Encontros (im)perfeitos

Sobre o brasileiro FALA COMIGO e o argentino O FUTURO PERFEITO, duas joias de originalidade

Segundo um certo padrão de narrativa mais usual, as situações de um filme tendem a evoluir da normalidade para a extravagância. Em FALA COMIGO, a caprichadíssima estreia de Felipe Sholl no longa-metragem, esse paradigma se inverte. O mais incomum está no início, à medida que tomamos conhecimento dos dois personagens centrais: uma quarentona deprimida depois de ser largada pelo marido (Karine Teles) e um garoto de 17 anos com um fetiche telefônico bastante particular (Tom Karabachian). Melhor deixar para o próprio filme mostrar como eles vão se encontrar e viver uma paixão que os satisfaz tanto quanto revolta a mãe do menino (Denise Fraga), também ela passando por uma crise conjugal.

A evolução da história talvez não encare de frente todas as questões envolvidas num relacionamento do gênero. Ou, por outro lado, pode-se dizer que Sholl optou por “normalizar” o caso, beneficiando os amantes com uma harmonia quase idealizada. Também o vínculo de Diogo com seu melhor amigo, que dá margem a um esboço de confusão sobre sua preferência sexual, é rapidamente descartado em função da tal normalidade.

Se isso torna o filme menos ousado e mais palatável, em nada reduz sua admirável escritura, a encenação naturalista fluente, a fotografia intimista de Léo Bittencourt e a atuação irretocável de todo o elenco. Karine e Tom, sobretudo, demonstram uma magnetizante compreensão quanto às hesitações e ao entusiasmo de seus personagens.

Para transformar um encontro improvável numa possibilidade viável de descoberta amorosa, FALA COMIGO usa amplamente a música (incorporada à cena ou como trilha), elogia a derrubada de preconceitos e procura enxergar a humanidade para além da excentricidade.



O FUTURO PERFEITO é aquele tipo de filme capaz de inspirar qualquer cineasta com pouca idade ou pouco dinheiro. Uma situação singela, desenvolvida de forma inspirada e com mínimos recursos, resulta numa obra absolutamente original.

A diretora Nele Wohlatz, alemã radicada em Buenos Aires, conhece bem o que é chegar à Argentina sem saber uma palavra de espanhol. Assim é a protagonista de seu filme, a chinesinha Xiaobin, que vem juntar-se à família guetificada e precisa se virar para integrar-se minimamente à nova cidade.

A imigrante Xiaobin Zhang vive o seu próprio papel enquanto frequenta aulas de espanhol, trabalha em mercadinhos de conterrâneos e tenta fazer novas amizades. O mais curioso no filme é que todas (ou quase todas) as cenas partem de conversas de Xiaobin com sua professora ou com colegas do curso de castellano. Como numa série de exercícios em que os tempos verbais são fundamentais, ela conta do seu curto passado em Buenos Aires, vive um presente instigado pelas lições e imagina opções de futuro. Aprender a falar sobre o cotidiano numa língua diferente equivale a viver um cotidiano diferente. Pensar nas hipóteses que ela tem diante de si a leva a experimentá-las no futuro imperfeito do cinema.

O aprendizado constrói uma espécie de realidade paralela, que leva Xiaobin a ter um esboço de namoro sem jeito com um indiano, contrariando a vontade dos pais de que ela se case com um chinês. Tudo se passa entre imigrantes, tendo os argentinos um papel apenas marginal. Em dado momento, surge em cena um ator argentino que “finge” falar chinês, em mais uma piscadela da diretora para os limites tênues entre fato e ficção. Ou para o conteúdo de representação que existe no ato de se falar uma língua estrangeira.

É saboroso deixar-se levar pelo humor – que à vezes lembra o cinema do coreano Hong sang-soo – e a aparente despretensão com que Nele Wohlatz conduz esse pequeno ensaio ficcional. Modesto até na duração (65 minutos) e na confecção dos créditos, o filme escancara a riqueza do que a realidade pode sugerir à imaginação.

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