Amigos, amigas, em Minas

Sobre os filmes REDEMOINHO e A CIDADE ONDE ENVELHEÇO

Os personagens de REDEMOINHO, magistralmente fotografados por Walter Carvalho, são vistos quase sempre através de portas, janelas, frestas. Isso coloca o espectador numa posição de voyeur, como um intruso na vida daqueles homens e mulheres infelizes que habitam um bairro operário de Cataguases (MG). Somos voyeurs também das razões remotas de tanto desconforto, que nos chegam em pílulas esparsas, como pedaços de conversa que entreouvíssemos ou pequenas cenas que imaginássemos a partir do que ouvimos.

Esse tipo de narrativa compassada, pontuada pelas passagens do trem de minérios e por imagens misteriosas de um certo dia de chuva no passado, dá o tom do filme de José Luiz Villamarim. O roteiro de George Moura partiu do romance “Inferno Provisório – O Mundo Inimigo Vol. II”, do cataguasense Luiz Ruffato. A história gira em torno de três amigos de infância. Um deles ficou como operário; outro partiu para São Paulo; o terceiro partiu ficando, ou seja, virou o típico doidinho da cidade. Uma tragédia da época da adolescência os une e ao mesmo tempo os separa.

Os temas da vida provinciana e do acerto de contas com o passado são clássicos, e nisso o filme não apresenta grandes novidades. REDEMOINHO se sustenta numa ambientação sugestiva do lugar, na bela fotografia e sobretudo na contracena dos dois atores principais. Julio Andrade teve sua atuação premiada no Festival do Rio, mas meu destaque vai para um silencioso e sutil Irandhir Santos. Algumas incongruências precisam ser perdoadas para se apreciar o filme: uma fábrica e um bordel funcionando normalmente numa noite de Natal e o espanto de alguns moradores em rever Luzimar (Irandhir), que sempre morou ali naquela cidade descrita como “um ovo”.



A CIDADE ONDE ENVELHEÇO, primeiro longa de ficção de Marília Rocha, parece um desdobramento de seu documentário A Falta que me Faz. Naquele, tínhamos as inquietações de um grupo de meninas do interior de Minas no limiar da mocidade. No novo filme, as meninas são mais crescidas e emigraram de Portugal para Belo Horizonte. Francisca (Francisca Manuel) já está há mais tempo e parece aclimatada, coisa que não se confirmará. A princípio com má vontade, ela recebe no seu apartamento a recém-chegada Teresa (Elsabete Francisca), que vem cheia de excitação para tentar uma nova vida. A interação entre as duas, em meio a alguns amigos locais e ao colorido popular do Centro de BH, vai compor uma ficção bastante atravessada pela improvisação e a ambientação documental.

Marília põe em prática seu método de provocar conversas casuais, deixar que uma certa infantilidade das personagens venha à tona para melhor revelar suas camadas mais profundas. A proposta, porém, se mostra um bocado frágil para sustentar-se de pé ao longo de 99 minutos. As oscilações de humor e de temperatura na relação das duas moças acontecem de modo brusco e aparentemente desmotivado. A dicotomia entre Francisca – quieta, racional, nostálgica – e Teresa – efusiva, emocional, aventureira – soa um tanto esquemática. Nesse sentido, é possível que Teresa esteja apenas repetindo o processo vivido por Francisca alguns anos antes. Ou, por outro lado, pode ser ela de fato mais fadada do que Francisca a viver no Brasil. Seja como for, qualquer consideração do gênero é insuficiente para justificar tantos sentimentos vagos e diálogos vãos em nome da informalidade.

2 comentários sobre “Amigos, amigas, em Minas

  1. Adorei Carlinhos, pena que não chega aqui… Me parece que este ano teremos, pelo menos, uma mostra, quiça volte o festival imterrompido na gestão anteior. Oxalá possamos trazer estes bons, e, já velhos filmes, s

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