Duas ou três coisas sobre o Oscar

A conquista de um primeiro Oscar por um filme tão importante como Ainda Estou Aqui  coroa majestosamente a carreira do filme de Walter Salles e nos enche de justo orgulho. Waltinho naquele palco fez justiça a toda a trajetória de um cineasta consciente e talentoso como ele. O fato de Fernanda Torres não ter ganho a estatueta de melhor atriz em nada desmerece o trabalho de quem já subiu no pódio de grande estrela internacional (“Fernanda Towers”, como ela gosta de brincar). Fernandinha teve a oportunidade de espargir seu carisma pelo mundo afora e, aqui dentro, virou a queridinha do país. Totalmente premiada.

Anora voltou a surpreender, como havia feito ao levar a Palma de Ouro em Cannes. O filme de Sean Baker é de uma simpatia avassaladora e deixa um comentário social que nem todos estão valorizando como deviam. De qualquer forma, houve certo exagero em dar-lhe os prêmios de melhor filme, melhor direção e melhor atriz. Nesse aspecto, deixando de lado nossa torcida por Ainda Estou Aqui e por Fernandinha, Emilia Pérez tem mais vigor e ousadia. O cancelamento, porém, se não funcionou em outras premiações, calou fundo no Oscar, e o filme de Jacques Audiard saiu com apenas dois prêmios, de canção e atriz coadjuvante (Zoe Saldaña). Mikey Madison está cativante em Anora, mas esse Oscar estaria melhor nas mãos de Fernanda. Sem falar na expectativa de Demi Moore, a franca favorita a quem restou somente a decepção.

Fiquei muito feliz com a vitória de Flow em animação, um filme letoniano que também emplacava pela primeira vez. Temia que os votantes tivessem optado pelo festejado e, para mim, irritante Robô Selvagem. Mas vibrei mesmo foi com o Oscar de melhor documentário para Sem Chão (No Other Land), testemunho revoltante da ocupação israelense na Cisjordânia, mostrando toda a sua face cruel na forma como soldados e colonos armados escorraçam os palestinos de suas terras. O filme entra em cartaz no Brasil nesta quinta-feira. O discurso dos diretores foi um petardo na consciência dos EUA, cujo governo apoia indiscriminadamente o genocídio em Gaza. Um dos grandes momentos políticos da história do Oscar. Nesse quesito, vale citar a ênfase com que Zoe Saldaña celebrou a presença dos imigrantes.

No capítulo das curiosidades, vale lembrar a aparição surpreendente de Mick Jagger para entregar o prêmio de melhor canção, e ainda tirando sarro com a idade de Bob Dylan. Mas há quem diga que, com seu proverbial pé frio, Jagger tirou o Oscar da nossa Fernandinha.

Adrien Brody atirando o chiclete para a namorada foi um gesto divertido, mas logo anulado pela arrogância do ator ao desrespeitar o tempo dos agradecimentos, esticando sua fala autocentrada e ainda criticando um suposto antissemistismo. O pomposo O Brutalista, um dos favoritos a melhor filme, ficou com três estatuetas: além de ator, fotografia e trilha musical.

Quanto às piadinhas do apresentador Conan O”Brien, afora as parvoices costumeiras nesse tipo de stand up comedy, pegou mal a referência a Ainda estou Aqui. Mencionando que o filme trata de uma mulher que “ficou sozinha depois que o marido desapareceu”, ele completou: “Minha mulher adorou esse filme e queria que acontecesse o mesmo com ela”. Falta de tato, sem dúvida, mas dentro da tradição de falta de tato com que os apresentadores do Oscar tentam parecer ousados. A omissão de Cacá Diegues e Alain Delon entre os que nos deixaram na temporada foi outra pisada na bola.   

7 comentários sobre “Duas ou três coisas sobre o Oscar


  1. Francamente, achei “Anora” um filme muito ruim, boboca e superficial, a respeito de um bando de pessoas perfeitamente idiotas e dispensáveis. Filmes sobre gente com inteligência limitada, ética discutível e comportamento estúpido são, por definição, inteiramente desprovidos de graça ou interesse. Fico surpreso com as críticas positivas e os prêmios recebidos por essa comediazinha fraquíssima.

    Alberto Flaksman

  2. concordo com tudo. Excelente! Eu só esperava uma postura mais anti Trump. Mas foi o Oscar menos político que já assisti.

  3. Perfeito, Carlinhos! Embora tenha visto pouquíssimo filmes do Oscar, tendo a concordar com você, graças às deusas e deuses! Melhor momento da Noite, Sem Chão e o discurso dos meninos e, claro, nosso 1o

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