Novas salas. Novos conceitos?

A fim de enriquecer o debate sobre o projeto Cinema da Cidade, com que o Minc e a Ancine pretendem revitalizar a exibição em pequenos municípios, o cineasta José Carlos Asbeg escreveu o texto abaixo. Reproduzo aqui por concordar com todos os pontos levantados, exceto com a generalização anti-hollywoodiana do ponto 03.

Cinema e consciência

José Carlos Asbeg      

Se os olhos são a janela da alma, o cinema é a janela da consciência. Uma sala de cinema é como um livro, um portal para um mundo novo de compreensões. Criar cinemas é criar espaços de consciência desde as coisas mais banais até as observações mais complexas da vida, do nosso cotidiano, do nosso país, possibilidades de percepção do mundo, crescimento humano.

Quando a sala escurece, o filme nos ilumina. A experiência coletiva de ir ao cinema é um dos rituais culturais mais marcantes de todo o século XX, o século de consolidação da imagem como o mais poderoso instrumento de informação.

A proposta governamental de novas salas de exibição por todo o país, em cidades que tenham entre vinte mil e cem mil habitantes é um primeiro esforço para levar a informação e a cultura cinematográfica a milhões de excluídos. Que o Brasil tem um déficit alarmante de salas de cinema é sabido e lamentado há anos. Há anos, também, vemos cinemas de rua virar igrejas ou mercadinhos de bairros (na verdade, não há quase diferença entre um e outro). Os cinemas hoje praticamente se escondem em centros comerciais. Portanto,  a notícia é animadora.

Mas, traz vários pontos de interrogação, É preciso desembrulhar o pacote da ação ministerial, que ainda deixa margem a dúvidas. Ao lado da boa intenção muitas vezes vem a ação que pode acabar dando em nada.

Trata-se de uma excelente oportunidade para se discutir mais amplamente a indústria do cinema no Brasil. Seria uma pena perder mais esta chance. O programa pode apontar para uma necessária renovação nas relações do setor cinematográfico do país. Vamos a alguns pontos.

01. Muito bom que as cidades pequenas ou do interior do país recebam este incentivo, mas porque os grandes bairros periféricos de megalópoles como Rio e São Paulo, Recife, não recebam a mesma atenção? Os moradores dessas regiões tem que se deslocar até áreas distantes para ver um filme. As periferias precisam ser contempladas também, neste ou em outro programa, urgentemente.

02. Estas novas salas, fala-se em 1.177, serão construídas com dinheiro público, ou seja, do povo brasileiro, portanto, é obrigatório que elas sejam um espaço para o cinema brasileiro e para todo o cinema brasileiro. Pode parecer redundante, mas não é. O novo cinema comercial brasileiro, que este ano bate recordes de público, é uma ponta de lança na reconquista do espectador nacional. Isso é excelente. Mas há outras vertentes do cinema brasileiro que precisam de espaço, como os filmes que não recebem lançamentos tão ruidosos na mídia e os documentários, que vasculham a história, a contemporaneidade, a cultura e até mesmo a alma do Brasil. Estes filmes, a grande maioria de ótima qualidade técnica e verdadeiras declarações de amor ao nosso país, precisam ser igualmente contemplados pelas novas salas.

03. Já que se trata de dinheiro público, com obrigação das prefeituras de concederem isenção de tributos aos novos exibidores, é preciso que estes cinemas não sejam mais um local privilegiado do cinema americano dentro do país.  Sem nacionalismo rastaquera, mas não podemos dar de mão beijada milhões de novos espectadores à indústria Hollywoodiana, que nos impõe um dumping (aliás, por que esse dumping nunca é denunciado? Por que as autoridades fiscais não cuidam mais disso?) que nos enfia goela abaixo filmes que cultuam a violência e o heroísmo individual como formas de ação social e que em nada contribuem para a formação cultural do público brasileiro. Pelo contrário, cada vez mais nos afastamos de nossos valores, ou seja, nos afastamos de nós mesmos para sermos mais americanos do norte.

04. A ação federal prevê que a prefeitura da cidade conceda isenção fiscal, escolha um empresário que construirá e administrará a sala, e consiga um deputado de seu estado para fazer a emenda ao orçamento e trazer para a cidade 1 milhão e 500 mil reais, custo determinado de cada sala. O que determinou a escolha deste caminho? Por que a intermediação política? Quem fiscalizará quem? Como foi calculado o custo de cada cinema? Estamos falando de 1 bilhão 765 milhões de reais que serão movimentados. É um bocado de dinheiro. Se dinheiro na mão é vendaval, como canta Paulinho da Viola, dinheiro público é água, evapora num segundo no calor tropical.

05. Um dos grandes nós da cadeia cinematográfica brasileira é a divisão da renda de bilheteria, o que leva os produtores a buscar remuneração quase que exclusivamente na fase de produção dos filmes e não no retorno de bilheteria, como acontece com qualquer outro produto oferecido ao mercado consumidor, Em geral os exibidores ficam com metade da arrecadação do filme. È exorbitante, altamente injusto. Em seguida, os distribuidores retiram suas parcelas e recuperam os gastos que informam ter tido com lançamento. Esses percentuais chegam depois dos impostos, cobrados em cascata (do exibidor, do distribuidor e, por fim do produtor). Quando o produtor vai receber sua parte, é uma raspinha de nada, logo ele, que empreendeu, que gerou aquele produto, que movimentou a indústria, deu trabalho a centenas de profissionais, ocupou laboratórios e arquivos. Essa relação é um castigo para os produtores e um ciclo vicioso sem saída. Se os produtores não conseguem remuneração de bilheteria, buscam nos orçamentos da produção a saída para seus bolsos, o que é uma inversão do princípio capitalista que rege as relações comerciais no Brasil e no mundo ocidental. Na verdade, os produtores brasileiros são completamente desesperançados da venda de seus filmes. Quando acontece um sucesso (ainda bem) ou ele é exceção à regra ou vem num movimento de grife, caso hoje das películas chanceladas pela Globo Filmes. As novas salas podem ajudar a mudar esta relação.   

06. A exibição digital já é uma realidade no país e traz a vantagem de baratear enormemente custos para toda a cadeia cinematográfica, desde a produção, passando pelo lançamento até a exibição. Estas novas salas precisam obrigatoriamente ser digitais e não mais analógicas, porque trazem duas vantagens imediatas: primeiro, e importantíssimo, o ingresso pode e deve ser mais barato, porque toda a cadeia tem custos menores, o que possibilita o acesso do cinema a um maior número de espectadores; segundo, e não menos importante, o cinema digital impõe muito menos dano ao meio ambiente (ver trabalhos assinados por Adailton Medeiros, do Ponto Cine, no Rio de Janeiro).

07. É preciso abrir a construção das novas salas para grupos de reconhecida capacidade exibidora e que se dedicam de fato à formação de platéia para o cinema brasileiro e para o cinema de consciência, como, por exemplo, o Ponto Cine e o Cine Bancários, de Porto Alegre. São salas que se dedicam a um trabalho sério, onde predominam as produções nacionais. São dois exemplos, dois espaços aliados dos produtores, duas salas de excelente qualidade técnica e de enorme preocupação com o que é oferecido ao público. Se o objetivo da medida é apoiar o setor exibidor, que os circuitos alternativos de comprovada competência sejam ouvidos e tenham a oportunidade de participar deste esforço nacional.

08. As novas salas precisam ser, por fim, blindadas da picaretagem imobiliária. Não podem ser construídas e logo depois transformadas em igrejas, que trazem uma proposta inteiramente oposta à do cinema: um filme é uma viagem da consciência; a religião comercializada dos novos cultos é o pesadelo do infortúnio castigado. Os exibidores-donos dessas salas não poderão vender ou demolir os imóveis nem daqui a cinqüenta anos e quando o fizerem que tenham a obrigação de construir um novo cinema para comunidade que pagou pela construção da que foi demolida ou vendida.

Que venham as novas salas, mas que sejam para abrir corações e mentes, desde a proposta de construção, passando por uma nova relação remunerativa do tripé cinematográfico, até o encontro do cinema com o público.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s