Da guerra, com amor

Muito mais que um filme de guerra, CARTAS DA GUERRA é um filme de amor. O amor como âncora de sobrevivência em meio à violência e à desilusão política. O filme de Ivo M. Ferreira é uma adaptação das cartas que o jovem Antonio Lobo Antunes, então soldado, médico e aspirante a escritor, enviou para sua mulher desde o front da guerra colonial, em Angola, 1971.

Na verdade, temos como que dois filmes correndo em paralelo. Nas imagens, o cotidiano de um destacamento português no Leste de Angola: o sentimento do exílio, a fuzilaria, os ferimentos e execuções, o relacionamento com os locais. Tudo isso nos chega não propriamente como descrição ou narrativa, mas como sugestões e impressões esparsas, descontínuas, coisa rebaixada por uma consciência superior que se sobrepõe. Esta consciência é justamente o “outro filme” que corre no áudio, com os textos das cartas pelas vozes alternadas de Antonio, que envia, e da esposa grávida, que lê.

A guerra, portanto, se passa como um eco meio distante, fragmentado, subjugado pelo discurso interior do médico. Há ali o desencanto com a missão, já com a guerra praticamente perdida e sem sentido, o crescimento da admiração pela terra africana e a progressiva construção de uma lucidez, entre Beckett e Guevara. Mas há sobretudo a alma inteira colocada nas cartas, nas reiteradas declarações de amor, no refúgio literário rumo ao passado do casal ou à antecipação de um futuro ansiado. A distância e a incerteza do retorno davam a Antonio a sensação de se corresponder a partir do mundo dos mortos.

As cartas foram reunidas e publicadas pelas filhas de Lobo Antunes a pedido da mãe, falecida em 2004. Já no título do livro, “D’este viver aqui neste papel descripto”, sente-se a doçura e a redondez que virão nas missivas. São daqueles textos que justificam toda admiração pela língua portuguesa. Em nada ficam atrás as imagens em preto-e-prata do fotógrafo João Ribeiro, que evocam o cinema clássico hollywoodiano, ao passo que a montagem de Sandro Aguilar rompe todo encadeamento convencional.

O filme se baseia num trabalho admirável de pesquisa histórica, que nunca aparece como tal, mas como um embasamento sutil da representação da guerra. Trata-se de mais um lamento português pela aventura colonialista e seu fracasso. Mas esse lamento poucas vezes foi tão esteticamente belo e humanamente profundo.

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