Brasília e Líbano nas dobras do tempo

Sobre a comédia de ficção científica brasiliense A REPARTIÇÃO DO TEMPO e o drama psicológico libanês DE VOLTA

Brasília sempre foi vista pelos artistas como um cenário de ficção científica, algo entre o futurismo e o simples artificialismo. Ultimamente o cinema tem explicitado essa visão em filmes como Branco Sai, Preto Fica e Era uma Vez Brasília, de Adirley Queiroz, o curta inglês Brasília, de Benjamin Dickinson e Reggie Watts e A REPARTIÇÃO DO TEMPO, que chega aos cinemas esta semana.

A comédia de ficção científica de Santiago Dellape pretende reunir influências de Os Trapalhões (Dedé Santana faz uma participação especial), filmes como Os Goonies e De Volta para o Futuro, sitcoms como The Office e história em quadrinhos. Brasília entra como cenário e como comentário. A ação se passa inteira dentro de uma repartição encarregada de registro de patentes e invenções, onde reinam a burocracia e a inércia usualmente associadas à figura do servidor público, por sinal carreira do diretor. Como forma de forçar seus funcionários à produtividade, o chefe (Eucir de Souza), caricatura do meritocrata, usa uma máquina do tempo para duplicar seu staff e prende os duplos num abrigo nuclear subterrâneo.

A confusão é levada com certa engenhosidade, principalmente pela narrativa visual eficiente, a cenografia sugestiva e bons momentos de comicidade. A ambientação sugere os anos 1980, mas sem maiores compromissos (cita-se, por exemplo, um “governo esquerdopata”). O diálogo com os quadrinhos passa pelo escriturário Jonas (Edu Moraes), que desenha histórias envolvendo doppelgängers e acaba sendo o eixo de todo o imbroglio.

O que prejudica uma melhor comunicação dessa sátira ao mundo burocrático é o volume de estereótipos e uma linha às vezes equivocada na busca do humor pelo exagero nas atuações. A manipulação do tempo também se torna emaranhada além da conta, muito embora a premissa não requeira mesmo muito rigor. De qualquer forma, trata-se de um trabalho nada desprezível como narrativa de gênero(s). E traz no elenco aparições bem-vindas de Tonico Pereira, Selma Egrei e Carmem Moretzsohn.



Alguém que volta à terra natal depois de muitos anos é mote frutífero para filmes e romances. Quando a terra natal é no Oriente Médio, a colheita costuma ser melhor ainda. Na primeira cena de DE VOLTA, a jovem Nada está chegando dos EUA à casa onde viveu a infância com o irmão e o avô num vilarejo do Líbano. A mansão fora ocupada e vandalizada por gente desconhecida. Nada está disposta a resgatá-la das ruínas e habitá-la. Mais que tudo, ela quer descobrir o que aconteceu com o avô querido e desaparecido durante a guerra civil.

A diretora libanesa Jihane Chouaib adere fortemente a sua personagem e cria um quadro ligeiramente misândrico, onde os homens são associados à violência e à venalidade de maneira quase automática. A perseverante Nada escava suas lembranças e seu quintal em busca de decifrar o enigma do avô até que uma memória recalcada venha à tona ao final do processo. A narrativa pontuada por curtos flashbacks da infância acaba criando um padrão monótono e esquemático, enquanto o interesse da história gradativamente se dilui, uma vez que os aspectos políticos e a trama do passado são esvaziados em prol de um rascunho de psicologia.

DE VOLTA traz de bom uma certa intensidade no uso dos closes, especialmente da beldade iraniana Golshifteh Farahani. Embora ela atue mais como uma modelo fashion e exprima todas as emoções através de respiração ofegante, a incorporação da personagem não deixa de ter sua eficácia. Golshifteh guarda uma semelhança oblíqua com Nada. Ela está proibida de botar os pés no Irã desde que posou nua para uma revista francesa anos depois de emigrar clandestinamente para Paris.

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