O guru gauche do Tropicalismo

O excelente documentário ROGÉRIO DUARTE, O TROPIKAOSLISTA começa com uma vertiginosa colagem tropicalista de imagens da política, das artes e da cultura dos anos 1950 aos 90. Nós não temos tempo de decodificar muita coisa, mas recebemos um jato sintético de signos que nos sintonizam imediatamente com o mundo em que viveu o baiano Rogério Duarte (1939-2016). Depois dos créditos iniciais, é Rogério quem vai nos dominar, seduzir e embasbacar com sua eclética inteligência e aguda lucidez.

Para sorte nossa, o diretor José Walter Lima não chamou ninguém para elogiar seu personagem. Ninguém para explicar a imensa influência que ele exerceu sobre toda uma geração (ou duas) de artistas, entre os quais Glauber Rocha, Caetano Veloso e todos os criadores, como ele, do Tropicalismo. Ninguém melhor do que o próprio para contar suas sete vidas em forma de “causos” divertidos e reflexões cintilantes sobre a vida, a morte e tudo o que há entre uma e outra.

Em vez de uma biografia linear, temos uma espiral sempre surpreendente, que aos poucos vai desvelando as muitas camadas do talento e da personalidade holística de Rogério. Nisso o filme se vale da sua verve de narrador, da incrível capacidade de articular ideias com humor e clareza, do misto de objetividade e irreverência que poucos intelectuais podem ostentar.

Uma fortuna de trechos de filmes raros (como Apocalipopótese, de Raymundo Amado, e Cultura & Loucura, de Antonio Manuel), obras de Glauber e arquivos formidáveis ancoram as reminiscências do guru gauche que se multiplicou sem cessar ao longo de 77 anos: designer gráfico, ilustrador, criador de jornal, escritor, poeta, músico, performer, matemático, pensador, inventor cultural, adepto do Hare Krishna, enxadrista, alquimista, fazendeiro… E ainda ganhamos o bônus de dois momentos de êxtase a cargo de Gilberto Gil e Caetano Veloso interpretando canções relacionadas a Rogério.

Mais que tudo, esse documentário nos deixa com saudade de um Brasil radiante, que veio da segunda metade da década de 1950 até 1964, quando a Bahia dava régua e compasso para as vanguardas do país. Mesmo depois do golpe civil-militar e ao longo da década de 70, as artes brasileiras continuaram a produzir resistência de primeira grandeza. Rogério Duarte esteve no centro desse período; depois mergulhou na reclusão, foi internado como louco e enfrentou o câncer (“a doença me curou”) para só reemergir cerca de 20 anos depois com seu livro Tropicaos. O filme do também baiano José Walter Lima o seguiu em viagens à pequena Ubaíra natal e à Frankfurt que sediou sua última grande exposição. Também o seguiu do desenho industrial ao engenho underground, do racionalismo à espiritualidade. Fez jus ao gênio – é o mínimo que posso dizer.

Veja o curta Apocalipopótese completo no Youtube.

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