Bergman e o nazismo

Bergman e amigos em 1946

O centenário de Ingmar Bergman está sendo amplamente comemorado pelo mundo inteiro. Livros, exposições, retrospectivas, seminários… No Brasil está em cartaz o documentário Bergman 100 Anos, focado na hiperprodutividade do artista durante o ano de 1957, quando ele lançou dois filmes, filmou mais dois e dirigiu um telefilme e quatro peças de teatro. A partir desse mote temporal, o filme de Jane Magnusson faz um grand jetée sobre toda a carreira e a personalidade peculiar do devorador de biscoitos Maria.

Desde bem antes de sua morte, em 2007, Bergman já era considerado o maior gênio produzido pelo moderno cinema de arte na segunda metade do século XX. Seus filmes são cultuados como obras quase divinas, em que a existência do homem perante Deus e na convivência com seus semelhantes foi devassada nos seus vãos mais íntimos.

Tanta devoção – perfeitamente justificada – tem convivido em paz com a má fama de um temperamento difícil e de uma masculinidade tóxica. Mas tem deixado na sombra um traço pouco elogiável do mestre sueco. Ele já havia mencionado em outras ocasiões um dado sempre relegado por seus fãs. Mas foi em 1999 que se divulgou em detalhes, através do livro Honor and Conscience, de Maria-Pia Boethius, que Bergman fora um ardoroso admirador de Adolf Hitler em sua juventude. Desde que presenciou um comício em 1936, durante uma viagem de intercâmbio na Alemanha, o futuro cineasta sentiu-se eletrizado pelo carisma do Führer. Ele estava hospedado na casa de uma família nazista.

“O nazismo que eu via parecia divertido e juvenil”, ele admitiu à escritora. “A grande ameaça eram os bolcheviques, que eram odiados”. O livro também relata um ataque do irmão e amigos de Bergman a uma casa de propriedade de um judeu. O grupo pintou as paredes com uma suástica. Ingmar não participou, mas admitiu ter sido covarde demais para levantar objeções.

Ao que consta, Bergman manteve sua admiração pelos nazistas durante toda a II Guerra Mundial. O que se seguiu foi muito parecido com o que colaboradores do nazismo costumavam afirmar: “Quando as portas dos campos de concentração foram abertas, a princípio não quis acreditar em meus olhos”. A descoberta do Holocausto teria sido para ele um choque hediondo. “De uma maneira brutal e violenta, de repente fui arrancado de minha inocência.”

Bergman nunca se desculpou formalmente, nem foi cobrado a fazê-lo. A Suécia foi considerada neutra durante a II Guerra, muito embora seu governo tenha vocalizado posições favoráveis aos alemães. Bergman evitava abordar temas diretamente políticos em seus filmes. Ele declarou a seu biógrafo Stig Bjorkman:

Que eu não me interessava por política ou assuntos sociais, isso é evidente. Eu era totalmente indiferente. Depois da guerra e da descoberta dos campos de concentração, e com o colapso das colaborações políticas entre russos e americanos, acabei de me retrair. Meu envolvimento tornou-se religioso. Eu entrei em uma linha psicológica e religiosa. A questão da salvação e condenação, para mim, nunca foi política. Foi religiosa.

O Ovo da Serpente

O nazismo acabaria aparecendo no seu único filme produzido com dinheiro de Hollywood, O Ovo da Serpente, de 1977. Talvez seja pouco para configurar um exorcismo. No filme, transcorrido em 1923, não há menções diretas a Hitler, que ainda não havia tomado o poder. A trama se passa em meio à profunda crise econômica e existencial da Alemanha, quando um acrobata desempregado e sua cunhada prostituta descobrem que estão sendo cobaias de alguns dos experimentos sinistros levados a cabo por um cientista chamado Dr. Vergerus, nome de vários personagens negativos ao longo da obra bergmaniana. Nesse momento histórico, estava sendo gerado o ovo da serpente nazifascista.

Vergonha

Afora isso, o mais próximo que Bergman chegou de temas eminentemente políticos foi ao tratar da guerra como fenômeno em Vergonha (1968) e O Silêncio (1963). Em ambos, porém, os personagens estão alienados do processo político e social. Em Vergonha, um casal de violinistas apolíticos se muda para o campo e tenta se manter à margem de uma guerra civil, mas não consegue evitar seus reflexos, nem tampouco a guerra individual que se estabelece entre os dois. Na época, Bergman se via instado pela guerra do Vietnã a falar da realidade do momento, mas se sentia incapacitado para tal. Ainda assim, este pode ser considerado um filme de guerra, com direito a bombas, incêndios, cadáveres e brutalidade explícita. A deportação dos judeus é aludida indiretamente através do casal Rosenberg.

Já em O Silêncio, a guerra é somente uma sombra indefinida a agravar os conflitos interiores dos personagens. Antes disso, era possível notar esse assunto nas entrelinhas de O Sétimo Selo (1957). Ali, o cavaleiro da Idade Média vivido por Max Von Sidow retornava das Cruzadas como um soldado voltava da guerra. O estado das coisas parecia remeter ao rescaldo da destruição da II Guerra, enquanto a peste podia ser associada a sua versão moderna, o holocausto nuclear.

Pai e filho em Fanny e Alexander

As simpatias do jovem Bergman pelo nazismo foram certamente mais uma influência do seu pai, um pastor luterano ultra-direitista que lhe insuflou o melhor (o amor pelo teatro) e o pior. Talvez por isso, quem reparar na imagem do pai morto no autobiográfico Fanny e Alexander (1982) vai perceber uma sintomática semelhança com Hitler.


A seu pedido, deixo aqui um comentário enviado por e-mail pelo crítico Ely Azeredo, um dos mestres da minha formação:

“Em 1936, quando o jovem Ingmar Bergman visitou o Reich alemão, o país era alvo de admiração quase unânime. Foi o ano das Olimpíadas – admiradas pelo mundo – inclusive através da nunca rivalizada visão olímpica dos documentários de Leni Riefenstahl.
Nunca uma nação se reergueu das cinzas de uma guerra de forma quase sobreumana como a Alemanha. Entre outros líderes, Winston Churchill proclamava sua admiração; a ponto de lamentar que o Reino Unido não tivesse um Hitler (sic).
Fazia parte da estratégia de Hitler exaltar a Paz! Com sua máquina de guerra pronta para as ofensivas, ele saiu da reunião de cúpula de Munique (França, Inglaterra etc) como um profeta da ‘não-agressão’.
Bergman não poderia saber que aquela Alemanha ‘anti-guerra’ era produto de mise-en-scène.
Cinéfilo, Hitler via filme toda noite. O Reich tentou com fervor quase religioso convencer Fritz Lang a não debandar. Não conseguiu. E o clássico cineasta se incorporou à ‘legião estrangeira’ de Hollywood.”

2 comentários sobre “Bergman e o nazismo

  1. …”– Que eu não me interessava por política ou assuntos sociais, isso é evidente. Eu era totalmente indiferente. Depois da guerra e da descoberta dos campos de concentração, e com o colapso das colaborações políticas entre russos e americanos, acabei de me retrair. Meu envolvimento tornou-se religioso. Eu entrei em uma linha psicológica e religiosa. A questão da salvação e condenação, para mim, nunca foi política. Foi religiosa.”…

    Bravos, Carlos! Cotação pertinente e que estimula por si só um fervoroso debate.

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