Ação paralela

Órfãos da Tempestade, o clássico silencioso de David W. Griffith (1921), contém algumas das mais famosas e pioneiras sequências de ação paralela da história do cinema. SEM FÔLEGO (Wonderstruck) lhe presta um tributo direto num dos elementos de sua trama, mas sobretudo põe em prática uma variante da ação paralela. Em vez de simultâneas, as duas linhas narrativas correm com 50 anos de diferença. Em 1927, uma menina surda foge de casa para Nova York à procura da mãe atriz de cinema. Em 1977, um menino também surdo foge de casa para Nova York à procura do pai. De alguma maneira, suas vidas parecem estar conectadas.

A mera sinopse já dá um certo nervoso. Mas a gente acha que pode confiar em Todd Haynes para desafiar os chavões do melodrama. E os dois primeiros atos do filme até justificam algumas boas expectativas. Haynes narra as aventuras de Ben e Rose com um apetite cinemático invejável, às vezes roçando o experimental. As cenas dos anos 20 não têm som além da belíssima suíte de Carter Burwell, com fotografia em preto e branco e estilo de filme mudo. Já na década de 70, impõem-se o ritmo suingado e as cores violentas da época. A direção de arte e os figurinos pintam os dois períodos com riqueza de detalhes. Notam-se influências de Charles Dickens, assim como de O Artista e do Hugo Cabret de Scorsese, este baseado em outro livro de Brian Selznick, agora autor também da adaptação.

O problema é que Haynes não estava nos seus melhores dias quando escolheu esse projeto muito estranho a seu universo habitual, que é mais adulto e menos esquemático. O charme e o dinamismo que ele consegue imprimir, principalmente no segundo ato, não resiste à avalanche de equívocos despejada pelo roteiro, que tem mais furos do que um queijo suíço. A lógica da relação entre Ben, Rose e as duas mulheres vividas por Juliane Moore simplesmente não fecha. Algumas coincidências parecem exorbitantes e há pelo menos uma séria incongruência de idades entre Rose, seu irmão e sua mãe. Por sua vez, a resolução do mistério é contada da maneira menos imaginativa e mais cafona possível nos minutos finais. Sem falar na pior maquiagem de envelhecimento que a pobre Juliane certamente já recebeu na carreira.

Eis um caso em que um grande diretor não foi suficiente para superar a mediocridade do material. Para completar, o filme ganhou no Brasil um título tão despropositado quanto o original. Ninguém ali está “wonderstruck” (assombrado ou maravilhado), nem muito menos sem fôlego.

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