Cisões marroquinas e um Schiele sem volúpia

Sobre PRIMAVERA EM CASABLANCA e EGON SCHIELE – MORTE E A DONZELA 

Caldeirão nada romântico

Filmes compostos de várias histórias interligadas – o chamado multiplot – são um modelo potencialmente mais coeso que os filmes em episódios separados. Ao mesmo tempo, são armadilhas fáceis para o oportunismo. O caso de PRIMAVERA EM CASABLANCA, de Nabil Ayouch (dos superiores As Ruas de Casablanca e Much Loved), não chega a ser dos mais graves. Através de cinco linhas narrativas separadas em dois tempos (1982 e 2015), o filme monta um painel das fissuras que dividem a moderna sociedade marroquina antes e depois de a Primavera Árabe passar de raspão pelo país.

Nos anos 1980, vemos a pressão dos radicais muçulmanos se exercer sobre um professor que utiliza o dialeto berbere (em lugar do árabe) para que as crianças de um vilarejo nas montanhas Atlas possam apreender seus ensinamentos. A partida do professor interrompe o romance que ele vinha mantendo com uma viúva do lugar. Esse módulo serve de lastro conceitual para os outros conflitos que terão vez em 2015, enquanto as ruas de Casablanca fervilham de protestos trabalhistas e choques entre tradicionalistas pró-árabes e liberais pró-Ocidente.

Aqui entra em cena a imponente atriz Maryam Touzani, também corroteirista do filme, no papel de Salima, uma mulher sensual e provocante que desafia os códigos de conduta feminina no país. Outro plot se desenvolve em torno de um jovem músico gay que aspira ser “o Fred Mercury marroquino” e enfrenta o bullying e a rejeição do pai. Temos ainda um judeu acossado pelo antissemitismo difundido em várias camadas sociais, uma patricinha sexualmente confusa e um garçom maduro (vindo do episódio nas montanhas) que escapa da sua dura realidade por meio de um culto ingênuo ao clássico Casablanca, de Michael Curtiz.

Esse último personagem encarna a intenção principal do filme, qual seja a de desmontar uma visão romântica que ainda se possa ter do Marrocos com o passar do tempo (as time goes by). “Nenhuma cena de Casablanca foi rodada no Marrocos”, ouve a certa altura o garçom, decepcionado. Para o diretor Nabil Ayouch (dos superiores As Ruas de Casablanca e Much Loved) e sua mulher Maryam Touzani, o seu país é na verdade um caldeirão de preconceitos, homofobia, ódio interreligioso e interétnico, diferenças sociais abissais e insatisfação popular. O governo marroquino (uma monarquia constitucional) tem conseguido tão somente dissimular esse barril de pólvora sob uma seda de estabilidade precária.

Se por um lado PRIMAVERA EM CASABLANCA nos apresenta esse painel com certa eficácia superficial, por outro sacrifica a densidade dos personagens e a sutileza em prol da mera exposição. Tudo é bastante estereotipado, especialmente as classes mais abastadas, que ganham tintas de decadência nos costumes e comportamentos pouco amparados por uma lógica narrativa. Quando surge o inevitável desdobramento final para reunir os participantes, ficamos com a sensação de que todos foram, mais que criaturas palpáveis, simples marionetes de uma tese político-etnográfica.

Faltou arte

Fazer a vida de um grande pintor parecer desimportante não era certamente a intenção de EGON SCHIELE: MORTE E A DONZELA. Mas foi o que aconteceu. Narrando os últimos oito anos de sua vida a partir das relações com cinco mulheres, o filme do austríaco Dieter Berner não ultrapassa a superfície do padrão biográfico e apresenta um personagem quase sempre desprezível, uma vez que as telas voluptuosas e perturbadoras têm espaço mínimo.

No roteiro adaptado do livro de Hilde Berger, Egon – cujo nome ressoa sua egolatria – trata as mulheres como modelos descartáveis. A começar pela irmã menor de idade, que posa nua para ele e é tratada como propriedade sua. Com a espevitada dançarina Moe, ele mantém um vínculo de mera exploração, dividindo-a com os amigos. Rouba uma modelo de Gustav Klimt, seu mentor, e vive com ela até trocá-la por uma esposa de maiores posses, irmã de outra com quem flertava. Enfim, um pequeno garanhão que colocava os pincéis e o sexo em pé de igualdade, embora desse prioridade aos primeiros.

Perdeu-se a chance de fazer um estudo mais perspicaz sobre arte e erotismo, e quem quiser isso pode procurar em Egon Schiele: Excesso e Punição, de Herbert Vesely (1980). Ambos os filmes ressaltam o aspecto mais escandaloso da vida de Schiele, que foram as acusações de pedofilia. Mas em MORTE E A DONZELA (título de um quadro famoso), à parte algumas boas atuações femininas, isso é feito de modo corriqueiro, com recursos de velhas produções de época para a TV europeia. Tudo está correto, mas nada impregna, nada chega a sugerir de onde vinha a volúpia de traços e de cores que Schiele levava para seus quadros.

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