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A saga de Chatô, o Rei do Brasil está longe de terminar. Guilherme Fontes ainda precisa devolver mais de 70 milhões aos cofres públicos (ou se livrar da dívida na Justiça) e o filme ainda vai passar pelo grande teste de aceitação do público. Mas a simples chegada às telas, finalmente, é um evento em si. E as primeiras apreciações da crítica, em geral, têm sido positivas. Eu, particularmente, saí da sessão de imprensa muito bem impressionado com o que vi.

Talvez por ter sido feito de maneira tão atribulada, com o material principal concluído já há pelo menos 11 anos, Chatô não tem o aspecto comportado nem apelativo de tantos filmes mainstream brasileiros recentes. É barroco, um tanto desmedido, às vezes delirante e quase sempre provocativo em sua visão do poder e da mídia nas décadas de 1930 a 50.

A edição de Felipe Lacerda sabiamente ancora o filme em dois momentos de exceção: a catatonia de Chatô em consequência de uma trombose sofrida em 1960 e um juízo final alegórico a que o personagem é submetido numa réplica de programa de TV. Temos, assim, a perspectiva de um moribundo que vê sua vida passar diante dos olhos e seus feitos comentados por quem com ele viveu. A ordem, portanto, é embaralhada, livre de relações de causa e efeito, conformando um painel que se abre mais e mais, em vez de fechar-se num modelo de biografia.

Tampouco pode-se dizer que seja mera ilustração de fatos da vida de Chatô, pois a verve da encenação ultrapassa bastante qualquer funcionalidade. Guilherme Fontes buscou uma dinâmica de comédia épica que plasmasse o próprio estilo do magnata: fanfarrão, grosseiro, libertino, todo-poderoso e algo patético. Daí termos cenas como a de Getúlio, pijama ensanguentado por dentro do paletó, atuando como advogado de Chatô no julgamento. Ou a montagem paralela do assédio sexual sobre Lola com o atentado ao industrial que se recusou a comprar “proteção” dos Diários Associados – uma clara homenagem aos máfia movies de Francis Coppola, consultor inicial do projeto de Fontes.

Quando morreu Chatô, começava a era Marinho na relação suja entre conglomerados de mídia e poder no Brasil. A arrogância, a negociação de interesses, a pressão sobre os poderes políticos e o direcionamento da chamada opinião pública continuaram a preponderar, apenas de modo menos escandaloso. Por isso tantas falas e situações ecoam na atualidade, o que Guilherme Fontes não deixa de capitalizar em suas queixas contra o tratamento que a mídia deu ao caso Chatô. Seu filme não seria, de fato, produto palatável para a carteira da Globofilmes, por exemplo.

Tecnicamente, Chatô não tem grandes falhas a lamentar. A montagem pode sugerir um ou outro descuido (intencional, quem sabe), a narrativa pode parecer às vezes um pouco intermitente ou brusca, mas nada chega a comprometer a fluência, nem os trabalhos de fotografia, direção de arte e interpretações. Marco Ricca sustenta a caricatura dentro dos limites do tolerável, e suas contracenas com Getúlio Vargas (Paulo Betti), a amante Vivi Sampaio (Andréa Beltrão) e a segunda companheira (Leandra Leal) são especialmente saborosas.

O alto custo da produção transparece nos cuidados cenográficos, na qualidade estelar do elenco e na boa fatura de todos os elementos técnicos. Se o resultado faz jus ao dinheiro captado, não sou capaz de afirmar, mas depois de virar caso de polícia, piada de bar e judas da indústria cultural, Chatô, enfim, prova que é um ótimo filme.