Fábio Andrade: “Não há silêncio”

Entre os muitos comentários ao meu texto Menos silêncio, por favor, aqui está mais um que justifica um realce especial no blog. É do crítico Fábrio Andrade, da Revista Cinética:

“Carlinhos, antes de mais nada acho bacana te ver entrar nessa discussão. Compartilho essa impressão de que há um certo desespero por afirmação em parte dessa geração, algo até certo ponto natural, bastante rapidamente comprado pela imprensa (a necessidade de gerar pautas é prato cheio pros manifestos, pra exaltação dos coletivos, etc, etc), mas que muitas vezes atrapalha no contato com os filmes, que é o que realmente me interessa.

Só acho complicado quando você diz que há silêncio sobre esses filmes, porque cria a impressão de um consenso que eu nunca vi existir. Porque pra isso é preciso desconsiderar (e digo não como algo inválido, mas como algo que em tese não existe) as coberturas feitas pela Cinética, pela Filmes Polvo e por um cara como o Sérgio Alpendre, por exemplo, de vários festivais onde esses filmes são exibidos. Porque se você for olhar os textos que respondem e questionam esses filmes, verá que há enfrentamentos frontais e diretos, sem que a crítica se furte de aquiescer quando percebe que um caminho interessante surge nos filmes.

A Cinética, que eu conheço melhor por razões óbvias, têm críticas bastante duras aos dois últimos filmes do Felipe Bragança e da Marina Meliande, embora o Felipe já tenha participado da revista. E não é caso isolado: os dois filmes do Gabriel Mascaro, o “Casa de Sandro” do Gustavo Beck, “Estrada para Ythaca” e diversos curtas brasileiros já suscitaram posições bem firmes na revista, basicamente porque acredito que a firmeza é necessária em todo trabalho crítico, com filmes brasileiros ou não. E digo isso com bastante tranquilidade, porque fui eu mesmo quem escreveu essas críticas e não só sei que elas existem e estão disponíveis para serem lidas, como elas geraram respostas e debates entre as partes envolvidas. São críticas, inclusive, que usam abertamente palavras como “arte” e “autoria”, conceitos que estão muito longe de serem abandonados pela crítica em nome de outros conceitos, como você indica.

Acho que textos como o seu dependem mesmo de algumas generalizações pra que a pulsão inicial deles seja transmitida, mas para que a coisa não se perca nos manifestos – dos cineastas e dos críticos – e na simples tomada de posição (algo necessário, mas que eu julgo bastante infrutífero quando não sai de si), é preciso que algumas correções de foco e de argumentação sejam feitas para que a conversa não se esvazie na convivência de monólogos. É preciso, no fim das contas, pensar que o tal “novíssimo cinema” é composto de filmes específicos e que a tal “jovem crítica” traz um conjunto de textos e pensamentos. Sugiro alguns textos pra você ver que o silêncio, se é que já existiu (tenho minhas dúvidas), já foi quebrado há muito tempo:

http://www.revistacinetica.com.br/aberturasemana.htm
http://www.revistacinetica.com.br/aalegria.htm
http://www.revistacinetica.com.br/lugaraosol.htm
http://www.revistacinetica.com.br/brasiliaformosa.htm
http://revistacinetica.com.br/tiradentes11dia9.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes10dia5.htm
http://www.revistacinetica.com.br/tiradentes09curtas.htm

Fábio Andrade

 Minha resposta:

Obrigado, Fábio, por fazer essa importante ressalva no âmbito de atuação da Cinética. Tenho acompanhado com grande interesse os seus textos, sempre preocupados em encontrar a medida certa para lidar com as oscilações da produção contemporânea. Mas a minha denúncia do “silêncio” diz respeito não especificamente a este ou àquele veículo de crítica, mas a algo que está além dessa trincheira e se evidencia na imposição de um certo mito do filme barato/coletivo/não-narrativo que precisa ser tratado como instrumento de uma afirmação política em lugar de obra exposta aos riscos de algum nicho de mercado. Falo de uma visão crítica que esteja além dos textos críticos, operando seja no dia-a-dia das relações interpessoais, seja no espectro maior de uma atuação política. Falo de um “silêncio” talvez para aguçar os ouvidos para as vozes dissonantes que já existem.   

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s