Sinfonia de cidades em cartaz

Havana, Brasília, Nanjing, São Paulo e uma cidade não identificada do Japão

NUMA ESCOLA DE HAVANA é mais uma prova de vitalidade do cinema cubano atual. Tecnicamente, é um filme ágil, contemporâneo, muito bem narrado e sustentado por um elenco infantil nunca menos que impecável. Tematicamente, reflete a habilidade costumeira do cinema cubano em ser crítico ao sistema ao mesmo tempo em que celebra valores revolucionários como a ética, o inconformismo e a sublevação. A escola e seu entorno são os cenários onde o filme discute os limites entre legalidade e ilegalidade, a necessidade de certas regras para a vida e a vacuidade de outras que, ao contrário, castram a liberdade. Enquanto se aproximam num ensaio de romance, os pequenos Chala e Yeni vivem os dilemas da sobrevivência na Havana de hoje, envolvendo práticas clandestinas para ganhar dinheiro, imigração ilegal, consumo de drogas, desagregação familiar. O que me soou como o único ponto fraco do filme de Ernesto Daranas foi um certo sentimentalismo na relação entre Chala e a veterana professora que se rebela contra a aponsentadoria compulsória. De resto, é obra de fundo complexo e enunciação simples, que conjuga engenhosamente a observação social mais ampla com vivências individuais capazes de tocar o coração do espectador. Embora o título original, “Conducta”, remeta ao “Zéro de Conduite” de Jean Vigo, o parentesco mais próximo é com dois clássicos da adolescência ultrajada, “Os Incompreendidos”, de Truffaut, e “Kes”, de Ken Loach. O irrequieto Chala merece se juntar a essa galeria.


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Lembro da boa surpresa que tive quando vi O ÚLTIMO CINE DRIVE-IN, agora vencedor de quatro prêmios em Gramado, incluindo o Prêmio da Crítica e o de melhor direção de arte para Maíra Carvalho. O filme de Iberê Carvalho parte de um argumento um tanto sentimental sobre o fim de uma certa concepção do cinema. O governo de Brasília quer fechar o último cinema drive-in do Brasil (que na verdade ainda funciona e vai fazer pré-estreia desse filme no próximo dia 19). Seu proprietário ficcional (Othon Bastos) resiste bravamente, mas está a ponto de ceder. Seu filho, significativamente chamado Marlonbrando (Breno Nina, melhor ator), chega de Anápolis para visitar a mãe doente e eventualmente acertar antigas mágoas com o pai. É então que a família e o cinema se entrelaçam num drama que aos poucos se transforma em aventura divertida, tensa e ao mesmo tempo humanamente cálida. Uma projecionista (Fernanda Rocha, melhor atriz coadjuvante) faz um contraponto interessante com os personagens centrais. O teor nostálgico, felizmente, se deixa contagiar pelo humor. A espontaneidade das atuações, os diálogos econômicos, o bom uso da paisagem de Brasília e a ótima trilha sonora são outras qualidades desse filme modesto, mas cativante. Em tempos de salas enfurnadas em shoppings, cabines automatizadas e projeções 3D, o drive-in brasiliense ganha foros de coisa rara, que esse filme celebra com muita propriedade.


O DESEJO DA MINHA ALMA trabalha dois temas muito comuns na dramaturgia cinematográfica japonesa: o difícil acolhimento de pessoas necessitadas na casa de familiares (“Era uma Vez em Tóquio”) e o desamparo de crianças separadas dos pais (“Ninguém Pode Saber”, “Verão Feliz/Kikujiro”). Aqui dois irmãos perdem os pais num terremoto e são abrigados pelos tios numa cidade distante. A introvertida Haruna guarda sua dor numa manta de silêncio e inação. Ela é a consciência por onde passa a tragédia. Enquanto isso, o pequeno Sotha, inadvertido da perda dos pais, reitera a esperança inocente de revê-los um dia. Um terceiro vértice é o primo anfitrião, um filho único que reage mal à súbita conversão em filho do meio, o tradicional “indesejado”. Inspirando-se num fato autobiográfico durante o terremoto de Kobe, o diretor Masakazu Sugita trata o assunto com um minimalismo exemplar. Poucos diálogos, cenas curtas e mais sugestivas que descritivas, compensadas pela duração estendida das caminhadas das crianças, metáfora de sua transição para a vida de órfãos. É bonito ver como a primeira e a última cena se comunicam para trazer à tona um tema subjacente, a culpa do sobrevivente.


A sociedade de vigilância que vemos em RUA SECRETA não é um privilégio da China, mas ali adquire contornos especiais quando se trata de enredar o indívíduo numa teia kafkiana. O personagem central é um rapaz que faz bicos com tecnologia de mapeamento digital e equipamentos de segurança. Numa de suas tarefas, ele segue uma garota bonita até uma rua que não consta dos GPS de Nanjing. A paquera se transforma em pesadelo quando ele é sequestrado por agentes ligados ao governo. A diretora e roteirista Vivian Qu comenta rapidamente aspectos da atualidade chinesa, como o redesenho das cidades antigas e a substituição do controle político tradicional pelo rastreamento cibernético. Ela demonstra habilidade no uso das câmeras subjetivas e certo humor na menção às câmeras de vigilância. Os aparecimentos e desaparecimentos dos personagens expressam bem o que há de incerto e imponderável em suas condições. Já a direção de atores é um tanto ingênua na hora de fazer insinuações e produzir mistérios. Mas o que mais me desagradou foram os buracos da trama, especialmente o final súbito e bastante frustrante. A intenção pode ser sabotar o desejo de vigilância do próprio espectador, o seu voyeurismo natural. Se for assim, ok, me senti sabotado.


Lançado por enquanto somente em São Paulo, HIPÓTESES SOBRE O AMOR E A VERDADE quer fazer uma radiografia espiritual da megalópole paulistana. Uma radialista define a cidade como a capital dos solitários e depressivos. O filme será a ilustração desse retrato através de uma pequena galeria de personagens mergulhadas em si mesmas, transitando entre o solilóquio, a busca de contato afetivo, as drogas e a borda do suicídio. O modelo do filme multiplot é adotado aqui numa perspectiva bastante teatral, vínculo explicitado por um dos personagens que é diretor de teatro. Dirigido por Rodolfo García Vázquez, “Hipóteses” é o primeiro trabalho audiovisual assinado pela Satyros Cinema, braço audiovisual do consagrado grupo Satyros de teatro. Algumas montagens do Satyros já foram objetos de ensaios documentais de Evaldo Mocarzel, mas “Hipóteses” é a primeira experiência autônoma na área. Minha impressão é de que faltou uma habilidade especificamente cinematográfica para extrair o melhor das performances, evitar as irregularidades de ritmo e dar uma mínima unidade de tratamento ao filme. O que prevalece é um mergulho um tanto autista na síndrome das doenças urbanas, sem muita chance para o compartilhamento do espectador.

 

 

 

 

 

 

Um comentário sobre “Sinfonia de cidades em cartaz

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