Corpos subversivos

O município de Serra do Ramalho, no Oeste da Bahia, era a “cidade do futuro” prometida pelos militares quando removeram mais de 20.000 famílias dos locais a serem inundados pela represa de Sobradinho na década de 1970. Os personagens de A CIDADE DO FUTURO reúnem velhos colonos daquela época e herdeiros da remoção. Os diretores Cláudio Marques e Marília Hughes revelam hoje uma cidade de vaqueiros, gente retrógrada e preconceituosa.

Contra esse cenário colocam-se três jovens dispostos a enfrentar o conservadorismo de maneira desabrida. O romance entre Gilmar e Igor já caiu na boca do povo. Milla, professora de teatro, também tem seus flertes homossexuais, mas se vê grávida de Gilmar. Os três ensaiam construir uma família anticonvencional e sofrem todo tipo de hostilidade.

As intenções são ótimas, porém falam alto demais. O filme se arma de uma maneira bastante didática, com cenas destinadas a ilustrar cada questão: a homofobia, o machismo, o déficit de liberdade individual, a vulgarização da cultura via televisão, a colonização dos costumes (Halloween), a presença do Mais Médicos e por aí afora. Ao contrário do longa anterior de Cláudio e Marília, o cativante e coeso Depois da Chuva, este padece de um roteiro por demais fragmentado, no qual elementos importantes se perdem, como o teatro-documentário feito pelos escolares e mesmo as ressonâncias da época da ditadura.

Com dificuldades na atuação dos atores de teatro amador, a encenação frequentemente se mostra naïf e incapaz de suprir o que os diálogos ralos deixam de dizer. A opção de buscar nos atores um naturalismo desdramatizado gera falas apáticas e, porque ditas entredentes, às vezes difíceis de decifrar. Não é sem um certo custo que chegamos, enfim, a compreender que aqueles jovens estão tentando fabricar com o próprio corpo um novo projeto de futuro para sua cidade.

2 comentários sobre “Corpos subversivos

  1. Entendi que não seriam atores amadores mas os próprios Igor, Geraldo e Milla reencenando suas vidas. Mas não estou 100% certo disto. Li em algum lugar de um modo pouco claro.

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