A hora da bailarina

PACARRETE

Marcélia Cartaxo nos conquista já na cena de abertura de Pacarrete, quando sai à calçada de sua casa dançando com uma vassoura. Lembra Fred Astaire com seu cabideiro em Núpcias Reais. Marcélia é a dona do filme de Allan Deberton no papel da bailarina que envelheceu na pequena Russas, Ceará, e se tornou uma mulher ranzinza.

Às vésperas da comemoração dos 200 anos da cidade, ela pretende apresentar um “balê”, mas a prefeitura só quer saber de forró. Marcélia se esmera numa composição difícil, que mistura o verniz requintado da antiga bailarina com a mulher carente e irritadiça que não se conforma com a decadência. Pacarrete usa termos em francês e chapéus de belle époque, mas para os outros é apenas “a mulher doida”.

À medida que avança o filme, cresce a pergunta se a franzina Marcélia suportará o peso de carregá-lo nas costas. Por mais simpatia que ela irradie, mesmo quando se mostra amarga e choramingas, no fim das contas Pacarrete soa unidimensional, às vezes excessivamente caricata, sem pausas para mostrar-se por inteiro. Penso que faltou uma melhor dosagem no roteiro e na direção, daí resultando uma rarefação da dramaturgia, que gira sempre no mesmo ponto. Os diálogos, em geral bem escritos, carecem de um maior dinamismo no ritmo. Várias cenas de bom potencial se estendem além da conta e acabam perdendo força. O desfecho, apelando ao irrealismo da imaginação, chega como uma saída fácil demais para o impasse da personagem.

Se fraqueja nesses aspectos, por outro lado o filme se impõe nos detalhes menores. A relação de Pacarrete com o quitandeiro Miguel (João Miguel), com a empregada (Soia Lira), com a irmã doente (Zezita Matos) e com o cachorrinho He-Man (Gentil) tem bons insights de humor e ternura. A calçada tão querida dá margem a cenas divertidas, e os momentos de introspecção da protagonista criam sempre a expectativa de que algo mais denso vá aparecer.

Se não fosse por mais nada, Pacarrete valeria a pena por mais uma atuação inesquecível de Marcélia Cartaxo, resultado de um grande empenho de caracterização. É sua volta à culminância de A Hora da Estrela, que lhe deu o Urso de Prata no Festival de Berlim. Eis uma atriz que parece fadada a encontrar nesses personagens extremos o seu lugar natural.

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