Getty perdeu a orelha e Scott, o “ouvido”

O paralelo pode soar impróprio, mas me parece irresistível. O jovem John Paul Getty III foi sequestrado pela máfia calabresa em 1973 e teve uma orelha cortada para forçar o pagamento do resgate. Mais tarde, passaria por uma cirurgia de reconstrução do órgão, mas não escaparia das sequelas emocionais do sequestro. Levou uma vida de ator frustrado e milionário infeliz, viciado em álcool e drogas, vencido por longas enfermidades (chegou a ficar quadriplégico) até morrer em 2011, aos 54 anos.

Por sua vez, o filme TODO O DINHEIRO DO MUNDO, baseado no episódio de 1973, foi “sequestrado” pelo escândalo envolvendo o ator Kevin Spacey, que acabara de atuar no papel do avô, o zilionário Paul Getty. Ridley Scott teve que extirpar todas as imagens de Spacey (foto à esquerda) e refilmar suas cenas com Christopher Plummer. O filme está nas telas, mas não parece ter se recuperado do trauma.

Notam-se alguns efeitos digitais resultantes da exclusão do ator, sem falar na sequência da chegada da família à mansão do patriarca, quando dois filhos de Gail Getty simplesmente desaparecem de uma sala para outra. Mas esses são os menores dos problemas.

Apesar da escalação perfeita de Plummer, custo a crer que a presença de Spacey fosse melhorar o que, no geral, me pareceu beirar o desastroso. Quando erra, Ridley Scott erra de mão cheia. O thriller se arrasta por 132 minutos gelados e sonambúlicos, sem que nada de extraordinário se revele sobre a psicologia dos personagens, já que o foco, aparentemente, seria esse. A impressão é que todo o interesse estava em retratar o velho Getty como um monstro de egoísmo e frieza, alguém capaz de comprar qualquer coisa ou pessoa, desde que a preço aviltante e podendo deduzir no imposto de renda.

Não duvido que tenha sido assim, nem que muitos dos trechos mirabolantes do filme tenham ocorrido realmente. Mas do jeito que Scott os narra, é simplesmente inconcebível. O diretor parece ter perdido o “ouvido” para o gênero thriller. Os estereótipos italianos são grosseiros, as cenas da libertação do rapaz parecem saídas de um filme B de antigamente, e os diversos equívocos na procura do esconderijo mais sugerem manipulações baratas de roteiro do que apego aos fatos. Mesmo quando existe, a fidelidade por si só não garante verossimilhança cinematográfica. É nessa equação que o filme naufraga. Afunda também quando se alonga de maneira óbvia na cena da extirpação da orelha do jovem Getty. E que me perdoem os fãs de Michelle Williams, mas a sua mater dolorosa é um poço de afetação desencontrada e pausas incongruentes.

2 comentários sobre “Getty perdeu a orelha e Scott, o “ouvido”

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