Filmes são incontornáveis

Faço aqui mais algumas considerações sobre o jovem cinema brasileiro em resposta à carta-comentário de Cezar Migliorin:

Caro amigo Cezar

Obrigado por tomar seu tempo com o comentário aqui no blog. Sua participação é um luxo. Por várias vezes já estivemos juntos em discussões sobre “esse cinema”. Posso até usá-lo como testemunha do meu apreço por muitos filmes dessa nova cena. Três dos quatro filmes sobre os quais você tem se debruçado são obras que admiro enormemente, tendo já me manifestado sobre elas em textos e debates (ainda preciso rever O Céu sobre os Ombros para firmar uma impressão).

Meu texto Menos silêncio, por favor tinha claramente uma função política, na medida em que a crítica é uma forma de política. Mas, nesse caso, foi ainda um pouquinho mais, já que se tratava de colocar alguma dúvida frente a um concerto de ações políticas que pretendem determinar uma certa maneira de produzir e consumir cinema como a única que importa e tem valor.

Longe de mim negar a importância das ações que se prestam a reivindicar e legimitar um lugar para os filmes pós-industriais. Estar contra isso seria como ficar contra a correnteza inevitável da cultura hoje. O que me indispõe é a intolerância e a arrogância que às vezes nutrem essas argumentações. Para fazer face a esse tsunami teórico, tive que saltar do bonde das considerações de conjunto para o chão mesmo das obras. Ao fim e ao cabo, é com elas que me relaciono. É com elas que se relaciona um público não necessariamente ligado nas mesmas “agendas”. Não vejo como contornar essa evidência, ainda que esse tipo de recepção cause desdém a alguns arautos da nova cena.

O que denunciei, de fato, foi o vácuo entre as tais considerações de conjunto e o específico das obras, ou pelo menos de grande parte delas. Mas meus alvos não são os filmes, e sim o oba-oba, o denuncismo e a mistificação. Já andaram me cobrando “dar nomes aos bois”, mas meu intuito não é negar este ou aquele filme, nem pôr em xeque este ou aquele realizador. Nas críticas de filmes, posso até chegar mais perto disso, mas não nessa discussão de caráter mais geral. Minhas restrições aos filmes visam aqui uma crítica a certas atitudes.

Quando falo em movimento, levo em consideração o fato de que o termo “movimento” também se modernizou, não significando mais as ações coesas e uníssonas de antes, mas sim esses “movimentos” acentrados, multiplataforma, mas que também resultam na formação de consensos e na substituição de valores. Nesse sentido, vejo, sim, um movimento na similitude de conceitos, referências e ações micropolíticas com que “esse cinema”, muito justificadamente, procura se legitimar. Mas não acho que uma visão crítica do momento se faça apenas com a escolha de filmes especiais para formação de uma agenda positiva.

Por fim, quanto a qualidade e autoria. Não creio que devamos ceder ao sequestro pela Globo da noção de qualidade. Nela não cabe apenas, como você bem sabe, os padrões médios de consumo, mas também a busca da ideia relevante, da forma compatível e da ruptura significativa. Já o questionamento da figura do autor, por mais problematizado e repartido que este seja no cinema, soa-me mais como uma tergiversação à la mode que como uma postura profundamente assumida, mesmo no âmbito dos jovens cineastas. Mas isso já é assunto para outra conversa.

Continuo atento a suas colocações e aprendendo criticamente com elas.

Um grande abraço
Carlinhos

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