Como amar um monstro

Textos meu e do cineasta Gurcius Gewdner sobre A FORMA DA ÁGUA, de Guillermo Del Toro

Já nas primeiras imagens de A FORMA DA ÁGUA, Guillermo Del Toro nos coloca em estado de suspensão onírica. Enquanto a voz de um narrador introduz a história à moda dos contos de fadas, somos convidados a entrar num apartamento submerso do chão ao teto, móveis e moradora adormecida  movendo-se suavemente ao som da valsa de Alexandre Desplat. Daí em diante, essa propriedade líquida se reproduzirá nos constantes movimentos de câmera quase coreografados e nos diversos gêneros cinematográficos que se misturam como em vasos comunicantes.

A fábula anfíbia, o filme de horror, a história de amor e o thriller de espionagem na guerra fria se cruzam com enorme habilidade no roteiro de Del Toro e Vanessa Taylor. Suspeitas de plágio em relação a uma peça de teatro (filmada para a TV em 1969) e um curta holandês de 2015 drenaram um pouco do prestígio pré-Oscar do filme, mas em nada abalam o encantamento do que se vê na tela.

Sobre a linhagem desse tema, leia mais abaixo o texto apaixonado e bem informado de Gurcius Gewdner, escrito especialmente para o blog.

A FORMA DA ÁGUA é um filme sobre o encontro de três solitários de naturezas distintas. Elisa Esposito (Sally Hawkins), a faxineira do laboratório, interage com poucos devido a sua mudez e timidez. Seu amigo pintor (Richard Jenkins) é um gay maduro na Baltimore dos anos 1960, o que equivalia a ser um proscrito. A criatura anfíbia (Doug Jones) capturada na América do Sul para ser levada ao espaço – motivo de cobiça dos russos na corrida espacial – é o excluído por excelência, o não humano.

Del Toro esbanja ternura ao tratar esses personagens. Elisa se identifica com o “monstro” e, sexualmente orientada, o seduz com ovos e música romântica. O fato de morar em cima de um cinema, embora não a vejamos frequentá-lo, faz dela uma pessoa voltada para a fantasia, especialmente os musicais adorados pelo amigo Giles. Sally Hawkins tem uma atuação bem mais desafiadora que a de Frances McDormand em Três Anúncios para um Crime, se viermos a falar de Oscar. O misto de fragilidade e determinação de Elisa é o que move toda a ação.

Entre os coadjuvantes destaca-se mais uma vez Michael Shannon como Strickland, o responsável pela segurança da criatura. Ele é o vilão machista, sádico e xenófobo, que vai apodrecer lentamente ao longo do filme. Na seara mais cômica, temos o espião russo (Michael Stuhlbarg) e suas hilárias relações com os tovarisch, além da colega de serviço de Elisa, caracterizada como um clichê de empregada faladeira. Octavia Spencer concorre ao Oscar de atriz coadjuvante por esse papel relativamente pequeno.

Como era de se esperar, a água é explorada em muitos níveis, ligando as ideias de sensualidade e ebulição, limpeza e salvação, sonho e realidade, morte e renascimento. A ausência de forma na água é belamente tematizada num poema final, que envelopa o romantismo sobrenatural da fábula.

Embora não tenha chegado a me comover como química de história de amor, talvez por um desenvolvimento muito limitado da personagem da criatura, o filme me cativou sobretudo quando o revi recentemente. Cala fundo numa certa nostalgia do cinema clássico, quando se dançava ao som de You’ll Never Know, se andava de Cadillac e se ouvia Carmen Miranda cantar Chica Chica Boom Chic.

Um filme sobre realização de sonhos cinéfilos

Por Gurcius Gewdner   

Uma das primeiras coisas que me chamaram a atenção nesta fábula do Del Toro foi o fato da trama se passar em Baltimore, cidade eternizada pelas comédias escatológicas de John Waters. Fiquei curioso com as motivações do Del Toro e esperando alguma citação discreta, mas como a cidade é um dos mais importantes portos marítimos do país, provavelmente as razões, ao menos nesse ponto, são mais geográficas e históricas, do que cinematográficas (ou não?). Waters experimentou timidamente com monstros, mas soube como ninguém recriar o clima divertido dos “Early Sixties”, em filmes como Cry Baby & Hairspray. Antes mesmo do filme fazer uma citação direta aos musicais, fiquei esperando que a qualquer momento a gangue de desajustados de Cry Baby poderia aparecer em cena para cantar e dançar nos corredores úmidos da prisão militar onde se encontra novamente nossa querida criatura, The Gill-man.

Estão rastreando acusações de plágio em The Shape of Water. Não sinto que originalidade é a questão aqui. O barato pra mim é a maneira que ele recria o clima dos anos 50/60 (o filme se passa em 1962), o vilão fascista asqueroso ( sempre odiosamente caprichados nos filmes dele) e a dose alta de amor ao cinema de monstros, foco central dos mundos fantásticos que Del Toro habita. É uma história de amor reverenciando Creature From the Black Lagoon (Jack Arnold, 1955), mais especificamente quase um remake da continuação, Revenge of the Creature, também dirigido pelo mestre Jack Arnold.  Em Revenge acompanhamos a expedição do grupo até a Amazônia, a vemos ser capturada e sadicamente maltratada e torturada durante todo o filme por cientistas e militares. Aqui não existe o amor pela Criatura, existe o deleite do cientista dos anos 50 que comemora dizendo “é nosso mais importante experimento desde a bomba atômica!”. Mais insensível, impossível. O amor pela criatura foi nascendo ao longo dos anos, com os fãs. Milhares de crianças, jovens e adultos se viram deprimidos em momentos esparsos do dia, em pontos variados da vida, lembrando do fim melancólico de King Kong em 1933 e do cruel destino que levou a Criatura, solitário ser amazônico, a cruzar um grupo tão vil de humanos asquerosos em 1954. Del Toro era uma dessas crianças, e nesse filme traz conforto aos corações dos que amam a Criatura. Para descobrir um dos destinos possíveis-horríveis que a criatura poderia ter caso não encontrasse o amor no filme do Del Toro, é só assistir  The Creature Walk Among Us (1956), de John Sherwood, onde humanos imbecis tentam realizar uma espécie de cura-monstro na criatura, tentando transformar o coitado em humano.

Também é impossível não pensar em Matinée de Joe Dante (foto à direita). Eu estava com saudade de filmes como esse, sessão da tarde primorosa que, recriando o clima de paranoia e guerra fria, passeia pela universo dos filmes B das matinês dos anos 50/60: William Castle, cientistas sádicos e monstros gigantes de era atômica. Joe Dante, assim como vários cineastas da mesma geração, é criador de um cinema feito por quem cresceu amando os monstros, torcendo por eles, pensando em monstros todas as horas do dia e sonhando com o dia em que finalmente poderiam dar vida a seus próprios e queridos monstros. Del Toro, no discurso do Globo de Ouro, agradece aos monstros, declara amor e fidelidade profunda aos monstros porque eles salvaram sua vida. Esse agradecimento não existe apenas na entrega dos prêmios. Todos os dias, o fã de filmes de monstro agradece. Agradece em voz alta sozinho, agradece andando pela rua com um sorriso e sente a profunda felicidade que é se sentar pra ver um filme de monstro inédito ou rever algum dos clássicos que tanto amamos. O Joe Dante, o John Landis, a  Mary Shelley, o Paul Naschy, eu, você, humano ou não, vivo ou morto, todos um dia agradecemos a existência dos monstros em nossas vidas. Na entrega do prêmio, Del Toro também diz que os monstros ensinam através do fracasso, que é possível continuar através dele. Isso não é apenas uma metáfora sobre a condição do excluído, mas é também o lembrete esperançoso de que quando Godzilla afunda sob as águas, ele não morreu, ele SEMPRE vai voltar. Essa ideia é o que faz meu coração tranquilo no fim de muitos desses filmes.

The Shape of Water, além de fazer justiça aos anos de sofrimento da criatura, também realiza um fetiche antigo. A Criatura, por mais que alguns deixem a verdade suprimida dentro do armário, é um autêntico gerador de suspiros, uma provocação marítima, um sex symbol. Tão lindo e galante quanto a mais bela das estrelas. Esse poder de atração do monstro foi crescendo em nosso imaginário desde os anos 50. Não é raro encontrar humanos olhando suas fotos aos suspiros, fazendo juras de amor eterno à irresistível Criatura aquática. Procurando você encontra pessoas apaixonadas dedicando How Deep is Your Love ao Gill-man. Meu amor é tão profundo que nem sei o que faria. Também não é raro ter fotos da criatura em pontos estratégicos da casa, para que de tempos em tempos se possa dar uma olhadinha pra ele e com isso melhorar o humor. A Criatura está por tudo: O Monstro da Lagoa Negra no talk show do Bruno Aleixo, rebatizado de “Renato”, é descolado, romântico, esperto e o mais afetuoso dos personagens. Quando se fala em par romântico perfeito, é ele que vem primeiro, com todo charme e sedução. A listagem de aparições da Criatura na cultura pop é infinita: citações em músicas, livros, animações, tudo, o tom romântico é constante, como não seria?

As cenas envolvendo sexo são até ousadas pra um filme com pretensões comerciais de grande público a la ET do Spielberg. Fiquei imaginando se não seriam cortadas para o lançamento nos cinemas de shopping, o que seria uma lástima já que pontuam detalhes interessantes dos personagens. Por exemplo, a cena de sexo do vilão e esposa em casa, que se cortada não mudaria muito na narrativa, mas diz tanto sobre o quanto o vilão pode ser repugnante. Também não sei listar se existem muitos exemplos anteriores, mas posso apostar que são raros os filmes com cena de masturbação feminina pairando nas escolhas do Oscar. Plagiando ou não outras histórias, o filme do Del Toro é o primeiro a explicar (mas não mostrar) como funciona o pênis da Criatura. Até então eu me perguntava se ele se reproduzia através de uma cloaca, fecundando ovos fora do corpo, ou se seria hermafrodita como as lesmas. Meu filme favorito envolvendo sexo bestial quase explicito é La Bête, do genial Walerian Borowczyk, lançado em 1975 (foto à esquerda). Em 2017, o filme se tornou novamente popular no Brasil, por conta de alguns seres emburrecidos de ideologia conservadora que, pesquisando de maneira irresponsável e preguiçosa, confundiram a performance do coreógrafo Wagner Schwartz com o filme, colocando os dois no mesmo balaio e misturando as origens todas. Mas é também no surrealista e muitas vezes deprimente 2017 que alguém finalmente realizou a fantasia de vermos a criatura aquática adentrar nas águas profundas dos prazeres carnais, levando os suspiros apaixonados dos fãs às vias de fato dos limites molhados do tesão.

The Shape of Water é uma fantasia de cinema. Como é um filme sobre realização de sonhos cinéfilos, certos movimentos ficam quase previsíveis: ao descobrir que a protagonista mora na parte de cima de um cinema, lembrei da cena do The Monster Squad (1987), de Fred Dekker, onde uma criança entrega uma máscara do monstro de Frankenstein ao próprio e ele ameaça chorar ao se perceber como monstro. “Me, Monster”, diz ele, cheio de tristeza. Achei que o Del Toro colocaria a Criatura vendo a si mesma no cinema e fiquei feliz quando isso não aconteceu. Afinal, esse é o mundo da Criatura em si, os filmes do Jack Arnold não existem ali, o monstro existe e em seu próprio mundo ele não morre. Aliás, apesar de todo clima de fantasia do filme, Del Toro encontrou uma explicação quase “racional” para o fato de nos filmes a Criatura sempre afundar em direção à morte no final, mas no filme seguinte aparecer viva e saltitante: o poder mágico da regeneração. A imortalidade dos amados monstros clássicos. A cena dele no cinema é muito bonita, me fez voltar a emoção do encontro com Orson Welles no Ed Wood (1994) do Tim Burton. Muito se tem comparado The Disaster Artist com Ed Wood por motivos óbvios, mas Ed Wood não é apenas um filme sobre incapacidade, é também um dos filmes mais bonitos já feitos sobre amar cinema, amar fazer cinema com a força total da vida. Nesse ponto, The Shape of Water se aproxima mais de Ed Wood do que qualquer outro filme de 2017, pelo amor incondicional dos monstros que amam cinema.

*Amigos companheiros dos felinos têm comentado que nem no mais fantasioso dos mundos existe alguém tão tranquilo e gente fina que consiga perdoar o visitante que devora seu gato. Fico pensando se Del Toro pensou em ALF, o ETeimoso, o mais famoso devorador de gatos até então.

⇒ Gurcius Gewdner é autor, ator e montador de filmes. Dirigiu Pazúcus: a Ilha do Desarrego, Mamilos em Chamas e diversos curtas.

4 comentários sobre “Como amar um monstro

  1. Pan’s labyrinth segue sendo sua obra prima. Ele vai precisar quebrar com essas cores e falar sobre algo diferente. Senão vai acabar por se esgotar. Simpatico e nada mais.

    • Kakak claro até pq ta dando muito errado kakaka todos os filmes dele são excelentes e essa é a assinatura do cara.

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