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Estreou mundialmente sábado (11/2) na Mostra Panorama Dokumente do Festival de Berlim o novo documentário de João Moreira Salles, No Intenso Agora. Os espectadores da Berlinale certamente encontraram um filme que foge bastante da ideia corrente de um cinema brasileiro nas telas do festival. Não viram nada calcado na realidade ou na atualidade do país, como Central do Brasil ou Tropa de Elite. Nada parecido sequer com os outros 10 filmes brasileiros selecionados pela programação do evento.

As únicas imagens identificáveis como brasileiras são as do enterro do estudante Edson Luís, no Rio de Janeiro de 1968. Algumas foram filmadas por Eduardo Escorel, que agora monta o filme, e José Carlos Avellar. Mas elas estão ali apenas em paralelo com as cenas dos funerais de outros estudantes mortos naquele ano: o tcheco Jan Pallach, que ateou fogo ao próprio corpo em protesto, e o francês maoísta Gilles Tautin, que morreu afogado no Sena ao tentar escapar da polícia.

Essas mortes, de alguma maneira, coroam a melancólica reflexão de João Moreira Salles a respeito da natureza das imagens produzidas na vigência de três grandes eventos dos anos 1960. Na China de 66, em plena Revolução Cultural, a mãe do cineasta, Elisa Gonçalves Moreira Salles, visitava o país com um grupo de empresários, exercendo sua curiosidade sobre um contexto em tudo oposto ao seu, de primeira dama da alta burguesia brasileira. Em Paris, maio de 68, os estudantes armavam suas barricadas e tentavam a aliança com o operariado para fazer a revolução contra o mundo velho de De Gaulle. Em Praga, agosto de 68, a Primavera de Dubček era esmagada pela invasão dos tanques soviéticos.

Três revoluções. Uma que se consolidava, colorida, nas ruas de Pequim; outra, a francesa, abortada pela reação burguesa, os acordos e a inconsequência de seus propósitos; e outra ainda, a tcheca, que se armava como contrarrevolução para impedir que uma certa ordem revolucionária fosse quebrada. É interessante notar como o “intenso agora” daqueles anos dialoga e também colide frontalmente com o “intenso agora” de hoje, quando a ideia de revolução parece sepultada (será mesmo?) sob grossas camadas de obscurantismo e proselitismo fascista. O Brasil quase não está na tela, mas pode ser entrevisto como um paralelo longínquo.

No Intenso Agora é um filme-ensaio na linha das obras de Chris Marker, Harum Farocki e Péter Forgács. Não há uma única imagem rodada especialmente para o filme. Tudo é arquivo, tudo é memória, tudo é indagação. Dessa vez utilizando sua própria voz (em Santiago, ele falou pela voz do irmão), João comenta e interroga filmes domésticos, cenas de rua, trechos de cinejornais e sequências de documentários clássicos sobre Maio de 68. Algumas imagens eram praticamente desconhecidas, como os rolos de filmes amadores sobre a movimentação dos tanques soviéticos nas ruas de Praga, encontrados pelo pesquisador Antonio Venancio junto a um colecionador.

Imagens são congeladas para João comentar certos detalhes; fotografias são examinadas com atenção analítica; slogans são desnudados para clarificar sua origem. Eis um filme movido por uma dupla atitude em relação às imagens de que se nutre: elas são objeto de fascinação e respeito, mas também de desconfiança. “O que se pode dizer a partir dos registros?”, pergunta-se o diretor. O que dizer de sua mãe bem vestida diante da massa uniformizada que festeja a Pequim revolucionária? O que dizer da primeira imagem produzida para o cinematógrafo, que era de operários saindo de uma fábrica?

Mais que compilar imagens, João está interessado no teor de alegria, medo ou desalento que elas contêm. O diletantismo de sua mãe ao tentar entender a China de Mao com seu repertório culturalista e nada político é um dos objetos de interesse do filho. Os sorrisos de Daniel Cohn-Bendit e seus companheiros de ativismo encarnavam um devir de felicidade imaginado com o ardor da juventude. A cautela com que o cinegrafista desconhecido filmou as ruas de Praga sendo ocupadas pelos soviéticos diz muito sobre o espírito do momento. O plano-sequência em que os trabalhadores de uma fábrica francesa são convencidos a retornar ao batente, desprezando a tardia argumentação de um ativista (provavelmente um estudante), expressa o fracasso de um movimento e sua sublimação em “mais uma etapa” na luta pela libertação.

No Intenso Agora é dedicado a Eduardo Coutinho, que sempre se interessou pela imagem do trabalhador no cinema. A assinatura, porém, é de um realizador pertencente à classe dos patrões. Haverá quem identifique no filme um distanciamento calculado, uma complexa combinação de admiração e ceticismo pelos ideais revolucionários. No fundo do ar de tudo, há mesmo um sentimento trágico que pode ser comum ao destino de Elisa, ao martírio dos estudantes e ao desacerto das utopias.