Manuel Bandeira no clássico curta de Joaquim Pedro. Mas logo a conversa se enviesa para outros domingos, os Domingos da Criação que Frederico Morais, então curador do MAM-Rio, promoveu em1971. A cada domingo entre janeiro e julho daquele ano, ele convidou artistas e público a se juntarem em atividades com materiais específicos: terra, papel, tecido, corpo, som, fios. Milhares de pessoas acorriam aos jardins do MAM numa catarse artística que não deixava de ter uma dimensão política no auge da ditadura.

Um Domingo com Frederico Morais

Tudo isso é evocado em tom de conversa informal, seja em torno de fotos e registros da época, seja em bate-papo de Frederico com participantes como Cildo Meirelles, Amir Haddad e Regina Casé. Embora o dispositivo do “domingo qualquer” não seja mais retomado, prevalece a atmosfera de reminiscência pessoal, bem distante do modelo mais clássico de recuperação didática. De quebra, o filme ainda incorpora uma discussão sobre a função do crítico entre o papel de gerador de manifestações artísticas e o de mero braço auxiliar do mercado.

Esse filme será lançado em breve na caixa de DVDs Retratos Contemporâneos de Arte, juntamente com três outros rebentos da produtora: Fernando Lemos, Atrás da Imagem, de Guilherme Coelho, Cildo, de Gustavo Moura, e 5+5+, de Rodrigo Lamounier.

Uma das corroteiristas de Um Domingo…, Letícia Simões, assumiu a direção de Bruta Aventura em Versos, mais uma iniciativa no sentido de trazer à luz a poesia de Ana Cristina César (1952-1983). Aqui também o formato de “biografia de artista” é matizado por uma abordagem não apenas memorialística, mas também mediada pelos rastros da poeta em jovens criadores de hoje. É Ana Cristina César conjugada no presente através das suas influências sobre poetas, escritores, dançarinos, atores, em sua maior parte mulheres.

Bruta Aventura em Versos

O retrato que da própria Ana emerge é tão fugidio quanto dizem ter sido aquela “sereia de papel”: uma sucessão de fugas, despistes, disfarces. As duras delicadezas de Ana são contadas por contemporâneos seus como Armando Freitas Filho e Heloísa Buarque de Holanda; são incorporadas por outros que nem chegaram a conhecê-la pessoalmente, mas foram tocados pela sua poesia; e são ilustradas por um videografismo flutuante, em que textos e iconografia sugerem uma memória difícil de aprisionar completamente.

Todos esses filmes têm ainda um traço comum: não são dós-de-peito documentais. Não trazem a última palavra sobre nada. Querem apenas trabalhar os matizes de histórias que clamam por ser contadas.

Um comentário sobre “A pequena fábrica de matizes

  1. Pingback: A presença do personagem ausente | carmattos

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